A desidratação da economia brasileira

As sucessivas rodadas de divulgação de diferentes indicadores econômicos confirmam a deterioração das condições de funcionamento do ambiente de produção e de negócios no País, neste primeiro semestre de 2015. Conforme acompanhamento realizado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o consumo de energia elétrica caiu 0,9% no intervalo de tempo compreendido entre janeiro e maio de 2015, em comparação com igual período de 2014, fortemente influenciado pela retração da demanda industrial e residencial.
O episódio traduz, de maneira plena, a perfeita desorganização provocada no tecido econômico brasileiro por uma orientação macro absolutamente equivocada, aplicada entre 2010 e 2014, priorizando o consumo em detrimento da oferta, e, curiosamente, pelos trabalhos de reparos feitos no corrente ano, amparados em austeridade fiscal e, principalmente, monetária.
De fato, o que se vê é o delineamento de uma rota cadente da utilização de energia elétrica associada à combinação entre recessão, sobretudo no setor industrial, e contração do poder aquisitivo das famílias, determinada pela aceleração da inflação, fruto, inclusive dos enormes reajustes autorizados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para as tarifas cobradas nas contas de luz.
A produção industrial, mensurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), decresceu 6,9% nos cinco primeiros meses de 2015, de maneira generalizada, com declínio de -20,6%, na fabricação de bens de capital, -16,4%, em bens de consumo duráveis, -7,5%, em semiduráveis e não duráveis, e -3,4%, em intermediários.
Trata-se de uma das retrações fabris mais democráticas da história, atingindo desde a base, formada por bens de produção, até a ponta, ligada à procura final. Em idêntico intervalo, o faturamento real (descontada a inflação) e as horas trabalhadas no parque manufatureiro recuaram -7,3% e -9,3%, respectivamente, de acordo com investigação da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Apurações da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) identificaram queda de -20,7% nas vendas de veículos no primeiro semestre de 2015, com emplacamentos de 1.318.985 unidades (carros, caminhões e ônibus), ante 1.662.837, entre janeiro e junho de 2014, sendo ainda o pior resultado desde 2007 (1.082.257).
Dados do Boa Vista SCPC denotam acréscimo de 9,2%, nas solicitações de falência, e 17,2%, nos pedidos de recuperação judicial, nos primeiros seis meses de 2015, motivados pela concatenação entre subida dos juros e dificuldades de geração de caixa das empresas.
Pelo ângulo da compressão da capacidade de dispêndio das famílias, enquanto o índice de preços ao consumidor amplo (IPCA), calculado pelo IBGE, acumulou incremento de 5,34%, entre janeiro e maio de 2015, e 8,47% em doze meses, os reajustes médios da fatura de energia foram de 41,94% e 58,47%, respectivamente. Lembre-se aqui que os gastos com energia elétrica absorvem cerca de 4% do orçamento mensal dos domicílios com renda entre um e quarenta salários mínimos, alvo do IPCA.
Esse caso expressa uma das maiores irresponsabilidades acopladas a intervencionismos populistas de que se tem notícia no País, marcada por uma decisão unilateral do governo Dilma, no começo de 2013, de reduzir em quase 30% o preço da energia, por meio da desoneração dos encargos federais incidentes sobre as tarifas cheias.
Isso provocou estragos nas finanças dos estados, ao reduzir a base de arrecadação do imposto sobre circulação de mercadorias e serviços (ICMS), e das distribuidoras, que foram forçadas, ao mesmo tempo, a reduzir os preços e comprar energia mais cara no mercado, por conta da ampliação do suprimento por usinas térmicas, diante do insuficiente abastecimento hidrelétrico, imputado à conjugação entre crise hídrica e insuficiência de investimentos, o que exigiu socorro financeiro da União superior a R$ 20 bilhões.
Mas o pior é a percepção de agravamento desta situação caótica. Conforme pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC), a intenção do consumo das famílias (ICF) atingiu 91,7 pontos, em junho de 2015, contra 96,4 pontos, em maio, e 120,4 pontos, em junho de 2014. O indicador varia entre zero e duzentos pontos, ocupando uma zona de desconforto quando registra pontuação inferior a cem.
A mesma CNC mostra que 62% dos consumidores possuíam algum tipo de dívida (cheque pré-datado, cartão de crédito, carnê de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro e seguro), em junho de 2015, contra 62,4%, no mesmo mês de 2014, 21,4% estavam com os pagamentos em atraso (19,8%, em junho de 2014), e 7,9% mencionaram não ter condições de efetuar a quitação (6,6%, em 2014).
Houve evidente piora da capacidade de pagamento, sendo que, dos endividados, 77,2% estavam pendurados no cartão de crédito, o tempo médio de atraso suplantava 60 dias e o comprometimento temporal e orçamentário dos passivos superava sete meses e 30%, respectivamente.
Por tudo isso, a popularidade da presidente da república, medida pela agregação dos conceitos ótimo e bom, manifestados por entrevistados de sondagem da CNI/Ibope, declinou de 12% para 9%, entre março e junho de 2015, contra 31%, em junho de 2014, e 63%, em março de 2013.
Em fins de 2013, o ex-ministro Delfim Neto, conselheiro do ex-presidente Lula e da presidente Dilma, argumentava que, em caso de subida dos juros nos Estados Unidos e perda do grau de investimento pelo Brasil, estaria formada uma “tempestade perfeita”. O Brasil preferiu não esperar pelos sinais exógenos. O arranjo econômico encarregou-se de organizar a turbulência doméstica ao ensejar espaços para o descontrole da inflação, a impulsão dos déficits público e externo e a precipitação da maior recessão desde 1990.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, professor e editor da revista Vitrine da Conjuntura da FAE Business School.





