Calma, a crise é setorial

Ao participar de um evento técnico, no final de março de 2015, tive o ensejo de ouvir de um profissional defensor da racionalidade e do acerto da política econômica que vem sendo adotada no Brasil desde o derradeiro trimestre de 2008 e, de forma um tanto quanto acanhada, do ajuste ortodoxo praticado pela dupla Levy-Tombini, neste começo de ano, a máxima de que a instabilidade atual é setorial. Na ocasião de minha fala, no referido encontro, consegui, por meio do exame de algumas estatísticas apuradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirmar o acerto do diagnóstico do colega. De fato, a recessão tornou-se setorial ao atingir todos os setores, exceto algumas cadeias produtivas presas ao agronegócio que, ainda assim, padecem com a conjuntura de declínio das cotações das commodities alimentares nos mercados globais.
A rigor, a marcha cadente que arrebanhou as variáveis de mão de obra industrial, particularmente nível de emprego e horas pagas, e produção fabril, a partir de 2012, por conta, em princípio, do enfraquecimento estrutural da demanda externa, e, depois, da contração da absorção interna, incorporou as atividades comerciais e de serviços, em 2014, fruto primordialmente da deterioração da oferta de crédito e do mercado de ocupações, que, junto com o alargamento do programa Bolsa Família, representaram os verdadeiros baluartes da orientação anticíclica praticada pela gestão Dilma Rousseff.
A produção, o emprego, a jornada trabalhada e a massa de salários reais (depurada do efeito inflacionário) do segmento manufatureiro nacional encolheram -4,5%, -3,6%, -4,4% e -2,5%, respectivamente, em um ano encerrado em fevereiro de 2015, sugados, na base, por bens de capital, e, na ponta, por bens de consumo duráveis, fenômeno revelador do irremediável comprometimento da capacidade de expansão de longo prazo do aparelho de negócios do País.
As vendas reais das atividades do comércio varejista decresceram -3,8% em doze meses até fevereiro de 2015, puxadas por veículos, motos e peças (-12,8%), livros e jornais (-9,1%), materiais de construção (-2,8%), móveis (-2,7%), roupas, tecidos e calçados (-2,2%) e eletrodomésticos (-1,0%). A comercialização de supermercados e hipermercados e combustíveis girou em 0,3% e 0,2%, respectivamente. Crédito escasso e caro, aceleração da inflação e vertiginoso recuo do emprego e da renda proveniente do trabalho estariam na raiz da trajetória declinante.
Em idêntico sentido, a receita do setor de serviços (com desconto da inflação, feito pelo autor, pois o IBGE não se arrisca em tal empreitada), retrocedeu -2,8%, no intervalo em tela, com destaque para as escorregadas acontecidas em informação e comunicação (-5,3%) e transportes e correios (-3,0%), evidenciando a perda de qualidade e de intensidade do vigor da economia brasileira.
Por fim, os indicadores de ocupação e rendimento corroboram o cenário estarrecedor do lado real do sistema de transações. O desemprego metropolitano, mesurado pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do IBGE, chegou a 6,2% da população economicamente ativa (PEA), em março de 2015, contra 5,9% PEA, em fevereiro, 5% da PEA, em março de 2014, e 4,8% da PEA, na média do exercício de 2014. Enquanto isso, o rendimento médio real caiu -2,8% e -3% frente a fevereiro de 2015 e março de 2014, respectivamente.
De seu turno, estimativas geradas pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua (Mensal), realizada pelo IBGE, em 3.500 municípios brasileiros, revelam que a desocupação subiu de 6,8% da PEA, na média trimestral de novembro de 2014 a janeiro de 2015, para 7,4% da PEA, no período compreendido entre dezembro de 2014 e fevereiro de 2015. A observação e o cotejo entre os resultados das duas pesquisas, PME e PNAD, permite afirmar que o fantasma do desemprego voltou a assombrar a população e exibe maior dramaticidade fora dos espaços geográficos metropolitanos.
Diante de informações tão elucidativas, não posso assumir outra atitude que não seja a de rendição aos argumentos expressos pelos arautos da incursão intervencionista, que domina a nação desde a eclosão do default financeiro exógeno, em 2008, e reconhecimento de que a crise é setorial. Mais que isso, as administrações do executivo e legislativo são exemplares, não há problema de articulação no interior dos poderes e entre eles, e as estatais não foram privatizadas pela corrupção e o aparelhamento político. Aliás, mesmo que esse último episódio fosse verdadeiro, os culpados seriam Machado de Assis e Getúlio Vargas, eternizados nas ações dos atuais golpistas de plantão.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, professor e editor da Revista Vitrine da Conjuntura da FAE Centro Universitário.



