A bússola econômica da Ilha da Fantasia

Gilmar Mendes Lourenço
Gilmar Mendes Lourenço

A despeito do razoável arsenal de interpretações acerca do grupo de medidas de austeridade monetária e fiscal, em execução pelo governo Dilma, sob a batuta do Ministério da Fazenda e do Banco Central, prevalecem, nos meios especializados, internacionais e nacionais, sessões de louvores ao ministro Joaquim Levy, enaltecendo poderes quase celestiais para colocação da casa em ordem.

Na verdade, a análise econômica vem alargando por demais o espaço da “ilha da fantasia”, aberto pelas autoridades de Brasília, e encobrindo o necessário reconhecimento de que se trata da implantação de um pacote de aprofundamento do panorama recessivo, ancorado essencialmente na expropriação dos rendimentos das famílias e dos recursos de caixa das empresas, por meio do aumento da tributação indireta e do fardo de juros.

Convém sublinhar aqui que a transmissão plena da austeridade monetária para o conjunto do sistema econômico estará inevitavelmente atrelada à emissão de sinais exitosos da empreitada fiscal. Recorde-se que a Selic retornou, em janeiro de 2015, ao patamar vigente entre 09 de junho e 20 de julho de 2011, chegando a 12,5%, no final de agosto, quando iniciou curso cadente até abril de 2013.

De seu turno, a economia real vem confirmando a trajetória de encolhimento pelo lado da oferta. As importações e a produção fabril recuaram 4,5% e 3%, respectivamente, em 2014, refletindo, no caso da indústria, a valorização do real, a subida do custo médio da mão de obra, em razão das variações dos salários superiores as da produtividade do trabalho, a tributação em cascata e precariedade infraestrutural. A situação é bastante parecida pela ótica da demanda, com declínio de mais 1% nas vendas reais do comércio varejista, 7% nas exportações e 5% nos investimentos.

A propósito desse último item, levantamento preparado pela Associação da Indústria Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) revela retração real de 13,7% e 15% no faturamento bruto e no consumo aparente (produção mais importações menos vendas externas) do segmento de bens capital, respectivamente, em 2014. Já o grau de utilização da capacidade produtiva situava-se, em dezembro de 2014, abaixo de 70%, o pior número da série histórica.

Tais estatísticas traduzem a repressão das inversões em infraestrutura, especialmente em energia e transportes, a postergação de empreendimentos estratégicos, por conta da Copa do Mundo de Futebol e das inseguranças oriundas do evento eleitoral, e a praticamente paralisação do programa de concessões de serviços públicos à iniciativa privada.

Outro incômodo é que não há exemplo, na história econômica mundial, de nação que tenha conseguido restabelecer o equilíbrio das finanças governamentais e restaurar os fundamentos para a expansão econômica sustentada, recorrendo apenas a vertente tributária, especialmente em um país cuja carga de impostos já ultrapassa os 37% do produto interno bruto (PIB), ante uma capacidade de suporte da sociedade estimada em 25% do PIB.

Por isso, a leitura adequada do recado e da agenda da atual bússola econômica oportuniza avalia-la como uma envergonhada e indisfarçável manobra de rendição ao pragmatismo, imposto pela necessidade de reparação dos desacertos e desmandos cometidos entre 2010 e 2014 e, no limite, pela possibilidade de perda de poder.

Em outros termos, o objetivo do elenco de providências repousa na sobrevivência política do projeto Lula-Dilma – fragilizado ainda mais com a fragorosa derrota na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados – que, dentre outros fatores, depende da eliminação do perigo de perda de grau de investimento da dívida brasileira e a subsequente elevação dos custos de captação externa do governo e das corporações.

A dimensão do sacrifício doméstico tornou-se ainda maior a partir da recente disponibilização dos dados do setor externo e das contas públicas brasileiras. O desequilíbrio do País com o exterior atingiu US$ 90,9 bilhões, em 2014, o maior da história, pulando de 1,7% do PIB, em 2008, para 4,17% do PIB, o mais elevado desde 2001, não coberto pelo ingresso líquido de investimentos diretos estrangeiros (2,3% do PIB).

As contas públicas nominais (primárias mais os juros da dívida) experimentaram o maior rombo da história (R$ 344 bilhões), em 2014, ou 6,70% do PIB, versus 3,25% do PIB, em 2013, fruto da mistura entre falhas de diagnóstico, falta responsabilidade financeira e excesso de voluntarismo do executivo.

No conceito primário, as finanças do governo saíram de saldo positivo de 3,8% do PIB, em 2008, para déficit de 0,63% do PIB, em 2014 (o primeiro desde 1997), mesmo com os malabarismos contábeis, contra superávit de 1,88% do PIB em 2013. Ou melhor, a administração pública (União, estados e municípios) gastou mais do que arrecadou, mesmo antes do pagamento dos encargos financeiros da dívida.

Por esse prisma, é impossível deixar de enxergar um ponto de partida bastante dramático para o ajuste fiscal (que é apenas o começo da reconstrução), principalmente se for considerada a impossibilidade de o governo vir a contar com a ajuda das receitas extraordinárias, consubstanciadas nos dividendos das empresas públicas, como Petrobras e Eletrobrás, e nos aportes dos bancos oficiais. Sem adicionar os riscos de racionamento de água e energia elétrica e os impactos da operação Lava Jato.

Não por acidente, a agência de classificação Moody’s promoveu, no final de janeiro de 2015, o rebaixamento de todos os conceitos de crédito da Petrobrás, posicionando-a no último degrau que separa o grau de investimento da condição especulativa, na escala avaliativa.

A postura da companhia de rating foi justificada pelas investigações sobre corrupção na estatal e as pressões sobre a liquidez da empresa, em consequência do retardo na divulgação dos resultados do terceiro trimestre de 2014, ainda não auditados. De acordo com Moody’s, as notas continuam em análise para o emprego de novos cortes.

Enquanto isso, no resto do planeta terra, não obstante a desaceleração chinesa, cujo PIB cresceu 7,4% em 2014, a menor taxa desde 1990, observa-se a montagem de um palco diferente, materializado em juros reais negativos, queda estrutural nas cotações do petróleo – motivada pelo surgimento do protagonismo americano, conquistado com a exploração do xisto -, e reação mais consistente da economia dos Estados Unidos. Em simultâneo, é prudente apostar no reerguimento da economia europeia, ensejado pela injeção de mais de um trilhão de euros pelo Banco Central Europeu (BCE), por meio da compra de papéis públicos e privados até setembro de 2016.

Em matéria de déficit público total, inferências do Fundo Monetário Internacional denotam média de 1,9% do PIB, para os mercados emergentes, de 3,9% do PIB, para os avançados, e de 2,6% do PIB, para a Europa, contra meta comum de 3% do PIB. Os pontos fora da curva, naquele continente, seriam a França (4,4% do PIB) e o Reino Unido (5,8% do PIB), sendo que algumas nações da periferia permanecem em processo de ajuste.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, professor e editor da Revista Vitrine da Conjuntura da FAE Centro Universitário.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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