Brasil: retrato da economia real em 2017

Gilmar Mendes Lourenço.

O rompimento da barreira dos 75 mil pontos pelo Ibovespa, no mês de setembro de 2017, motivado pela conjugação entre descida dos juros, perspectiva de privatização da Eletrobrás e apostas no equacionamento do imbróglio político, por ocasião das eleições de 2018, seria indicativo de que, ao menos na economia, o pior já teria ficado para trás no Brasil.

No entanto, é preciso cautela para não tropeçar em armadilhas e confundir eventos ou episódios desprovidos de fundamentação com a conformação de um ciclo de retomada robusta dos negócios. Até porque, as cotações médias das ações registradas nos tempos atuais equivalem a menos da metade daquelas constatadas nos tempos das vacas gordas de 2008, quando o País havia recuperado o grau de investimento conferido pelas agências internacionais de classificação de risco. No front real, há indícios de morosa reposição das perdas ocasionadas pela conjuntura recessiva prevalecente entre abril de 2014 e março de 2017, consequência da queda da inflação, dos juros e do desemprego.

A produção industrial registrou, em julho de 2017, expansão pelo quarto mês consecutivo, acumulando elevação de 0,9% nos primeiros sete meses do ano, puxada por bens de consumo duráveis (9,8%), em face da impulsão das vendas de automóveis para o mercado argentino, e de capital (3,7%), notadamente máquinas e equipamentos para a agricultura (18,9%). Enquanto isso, bens intermediários apresentou variação nula e bens de consumo não duráveis e semiduráveis, subordinado à massa de salários, encolheu -0,5%.

O balanço do volume de produção fabril revelou ascensão em 11 (onze), dos 14 (quatorze), estados acompanhados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O parque manufatureiro do Paraná contabilizou o acréscimo mais expressivo (3,9%), ancorado em máquinas e equipamentos (71,3%) e veículos automotores, reboques e carrocerias (12,9%), o que evidencia a força do agronegócio, a grande vedete do organismo de transações nacional.

Em igual período, o volume de vendas do comércio varejista cresceu 1,1%, concentrado em três ramos: eletrodomésticos (7,2%), tecidos, vestuário e calçados (7,1%) e materiais de construção (5,6%). O desempenho é explicado pela conjugação de alguns elementos virtuosos, com ênfase para a recomposição do poder de compra da população, com o mergulho no campo dos preços; a discreta melhora do mercado de trabalho, ainda que em condições de precarização, com ampliação da informalidade; a diminuição dos juros; e a utilização dos R$ 44,0 bilhões liberados das contas inativas do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), entre março e julho do presente exercício, destinados à quitação de dívidas e ao retorno às compras.

Os outros sete segmentos comerciais monitorados mensalmente pela entidade nacional de estatística apresentaram queda de vendas naquele lapso, especialmente móveis (-10,1%), livros, jornais e revistas (-3,3%), combustíveis e lubrificantes (-3,1%) e veículos e motos (-2,9%).

O índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma espécie de cálculo preliminar do produto interno bruto (PIB), cresceu apenas 0,14%, entre janeiro e julho de 2017, em comparação com igual tempo de 2016. O volume dos serviços, setor dependente dos rendimentos salariais e que responde por mais de 70% do PIB, caiu -0,8% em julho de 2017, em relação a junho, e -3,2%, frente a julho de 2016, segundo pesquisa do IBGE.

Os indicadores acumulados no ano e nos últimos doze meses mostram queda de -4,0% e- 4,6%, respectivamente, dos serviços. Entre janeiro e julho, apenas três, dos quatorze ramos acompanhados, registraram expansão. São eles: transporte aquaviário (9,6%), armazenagem (6,0%), fortemente determinados pela dinâmica salvadora do agronegócio, e tecnologia da informação (2,5%).

Pelo ângulo do consumo, de acordo com pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o endividamento e a inadimplência das famílias brasileiras permaneceram em rota ascendente, apesar da liberação dos saldos das contas inativas do FGTS. Em agosto de 2017, 58,0% das pessoas mencionaram ter algum tipo de dívida, 24,6% estavam com contas em atraso médio de 64,7 dias, e 10,1% não tinham condições de quitação.

Ademais, as compras a prazo – concentradas na modalidade mais cara, representada pelo cartão de crédito, que cobra taxas médias de 400% a.a., no rotativo, segundo o BC – consomem 29,8% dos orçamentos domésticos.
Não bastasse essa restrição, recente estudo preparado pelo World Wealth and Income Database revelou ampliação da concentração de renda no Brasil, entre 2011 e 2015, contrariando inclusive algumas pesquisas governamentais. A participação dos 10% mais ricos da população na apropriação da renda total passou de 54,3%, em 2011, para 55,3%, em 2015, invertendo a trajetória de diminuição da desigualdade delineada desde 1994, determinada, sobretudo, pelo desaparecimento da hiperinflação, valorização do salário mínimo e ampliação do acesso à educação.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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