Nova queda do PIB e troca de comando do Governo

Gilmar Mendes Lourenço.
Gilmar Mendes Lourenço.

O declínio de -3,8% do produto interno bruto (PIB) brasileiro, entre abril e junho de 2016, em relação ao mesmo período de 2015, calculado pelo Sistema de Contas Nacionais Trimestrais, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirma a situação recessiva vivida pela economia nacional desde o segundo trimestre de 2014, configurando a maior e mais longa retração dos níveis de atividade já registrada por essas paragens, estimada em -7,4%, no acumulado em nove trimestres.

Tal panorama é fruto, essencialmente, do absoluto abandono, desde fins de 2008, dos pilares de estabilização macroeconômica, fincados no País a partir de 1999 e representados pela perseguição de saldos fiscais primários nas finanças públicas, regime de livre flutuação da taxa de câmbio e sistema de metas de inflação, necessários para assegurar, aos mercados, as condições de solvência do governo, a minimização das restrições externas e a ancoragem da política monetária.

Essa circunstância foi agravada em 2012, com a aplicação da chamada nova matriz econômica, centrada em intervencionismo estatal voltado ao estímulo ao consumo privado – movido a programas oficiais de transferência de renda e crédito caro, bancado em grande medida por dispêndios públicos, a repressão da inflação via controle do câmbio e das tarifas públicas, e a subida dos rendimentos reais do trabalho acima da produtividade, por conta de sua indexação, mesmo que informal, aos reajustes do salário mínimo -, em detrimento do investimento em ampliação e modernização da capacidade produtiva das plantas industriais e recuperação da infraestrutura.

Sem contar os descalabros de gestão nas principais companhias estatais, que oportunizaram o uso partidário de verdadeiros patrimônios nacionais e resultaram nos maiores escândalos de corrupção da história da nação, envolvendo entes do governo, segmentos do setor privado, capitaneados por grandes empreiteiras, e braços do legislativo.

As subidas exponenciais do déficit e endividamento público, encobertas por procedimentos rasteiros de maquiagens das contas, e as subsequentes desastradas tentativas de correção, desprovidas de apoio legislativo para a aprovação de medidas de austeridade fiscal, e a escalada da inflação, associada à decisão de realinhamento da estrutura de preços relativos, depois de vencidas as eleições, levaram ao aprofundamento do quadro depressivo, delineado em 2014, ainda não alterado sob a postura menos imprevisível da administração interina do País, depois da instauração do impeachment, pelo Senado da República, em maio de 2016.

Na verdade, mesmo com a visível recuperação da confiança de empresários e consumidores, captada por pesquisas de diferentes instituições, o lado real da economia continuou sangrando, no segundo trimestre de 2016. A hemorragia pode ser atestada pela substancial contração do PIB nos três grandes setores (agropecuária, indústria e serviços) e em todos os componentes da demanda agregada (consumo das famílias, gastos do governo e investimento), exceto as exportações que, ainda assim, exibiram forte desaceleração (de 13% para 4,3%, entre o primeiro e o segundo trimestre), atrelada ao novo curso de revalorização do real.

As importações decresceram -10,6%, afetadas pela compressão de -8,8% dos investimentos, cuja taxa despencou de 18,4% do PIB para 16,8% do PIB, em um ano, reflexo do encarecimento do custo do capital, do encolhimento da rentabilidade das organizações privadas e da acentuação dos problemas de solvência do Estado, agravados pelos desdobramentos da operação Lava Jato, que constituem apreciável custo de oportunidade para o futuro.

A substituição do sinal recessivo, emitido de forma generalizada pelo aparelho produtivo operante no território nacional, pela retomada do crescimento exigirá, do governo Temer, a restauração de uma agenda econômica que combine parâmetros de estabilização com variáveis de expansão.

Pelo ângulo dos fundamentos, parece crucial o reequilíbrio dos orçamentos públicos, por meio de racionalização de despesas e revalorização da responsabilidade fiscal, complementado por uma nova geração de reformas microeconômicas (tributária, fiscal, administrativa, patrimonial, financeira, previdenciária e trabalhista) que promova a impulsão da eficiência dos negócios, especialmente com a diminuição dos juros e a desobstrução dos gargalos infraestruturais.

Do lado dos aspectos subjacentes ao crescimento emerge a premência de reconstrução da indústria, notadamente do segmento de transformação, cuja participação no PIB caiu de 17,8%, em 2004, para 11,4%, em 2015, amparada em estratégicas públicas horizontais, dirigidas à perseguição ferrenha de incrementos de produtividade, com a priorização do binômio formado por educação e inovação.

Afigura-se também relevante a remontagem dos mecanismos de inserção externa competitiva de empresas e produtos brasileiros, destituída de propósitos terceiro-mundistas e pautada na participação decisiva nas grandes cadeias globais de valor, imprescindível para o desmanche do paradoxo de o País responder por 3,3% do PIB e 1,1% das exportações mundiais.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é Economista, Consultor, Professor da FAE Business School, Ex-Presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *