A complicada equação para a superação da crise

Gilmar Mendes Lourenço
Gilmar Mendes Lourenço

O crescimento de 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, em 2014, representa um autêntico desastre, especialmente se for considerado o fato de ser fruto de uma orientação econômica que vem sendo aplicada ao País, desde o final de 2008, quando da eclosão da crise do subprime nos Estados Unidos (EUA), como uma espécie de panaceia para as moléstias importadas, que passou a exibir evidentes sinais de fadiga em fins de 2010 e começo de 2011.

Na verdade, se for observada a trajetória apresentada por esta variável, nos últimos três trimestres iniciados em abril de 2014, percebe-se que o sistema produtivo nacional encontra-se em um pântano recessivo e, o que é ainda mais grave, convivendo com taxas de inflação anuais superiores a 8%, delineando a situação de estagflação, caracterizada por contração dos negócios e aceleração consistente do nível geral de preços.

Mais que isso, o PIB variou apenas 2,1% ao ano, entre 2011 e 2014, pouco mais da metade do acréscimo experimentado durante o governo Lula (4% a.a.), e o quarto pior desempenho da história republicana, ficando a frente apenas de Floriano Peixoto (-7,5% a.a.), do decênio perdido dos anos de 1980 (1,6% a.a.) e do período Collor (-1,3% a.a.).

A performance de Dilma mostrou-se inferior inclusive a do intervalo 1999-2002 (2,3% a.a.), correspondente ao segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (FHC), fase da construção dos fundamentos macroeconômicos que vigoraram até 2008 – metas de inflação, superávits fiscais primários e câmbio flutuante -, sugerido como desastroso pela retórica petista, e bastante aquém da identificada para algumas nações sul-americanas, como Bolívia, Chile, Colômbia, Paraguai e Peru, entre 4% a.a. e 6% a.a.

No fundo, a expansão econômica sofrível, contabilizada nos tempos recentes, retrata o retumbante fracasso do modelo de desenvolvimento amparado em impulsão dos gastos públicos, desonerações tributárias a ramos escolhidos, por critérios pouco transparentes, e concessão de crédito oficial abundante e subsidiado, que destroçou as contas públicas e externas e provocou a escalada da inflação, que foi bloqueada artificialmente com o controle tarifário. Só a Petrobrás amargou prejuízos de mais de R$ 80 bilhões, entre 2010 e 2014, em razão da adoção desse tipo de populismo.

A multiplicação das preocupações e do desespero dos atores sociais repousa no caráter de continuidade de um governo que ainda não recomeçou, decorridos cinco meses da reeleição, e que, registrando substancial carência de apoio legislativo, carrega a complexa missão de administrar a própria herança maldita e praticar uma linha de ação absolutamente antagônica aos compromissos eleitorais assumidos na campanha eleitoral de 2014.

O time da presidente precisa sair da retranca, dar uma goleada e contar ainda com uma conjugação bastante difícil de resultados. Por exemplo, necessita do PMDB para a aprovação das providências duras ou, na pior das hipóteses, sufocar os movimentos para a colocação de novos obstáculos ao esforço fiscal no Congresso Nacional. Também terá que buscar uma rápida edificação de novos canais de comunicação com as ruas, ocupadas por massas que extrapolam as categorias de ricos e brancos.

Concretamente, a superação do colapso institucional está cada vez mais complicada. Não bastasse o imbróglio econômico conjuntural e estrutural, subordinado a votos de confiança de agências de rating, ancorados exclusivamente na seriedade e competência do Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, a presidente mostra-se acuada e refém de três correntes desarticuladas ou antagônicas.

A primeira delas é a do ajuste fiscal, capitaneado por Levy, configurando a derradeira chance de escape do caos econômico, em 2015, e da descoberta de uma saída honrosa, a partir de 2016. A segunda turma está no PMDB, ou nas ramificações do trio Renan, Cunha e Temer, permanentemente de olho no regresso pleno ao poder. Por fim, o terceiro grupo reproduz o firme retorno do lulopetismo, formado pela articulação entre o ex-presidente e os movimentos sociais, puxados por MST, UNE e CUT, que, presentemente, vivem o paradoxo de ter que defender e criticar o executivo federal.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, professor e editor da Revista Vitrine da Conjuntura da FAE Centro Universitário.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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