A crise e o emprego na construção civil

Gilmar Mendes Lourenço.
Gilmar Mendes Lourenço.

Em um intervalo de tempo inferior a três anos, a construção civil transformou-se de principal vedete do fenômeno do apagão (escassez) de mão de obra, sobretudo daquela parcela mais vulnerável, que exibe menor qualificação, em um dos maiores vilões da marcha ascendente do desemprego, que assola o País desde o princípio de 2014.

Mais especificamente, o segmento eliminou 396.740 postos de trabalho com carteira assinada no Brasil, em doze meses encerrados em maio de 2016, o que representou 22,3% do saldo líquido de 1.781.906 desligamentos, verificado no conjunto da economia, de acordo com as estatísticas do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego.

Trata-se do terceiro pior desempenho setorial, atrás da indústria de transformação e dos serviços, que registraram diminuição do contingente formal ocupado de 624.124 e 447.848, respectivamente, ou 35,0% e 23,3% do total, no referido período. Apenas no mês de maio, ocorreram dispensas líquidas de quase 29 mil trabalhadores na construção, constituindo a vigésima queda seguida.

De fato, o ramo é fortemente subordinado à dinâmica cíclica do sistema econômico, determinada, de um lado, pelos fluxos de renda oriundos do mercado de trabalho, particularmente das variáveis ocupação e remuneração que, além de sinalizar a capacidade aquisitiva das famílias, geram fração expressiva dos valores destinados às fontes de financiamento utilizadas para aquisições de habitações e espaços comerciais, precisamente os haveres do fundo de garantia por tempo de serviço (FGTS) e das cadernetas de poupança.

De outro lado, o funcionamento do aparelho de produção e de negócios depende da enorme demanda do setor público, encarregado da provisão de capital social básico, especialmente dos investimentos em infraestrutura de energia, transportes, comunicações, saneamento, armazenagem, entre outros itens essenciais à multiplicação das economias externas à operação da iniciativa privada e da qualidade de vida da população.

Por essa ordem de argumentação, é fácil perceber que o atual cenário adverso resulta da combinação entre o pronunciado declínio da comercialização de imóveis e de novos lançamentos, o encurtamento, encarecimento e seletividade do crédito, subjacentes à maior recessão da história republicana, e a brutal contração do volume de obras públicas, executadas, em grande proporção, por empresas envolvidas nos escândalos de corrupção investigados no âmbito da operação lava Jato.

De fato, a radiografia do mercado habitacional privado revela a predominância de plantas em fase final de construção, fruto de escolhas estratégicas feitas na época de vacas gordas, e a ausência de disposição de desencalhe de uma encorpada carteira de planos e projetos, capaz de ocupar o lugar dos empreendimentos em fase de encerramento.

Esse jogo retrancado da comunidade empresarial deriva da atmosfera de insegurança produzida pela exacerbação das incertezas no front político e as contradições entre retórica e prática econômica do governo interino, marcadas pela morosidade na execução e reduzida abrangência do ajuste fiscal e a concessão de bondades corporativistas, como uma espécie de pagamento ao potencial apoio, no Congresso Nacional, à definição do impedimento da presidente afastada e à aprovação de um provável pacote de reformas institucionais.

De seu turno, o terreno para a construção pesada apresenta-se pouco fértil, dado que aos efeitos negativos oriundos da finalização das obras ligadas aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro devem ser acrescentadas as severas limitações orçamentárias das três instâncias da administração pública (União, Estados e Municípios), agravadas pelos impactos da conjuntura depressiva sobre os fluxos de arrecadação tributária.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, Economista, Consultor, Professor da FAE Business School, Ex-Presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 52 anos na área de jornalismo, sendo 50 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Há 25 anos é professora titular do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 19 anos de blog, mais de 50 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 21 prêmios, com destaque para Embrapa Floresta (Menção Honrosa em 2025); VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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