Ciclo dos juros e recessão

Gilmar Mendes Lourenço.
Gilmar Mendes Lourenço.

Com a decisão tomada em 3 de junho de 2015, de manter a marcha de elevação da taxa Selic, alçando-a de 13,25% ao ano para 13,75% a.a., o mesmo nível vigente em dezembro de 2008, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), novamente minimizou os sinais de aprofundamento da maior contração econômica registrada pelo País na última década e meia, superada apenas pelo desempenho verificado em 1990, quando os negócios foram paralisados com o confisco de ativos financeiros promovido pelo Governo Collor.

Na verdade, a recessão evidencia o real valor da fatura cobrada pelo relaxo com o controle da inflação e a perdulária gestão das finanças públicas, a partir do segundo semestre de 2011. Aqueles dois pecados combaliram a confiança dos agentes na independência operacional, e até na racionalidade, prevalecente nas escolhas da autoridade monetária, prejudicando, sobremaneira, a crença ou as apostas de regressão dos níveis inflacionários para 4,5% a.a., em 2015 e 2016, representado o centro da meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), com margem de aceite de dois pontos percentuais para cima e para baixo.

Nessas circunstâncias, a tentativa de recuperar a credibilidade perdida, em linha com o ajuste fiscal capitaneado pelo Ministério da Fazenda, exigiria, do BC, atenta e redobrada observação do ciclo da conjuntura, sob o perigo de o esforço para galgar êxito na coordenação das expectativas dos atores, vir a ser anulado pela deflagração de uma depressão nos níveis de atividade.

É preciso reconhecer que a estratégia monetária repousa em três objetivos integrados: extirpar a inércia dos preços; atrair capitais externos de curto prazo e, por extensão, sufocar as inclinações para baixo, na curva do real, e para cima, da inflação; e assegurar a rolagem dos papéis da dívida pública, condição essencial para a manutenção do selo de grau de investimento, conferido pelas agências internacionais de classificação de risco de crédito.

Não obstante, percebe-se reduzida aderência entre a postura do BC e o estado geral do sistema econômico brasileiro. A autoridade desprezou o acentuado e consistente declínio do produto interno bruto (PIB), por quatro trimestres seguidos, até março de 2015, quando tomado, como referência comparativa, idêntico período do ano antecedente, acumulando regressão de 0,9% em doze meses, apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na sequência, a produção fabril acusou diminuição de -6,3%, entre janeiro e abril de 2015, puxada por bens de capital (-19,7%) e de consumo duráveis (-16%), traduzindo o quadro de debilidade do investimento público e privado e do consumo das famílias.

Não bastasse os tropeços pelo lado da oferta, as variáveis específicas relativas à demanda do sistema continuam em trajetória cadente, determinada pela retração do emprego, salários e consumo privado, em ritmo próximo ao contabilizado no exercício de 2003, quanto o então presidente Lula precipitou a intensificação do ajuste ortodoxo, praticado durante o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (FHC), engavetando a histórica plataforma intervencionista do Partido dos Trabalhadores (PT).

A taxa de investimento situou-se em 19,6% do PIB, nos primeiros três meses de 2015, sendo a menor desde 2009, quando o Brasil padecia com as agruras provenientes da turbulência externa eclodida com a crise do subprime norte americano. No mesmo lapso, as despesas dos consumidores exibiram a primeira queda trimestral desde 2003.

A taxa de desocupação, medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, também do IBGE, chegou a 8% da população economicamente ativa (PEA), no intervalo trimestral compreendido entre fevereiro e abril de 2015, a maior desde o começo da série histórica em 2012, contra 6,8% e 7,1% constatado entre novembro de 2014 e janeiro de 2015 e fevereiro e abril de 2014, respectivamente. O rendimento real médio caiu -0,5% e -0,4% nestas duas bases de confronto.

O pior é que o esfriamento da demanda doméstica vem acompanhado de brutal encolhimento do comércio externo brasileiro, em um estágio de reação branda, porém generalizada, da economia mundial, com destaque para a reativação dos Estados Unidos (EUA) e a superação do panorama recessivo pela maioria do conjunto de países do continente europeu.

O recuo de -18,9% das vendas externas da nação entre janeiro e maio de 2015, mesmo com a depreciação do real, denota que os crônicos problemas de competitividade do parque produtivo, operante em território brasileiro, têm provocado a sua substituição como supridor das cadeias globais. Já, o decréscimo de -17,1% das importações, no mesmo intervalo, revela o tamanho do fosso brasileiro, ensejando projeções de diminuição de até -2% do PIB para o ano fechado.

Por tudo isso, em um estágio de curso cadente das pressões oriundas do mercado de consumo (emprego, renda e crédito) e de compressão da oferta interna, parece razoável argumentar e insistir acerca da pertinência de o BC passar a transferir maior (ou até integral) responsabilidade à austeridade fiscal na eliminação das tensões inflacionárias pelo lado da demanda.

Mais que isso, soa pertinente compreender a natureza extremamente ambiciosa do BC em derrubar o índice de preços, do degrau de quase 9% a.a. atual, para 4,5% a.a., em um período de tempo demasiadamente curto (pouco mais de um ano) para a restauração dos fundamentos e da confiança da sociedade na orientação econômica.

Tal expediente poderia dar lugar à pavimentação de um caminho menos tortuoso e crível de convergência da inflação para o centro da meta, englobando a fixação de prazos mais comedidos, compatíveis com os desequilíbrios no tecido social, ocasionados pelo enorme buraco recessivo que foi cavado recentemente.

Não é ocioso sublinhar que a resistência (ou memória) inflacionária brasileira sofre forte influência dos resquícios de indexação, bastante vivos na correção de inúmeros contratos anuais, em especial aluguéis, planos de saúde e serviços públicos concedidos a segmentos privados, dentre outros, e do choque de preços administrados e do câmbio, represados pelas incursões populistas, predominantes nas ações oficiais entre 2010 e 2014, e que exibem pronunciada imunidade contra a intensidade dos movimentos da Selic.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, professor e editor da Revista Vitrine da Conjuntura da FAE Business School.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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