A doença da economia brasileira

Gilmar Mendes Lourenço.
Gilmar Mendes Lourenço.

Uma observação estritamente técnica permite identificar a “estagflação” como a principal doença que afeta a economia brasileira, nos dias hoje. Os sinais característicos da moléstia revelam a convivência perversa entre pronunciado e prolongado definhamento dos níveis de atividade e inflação elevada e em ascensão, a despeito das providências ortodoxas utilizadas pelo Ministério da Fazenda e o Banco Central (BC) para contê-la ou debelá-la.

De fato, ao encolher -9,5% entre julho e setembro de 2015, a produção industrial do País, acompanhada por investigação mensal realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), completou cinco trimestres seguidos de generalizada retração, puxada por bens de capital e de consumo duráveis, cuja performance sintetiza o esfacelamento dos alicerces da demanda doméstica, particularmente com o declínio da massa salarial, a elevação do desemprego, a escassez e o encarecimento do crédito, o recrudescimento inflacionário, a retirada líquida recorde de haveres das cadernetas de poupança e a exacerbação das incertezas dos atores sociais.

As projeções das entidades do mercado, consultadas semanalmente pelo BC, apontam decréscimo superior a -3% e -1,5% do produto interno bruto (PIB) da nação, em 2015 e 2016, respectivamente. Se for acrescentada a redução de -2,4%, constatada pelo IBGE entre abril e dezembro de 2014, a referida grandeza macroeconômica acusará, em menos de três anos consecutivos, recuo superior a -7%, o maior da história republicana.

No que se refere à inflação, o índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA), que mede a variação média de preços de uma cesta de produtos consumidos por famílias com renda mensal entre um e quarenta salários mínimos (SM), apurado pelo IBGE, experimentou alta de 9,93%, em doze meses até outubro de 2015, a mais encorpada desde dezembro de 2003 (11,02%).

Porém, quando tomado o resultado apresentado pelo índice nacional de preços ao consumidor (INPC), também do IBGE, tendo como alvo a população com rendimentos mensais entre um e cinco SM, a inflação atingiu 10,33% em um ano, retratando a natureza extremamente concentradora de renda da curva de preços, ao afetar, de maneira mais drástica, aquelas categorias sociais com menor capacidade de defesa.

A recessão também constitui fator de aceleração da desigualdade, na medida em que, em estruturas de mercado predominantemente oligopolizadas como a brasileira, a majoração de custos, derivada da ampliação do grau de ociosidade das plantas; dos reajustes das tarifas de energia, dos preços dos combustíveis e dos transportes, represados politicamente durante alguns anos; da impulsão dos juros e dos impostos; e da depreciação do real; é repassada aos preços nas diversas transações, ao longo das cadeias produtivas, ensejando a conformação de novos patamares de inflação.

Enquanto isso, as grandes corporações e as classes hospedadas no topo da pirâmide social desencadeiam mecanismos de adaptação ao ataque inflacionário-recessivo e de garantia de posições vantajosas no conflito distributivo, através da aplicação dos recursos excedentes, antes destinados à economia real, em ativos financeiros, principalmente em papéis de curto prazo, transacionados pelos bancos para viabilizar a rolagem dos substanciais déficits e dívida do governo.

Este, por sinal, ao se recusar, veementemente, em fazer a lição da casa, expressa na necessidade de redução e racionalização estrutural dos dispêndios, e preferir prosseguir o processo de expropriação de haveres da órbita privada, por meio da ampliação da carga tributária, mantém acesa a chama da inflação e da recessão, condenando a base produtiva do País à perpetuação da estagnação e do atraso.

Não por acaso, algumas inferências preliminares demonstram a dramática coincidência (ou correlação) entre pauperização das condições de funcionamento da economia e reversão das conquistas contabilizadas, a duras penas, pela sociedade brasileira desde fins de 1993, fruto da estabilidade monetária, da implantação das reformas institucionais, da restauração do poder de compra do salário mínimo, da instituição do crédito consignado e das iniciativas oficiais de transferência de renda.

No Brasil, a patologia estagflação tem cura. Conforme a Ciência Econômica, o remédio a ser prescrito deve conter na fórmula o incansável esforço de saneamento do desequilíbrio orçamentário do setor público e o compromisso com rodadas de mudanças estruturais que favoreçam a redução do custo País e a melhoria da eficiência microeconômica.

Até porque, como a estagflação constitui o maior e mais regressivo dos impostos, por prejudicar diretamente a fração mais pobre do tecido social, autoridades econômicas coniventes com esse fenômeno protagonizam, no espetáculo da aliança hegemônica de poder, o papel de verdadeiros arautos da insensibilidade e do retrocesso.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, consultor, professor da FAE Business School.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Um comentário em “A doença da economia brasileira

  1. Perfeito…analise precisa e diagnostico estremamente assertivo. E uma pena que no governo nao encontramos apoio ao Sr Levy, apoio tecnico dessa envergadura, para que as reformas ou medidas necessarias sejam tomadas. O remedio nesse momento é realmente amargo, todavia necessario. O que falta mesmo é bom senso, seriedade e vontade política.

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