A queda de popularidade da presidente

Gilmar Mendes Lourenço
Gilmar Mendes Lourenço

Sondagem de opinião realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), apurou rápido e abrupto derretimento da popularidade da presidente da República, Dilma Rousseff, neste primeiro semestre de 2015. Com a obtenção de apenas 9% de conceito ótimo e bom, em junho de 2015, contra 12% constatado no mês de março, a administração da mandatária do País vem decorando a estante das piores avaliações de desempenho de um Chefe de Estado, desde a redemocratização da nação, iniciada em março de 1985.

As aprovações mais encorpadas aconteceram sob a gerência de José Sarney, marcando 71%, em março de 1986, um mês depois do lançamento do Plano Cruzado, caracterizado pelo congelamento generalizado e por tempo indeterminado dos preços; na véspera da posse de Fernando Collor, com 59%, em fevereiro de 1990; no apagar das luzes do mandato de Itamar Franco, com 46%, em dezembro de 1994, graças ao êxito do plano real na supressão da hiperinflação; no comando de Fernando Henrique Cardoso (FHC), com 51%, em março de 1997, em meio à adequação da estabilização monetária aos eventos externos desfavoráveis que assolavam os mercados emergentes; e na pilotagem de Lula, com 80%, em dezembro de 2010, auge do emprego das medidas anticíclicas, mesmo com a fase aguda dos desdobramentos domésticos da instabilidade mundial já superada.

Na verdade, os scores de performances sofríveis de Dilma igualam-se às verificadas no final do governo Sarney, em dezembro de 1989, no auge do fenômeno de estagflação (hiperinflação e recessão), em dezembro de 1989, e se posicionam abaixo dos conquistados por Collor, que cravaram 12%, em agosto de 1992, quando da instauração do processo de impeachment, pelo cometimento de crime de responsabilidade.

Em uma breve observação retrospectiva, percebe-se que, depois de atingir o pico de 63%, em março de 2013, a aprovação da gestão Dilma caiu para 31%, em julho do mesmo ano, reflexo da onda de protestos encenada nas ruas, na defesa de ocorrência de maior transparência nas ações públicas e melhor qualidade no suprimento de infraestrutura social, e subiu novamente para 43%, em dezembro de 2013, fruto do anúncio oficial de alguns pactos sociais que jamais ultrapassaram o terreno da retórica ou do jogo para a arquibancada.

Aliás, a persistente ausência de atenção para com as demandas da população, relacionadas à provisão de serviços públicos eficientes, fez o aval à Dilma recuar para 31%, em junho de 2014. O regresso ao patamar entre 38% e 40%, em setembro e dezembro de 2014, respectivamente, derivou do desfecho do ciclo eleitoral e, consequentemente, da arregimentação, aos trancos e barrancos, de fragmentos de capital político requeridos à montagem de uma equipe capaz de reconhecer e corrigir equívocos e lançar e negociar uma agenda de reformas institucionais, crucial para a retomada sustentada do crescimento econômico.

Em não sendo isso feito e, o que é pior, com a percepção dos agentes sociais acerca da natureza diametralmente oposta entre discurso e propostas, apresentadas durante a campanha de reeleição, e iniciativas efetivas do executivo, precipitou-se o desenho da rota cadente de popularidade da presidente em 2015.

Mais precisamente, o programa de reparos da herança maldita – produzida pela orientação macroeconômica populista e irresponsável, praticada entre 2010 e 2014 -, de cunho conservador, aplicado pelo Ministério da Fazenda e Banco Central (BC), focado em aumento de juros e de impostos, em contraposição à resistência do Palácio do Planalto e do Congresso Nacional na concretização de cortes estruturais nas despesas do setor público, vem ocasionado acentuada fragilização dos níveis de atividade e exacerbação das expectativas menos promissoras.

Pesquisa da CNI aponta queda de -7,3%, -9,3%, -4,5% e -4,5% no faturamento real, horas trabalhadas, emprego e massa de salários reais do parque fabril brasileiro entre janeiro e maio de 2015, em confronto com igual período de 2014. A mesma CNI mostra que 60% das empresas industriais adotaram providências para diminuir a utilização de mão de obra, como férias coletivas, compressão de turnos de trabalho e até demissões, no último meio ano, em razão, primordialmente, da retração da produção (67% das respostas) e da multiplicação das dificuldades financeiras (32%).

Igualmente de acordo com a CNI, o temor dos brasileiros do desemprego chegou a 104,1 pontos (em uma escala entre zero e 200), em junho de 2015, contra média histórica de 88 pontos, sendo o terceiro maior índice da série iniciada em 1999, superado somente por julho e setembro de 1999, com 107,3 e 104,4, respectivamente. Já o índice de satisfação com a vida subiu para 95,6 pontos (faixa de zero a 200), mas, ainda assim, representa o segundo pior resultado da série, atrás apenas de março de 2015 (94,7 pontos), para uma média histórica de 101,8 pontos.

Enquanto isso, o índice nacional de confiança do consumidor, levantado pela CNI, resultou em 96,2 pontos (zero a 200), em junho de 2015, versus média história de 110,6 pontos, sendo o menor desde junho de 2001, provocado pela conjugação entre contração dos rendimentos, agravamento das restrições financeiras e elevação do endividamento das famílias. Nesse contexto, a retirada líquida de R$ 38,5 bilhões das cadernetas de poupança, apontada pelo BC, no primeiro semestre de 2015, a maior da história não constitui mera coincidência.

A marcha descendente do consumo pode imputada, fundamentalmente, à subida do desemprego e da inflação, derivada da “seca, da desvalorização do real e dos preços relativos”, na visão da ilustre economista Dilma Rousseff. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), denotou ascensão da taxa de desocupação de 7,4% da população economicamente ativa (PEA), no trimestre compreendido entre dezembro de 2014 e fevereiro de 2015, para 8,1% da PEA, no trimestre constituído pelos meses de março, abril e maio de 2015. No mesmo período, o rendimento médio real habitual encolheu -0,7%, resultando em R$ 1.863,0/mês (2,36 salários mínimos) por trabalhador.

No que diz respeito à inflação, o índice de preços ao consumidor amplo (IPCA), calculado pelo IBGE, experimentou variação de 8,89% em doze meses encerrados em junho de 2015, representando o maior índice aferido, nesta base de mensuração, desde dezembro de 2003 (9,3%).

Considerando a falta de sinalizações consistentes, na direção da reversão do panorama de vulnerabilidade externa, deterioração das finanças governamentais, teimosia inflacionária e pauperização da matriz produtiva, não é ocioso reconhecer a formação de cenários de definhamento da aprovação popular ao governo e, por extensão, a montagem de palcos políticos alternativos.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, professor e editor da Revista Vitrine da Conjuntura da FAE Business School.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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