A recuperação da economia mundial: algumas características

A despeito de alguns solavancos bastante evidentes, a economia mundial vem, desde o final de 2012, emitindo sinais consistentes de conformação de uma tendência de recuperação moderada, a mais morosa do período pós-segunda guerra, porém generalizada, experimentando taxas de variação do produto interno bruto (PIB) superiores a 3% ao ano.
Mais precisamente, em paralelo à desaceleração da expansão dos mercados emergentes, liderada pela China, que atravessa um estágio de ajuste da bolha de crédito, enchida a partir da instabilidade planetária de 2008, percebe-se a continuidade da reação do ciclo de negócios nas nações avançadas, capitaneada pelos Estados Unidos (EUA), coadjuvada pelo escape da recessão do continente europeu e o modesto reerguimento do aparelho produtivo japonês.
Mais precisamente, a economia norte-americana já contabiliza patamares de desemprego e de inflação inferiores aos vigentes durante o default do segmento hipotecário de segunda linha, em fins de 2008, e opera com juros reais negativos. Ademais, os déficits comerciais aproximam-se de 2% do PIB.
Nesse contexto, parece razoável admitir que o Federal Reserve (FED), banco central dos EUA, venha desencadear uma onda de elevação dos juros somente depois que a espiral inflacionária superar os 2% a.a., ante os 1,2% a.a., atuais, episódio que não aparece nos radares dos analistas, ao menos em um curto horizonte temporal.
De seu turno, com projeção de incremento de 1,5%, em 2015, a economia europeia corrobora o panorama de superação da situação depressiva, ancorado em juros negativos e injeção de mais de um trilhão de euros, entre abril de 2015 e setembro de 2016, patrocinada pelas autoridades monetárias.
Enquanto isso, no Japão, os constrangimentos econômicos provocados pela combinação perversa entre tsunami, terremoto e acidente nuclear, ocorridos em 2011, começam a ser vagarosamente vencidos, com a revalorização do iene e o registro de algum acréscimo nos níveis de atividade no corrente ano. Ainda assim, o cenário é de estagnação.
No entanto, a fonte das atenções globais repousa na economia chinesa que, no afã de fortalecer e blindar o mercado doméstico da crise internacional, por meio de vultosas inversões em infraestrutura e na construção civil, promoveu um verdadeiro salto na relação crédito/PIB, que passou de 130%, em 2008, para 285%, em setembro de 2015, tirando proveito do reduzido custo do capital no front internacional. A correção daquele exagerado apetite vem sendo realizada através da redução do ímpeto de crescimento do PIB, que deve fechar, em 2015, em menos de 7%, algo que não acontecia desde 1990.
A recente exacerbação das expectativas desfavoráveis quanto aos rumos da China deriva dos equívocos cometidos pelo governo, ao depreciar o câmbio fixo, para preservar a competitividade das exportações, o que abriu flancos para a multiplicação de desvalorizações dos preços dos papéis das corporações com elevados passivos em moeda forte. Para contornar os impactos adversos, em curto termo, o banco central chinês optou pela indicação de diminuição dos juros.
Essencialmente, os patinhos feios do filme de subida branda da economia global são Rússia, enfraquecida com o envolvimento em guerras, o recebimento de sanções comerciais e o recuo estrutural das cotações do petróleo, e Brasil, cuja (des) orientação macroeconômica encarregou-se de construir a mais profunda e prolongada recessão da história nacional.
Apenas a título de ilustração, enquanto os países avançados e emergentes, depois de feitos os deveres (fiscais e orçamentários) de casa, impostos pela instabilidade de 2008, apresentam déficit público abaixo de 4% e 3% do PIB, respectivamente, o Brasil carrega um desequilíbrio nominal (incluindo juros) das contas públicas que se aproxima, perigosamente, de 10% do PIB.
É curioso notar que a maior inquietação exposta pelos staffs econômicos dos mercados desenvolvidos reside na intensificação da diminuição das pressões inflacionárias, na direção do delineamento de um processo deflacionário, puxado pelo declínio dos preços das matérias primas, e a subsequente contração das expectativas de lucros corporativos e dos investimentos, em um ambiente de juros praticamente no chão. Seria ocioso destacar que isso seria mortal para o Brasil.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, consultor, professor e editor da Revista Vitrine da Conjuntura da FAE Business School, e ex-presidente do IPARDES.





