Governo Temer: balanço de um ano

Gilmar Mendes Lourenço.

O palco da apresentação dos resultados do primeiro ano de governo do presidente Michel Temer contém substancial diminuição da inflação, estagnação econômica e pífios progressos na articulação entre restabelecimento do equilíbrio das finanças públicas e reformas institucionais. Mais precisamente, o País escapou do colapso, ocasionado pela orientação macroeconômica insalubre dos tempos da nova matriz de Dilma Rousseff, mas está distante de um novo ciclo virtuoso.

No terreno inflacionário, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para avaliar o comportamento médio dos preços de uma cesta de produtos consumida por famílias com renda mensal entre 01 e 40 salários mínimos, subiu apenas 1,1% entre janeiro e abril de 2017, contra variação de 3,25% no mesmo período de 2016.

Em doze meses até abril de 2017, o indicador ficou em 4,08% (versus 9,28% em abril de 2016), representando a menor taxa para essa base de comparação desde julho de 2007 (3,74%), quando coincidiu com a etapa de recuperação da economia brasileira, apoiada na expansão da demanda internacional, por meio da concatenação entre boom da China e das commodities, e doméstica, movida à valorização do salário mínimo, crédito consignado e iniciativas oficiais de transferência de renda.

Com isso, a inflação vem, de forma consistente, posicionando-se abaixo do centro da meta anual de 4,5%, fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), abrindo espaço para especulações do mercado, e até mensagens do Banco Central, acerca da possibilidade de pronunciada revisão para baixo das projeções para 2018 e 2019, em direção convergente a padrões internacionais.

No mesmo sentido, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), também elaborado pelo IBGE, específico para a faixa de rendimentos mensais entre 01 e 05 salários mínimos e considerado a inflação do trabalhador, subiu 1,06% no ano e 3,99% em doze meses.

No entanto, a vitória específica da equipe do Ministério da Fazenda no combate ao dragão inflacionário está diretamente ligada a fatores exógenos, expressos no recuo das cotações globais das matérias primas minerais, metálicas e alimentares, provocado pela desaceleração do crescimento da economia chinesa, e à herança fabricada em 2015, pelo então ministro da gestão Dilma, Joaquim Levy.

Na época, houve a indispensável correção de preços de itens administrados (energia, combustíveis e transportes) e do câmbio, que foram represados por incursões populistas e intervencionistas desde 2011 -, como uma espécie de “feitura do serviço sujo” voltado ao realinhamento da base de preços relativos.

A conquista da calmaria na área de preços também derivou da maior e mais longa recessão da história brasileira, ainda não revertida a partir da estratégia de diminuição dos juros básicos da economia brasileira, executada pelo BC desde outubro de 2016, devido à deterioração do mercado de ocupações e ao insuficiente reerguimento da confiança dos agentes na eficácia da política econômica e no rearranjo institucional.

De acordo com o IBGE, apesar de a produção industrial ter experimentado variação positiva de 0,6%, no acumulado dos três primeiros meses de 2017, o volume de vendas do comércio varejista e dos serviços prestados caíram -2,5% e -4,6%, respectivamente, em igual intervalo. Logo, a nação teria completado, em março do corrente ano, três anos de depressão dos negócios.

Pelo ângulo fiscal, a despeito da implantação do teto para a variação dos gastos públicos, atrelado à evolução do nível geral de preços, e da provável aprovação de um novo arcabouço previdenciário, bastante desfigurado em relação à proposta original e refém da força de interesses corporativos representados no congresso nacional, o executivo não conseguiu emitir, aos atores sociais, sinais convincentes de alcance do reequilíbrio estrutural das finanças públicas e estabilização da relação dívida/produto interno bruto (PIB), em médio prazo, condições essenciais para a perenização da desinflação e a retomada sustentada do crescimento.

Dentre as outras mudanças institucionais sobressai a flexibilização da legislação trabalhista, aprovada pela câmara dos deputados e em tramitação no senado, e as ideias meramente cosméticas de simplificação do sistema tributário, sem a supressão da sua natureza regressiva determinada pela predominância das contribuições indiretas.

Na verdade, o aniversário da gestão Temer marca a passagem de um período recessivo para outro de estagnação, caracterizado por elevados níveis de desemprego e endividamento de empresas e consumidores e enorme capacidade ociosa das indústrias, além da multiplicação das incertezas associada às turbulências políticas, maximizadas por sucessivos deslizes cometidos pelo executivo e legislativo, acossados por denúncias de corrupção, o que tem atrapalhado, inclusive, a montagem de um contemporâneo modelo de concessões e privatizações para o segmento de infraestrutura. Por essa perspectiva, qualquer semelhança com os tempos de Lula e Dilma não é mera coincidência. E esse isso é ruim.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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