Paraná: da crise fiscal ao resgate da competitividade

Gilmar Mendes Lourenço.
Gilmar Mendes Lourenço.

Os meios especializados em análises regionais foram surpreendidos, neste final de 2015, com a divulgação de alguns indicadores de vitalidade competitiva da economia paranaense, em meio à deterioração dos indicadores correntes e a um enorme esforço do governo estadual para enfrentar e debelar a instabilidade fiscal e financeira experimentada pelo tesouro. De fato, o volume de produção do parque fabril operante no Estado caiu -8,5%, entre janeiro e outubro de 2015, em comparação com o mesmo período de 2014, superando, para pior, o sofrível desempenho da indústria nacional (-7,8%), segundo a Pesquisa Industrial Mensal Produção Física – Regional (PIM-PF), efetuada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O quinto maior declínio, entre quatorze unidades geográficas pesquisadas, é fortemente explicado pelas retrações verificadas em veículos automotores, reboques a carrocerias (-31,0%), minerais não metálicos (-18,7%), móveis (-16,7%), produtos de metal (-8,4%), derivados de petróleo e biocombustíveis (-6,1%), máquinas e equipamentos (-5,3%) e alimentos (-1,7%).

O volume de vendas do comércio varejista, também acompanhado pelo IBGE, diminuiu -8,1%, em igual intervalo, contra redução de -7,9% em âmbito nacional, puxado por veículos e motos (-18,3%), móveis (-16,4%), livros jornais e revistas (-12,3%), tecidos, vestuário e calçados (-9,2%), materiais de construção (-8,3%) e eletrodomésticos (-7,3%).

Ao mesmo tempo, parece prudente reconhecer que a administração local tem acusado progressivos problemas de fluxo de caixa, desde o final de 2013, associados a uma gestão financeira menos atenta à racionalização de gastos, em tempos de estagnação econômica, e as sucessivas incursões intervencionistas do governo federal, que comprimiram a arrecadação, particularmente a diminuição da alíquota do imposto sobre produtos industrializados (IPI) para bens de consumo duráveis e materiais de construção, entre 2009 e 2014, que subtraiu parte dos haveres do Fundo de Participação dos Estados (FPE).

Houve ainda a interferência da zeragem da contribuição sobre intervenção no domínio econômico (Cide, conhecida como imposto dos combustíveis), do segundo semestre de 2012 a dezembro de 2014, e da retirada dos encargos federais incidentes sobre as tarifas de energia elétrica, a partir de fevereiro de 2013, principal vetor de arrecadação do imposto sobre circulação de mercadorias e serviços (ICMS).

Mesmo assim, o Paraná ostenta apreciável capacidade de endividamento, atestada pela relação dívida/arrecadação inferior a 0,6, contra média de 0,8, para os demais estados, e entre 1,5 e 2,0, para Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Tal aspecto serve para rechaçar, tecnicamente, os obstáculos de natureza política, erguidos pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN), desde 2011, para a concessão de autorização à obtenção de vultosos empréstimos, aprovados pelas agências internacionais e nacionais, ao governo do Estado.

Pela ótica de curto prazo, o executivo estadual promoveu nova rodada de ajuste fiscal, em 2015, composta essencialmente pela elevação das alíquotas do ICMS de 12% para 18%, para 95 mil itens, e de 28% para 29%, para combustíveis; pelo programa especial de parcelamento dos débitos registrados até 31.12.2014, em 120 parcelas (com diminuição de 50% dos valores das multas e 40% dos juros) ou a vista (com redução de 75% do montante das multas e 60% dos juros); e pela nota fiscal Paraná.

Apesar do quadro adverso das finanças públicas, os agentes públicos e privados atuantes no Estado empenharam-se em uma empreitada conjunta, iniciada em 2011, materializada na feitura de um arranjo institucional na direção da restauração de um clima propício à multiplicação dos negócios por aqui.

Daí a atração de mais de R$ 37 bilhões em projetos de investimentos industriais privados (multinacionais e nacionais) entre 2011 e 2015, protocolados no Programa Paraná Competitivo, visando à diversificação da quarta matriz industrial, comercial e de construção civil do País, de acordo com as pesquisas estruturais do IBGE.

Não por acidente, o Paraná passou a ocupar o quarto lugar no ranking de geração de renda das unidades federativas, desbancando o Rio Grande do Sul, segundo a revisão das Contas Regionais do Brasil, realizada pelo IBGE para o exercício de 2013.

O Estado também possui a segunda menor desigualdade em distribuição de renda, entre as instâncias subnacionais, de acordo com mensurações do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), atrás de Santa Catarina. Os cálculos referem-se ao ano de 2013 e apontam índice de Gini de 0,469 no Paraná, contra 0,527 para o Brasil. O indicador varia entre zero e um, retratando minimização da disparidade na apropriação do produto social quando se aproxima de zero.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, igualmente efetuada pelo IBGE, identificou, no terceiro trimestre de 2015, taxa de desocupação de 6,1% da população economicamente ativa (PEA) no Paraná, a segunda menor do País (8,9%), ficando atrás apenas de Santa Catarina (4,4%).

Por aquela investigação, o Estado contabilizou ainda rendimento médio mensal do trabalho de R$ 2.093,0, 10,8% acima da média nacional (R$ 1.889,0), figurando no terceiro posto da federação, perdendo para o Distrito Federal (R$ 3.512,0) e São Paulo (R$ 2.482,0). O Paraná desfruta da terceira menor taxa de extrema pobreza (US$ 1,25 per capita/dia, ou R$ 120,0/mês) do País, logo depois de Santa Catarina e São Paulo, segundo levantamentos do Banco Mundial e do IPEA.

Na mesma linha, o Estado foi avaliado como o segundo mais competitivo do País, de acordo com o ranking de 2014-2015, preparado pela consultoria britânica Economist Intelligence Unit (EIU), seção de análises do grupo The Economist, e o Centro de Liderança Pública (CLP), em parceria com a empresa Tendências.

Esses trunfos configuram enorme potencial a ser maximizado para o exercício do protagonismo paranaense na retomada sustentada do crescimento econômico da nação, o que exigirá a intensificação da tarefa de pressão política junto à esfera federal visando à eliminação do conteúdo depressivo da política econômica e à negociação de um programa de desenvolvimento de longo prazo para a nação, que incluía um novo pacto federativo, capaz de redefinir receitas e responsabilidades entre união, estados e municípios.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, Economista, Consultor, Professor da FAE Business School, Ex-Presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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