Sintomas de uma recessão fabricada

A despeito da veemente negação oficial, acompanhada pela fração mais conservadora dos meios especializados, os primeiros meses de 2015 vêm sendo marcados simplesmente pelo aprofundamento do quadro recessivo que atinge o País desde abril de 2014, em consequência da crescente utilização, especialmente durante o ciclo eleitoral, de experimentos de política econômica, rigorosamente reprovados em todas as praças em que foram aplicados, e que fabricaram, por aqui, o regresso do déficit externo e das contas públicas e da inflação.
Ao reconhecer, ainda de que forma velada, os equívocos cometidos, sobretudo entre 2011 e 2014, sob o manto protetor de uma nova matriz econômica intervencionista e populista, voltada aos estímulos à demanda e ao desprezo ao aumento da oferta, o governo Dilma lançou, neste começo de segundo mandato, a linha de reparos ortodoxa, baseada essencialmente em elevação da carga tributária e financeira incidente sobre empresas e consumidores e contingenciamento do orçamento federal, sem necessariamente cortes efetivos de gastos.
Na ausência de encaminhamento e negociação política, junto ao Congresso Nacional, de um conjunto de reformas institucionais capazes de debelar as causas estruturais dos distúrbios macroeconômicos, com ênfase para um novo arcabouço dos impostos, da previdência e do pacto federativo, colhe-se a maior contração econômica em duas décadas e meia, traduzida em projeção de contração de -1,5% do produto interno bruto (PIB), em 2015, brotada da pesquisa Focus do Banco Central (BC) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Lembre-se que, em 1990, quando do confisco de ativos financeiros do governo Collor, o PIB retrocedeu -4,3%.
Tal quadro expressa rápida e progressiva transferência de recursos do setor privado para a esfera pública, sendo atestado por uma interminável colheita de indicadores negativos, levantados predominantemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e desprovido de qualquer perspectiva de reversão em curto e médio prazo.
Tendo como referência o intervalo de tempo compreendido entre janeiro e maio de 2015, em confronto com igual período de 2014, verifica-se queda de 6,9% na produção industrial nacional, generalizada, porém puxada por bens de capital (-20,6%) e de consumo duráveis (-16,4%), reflexo da subida dos juros, do decréscimo da renda (com o recuo do emprego e a impulsão dos preços) e da quebra da confiança dos agentes em relação ao futuro.
Na mesma linha, o faturamento real (descontada a inflação) do comércio varejista despencou -7,0%, afetado pela performance desfavorável de veículos e motos, móveis, eletrodomésticos, tecidos, vestuários, calçados, livros, jornais, revistas e materiais de construção. As receitas reais do setor de serviços encolheram -2,9%, com os piores desempenhos registrados por atividades técnicas profissionais, informação e comunicação, armazenagem e transporte aéreo.
Pelo ângulo do mercado de trabalho, o emprego industrial acusou diminuição de -5,0%, constatando-se retração nos 18 segmentos acompanhados pelo IBGE, sendo as mais expressivas anotadas para máquinas e aparelhos elétricos, eletrônicos de precisão e de comunicação (-12,2%), metalurgia (-9,9%) e meios de transporte (-9,5%). A folha de pagamento real diminuiu -5,9%.
Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) exprimem fechamento líquido de -345,4 mil postos com carteira assinada no País, no primeiro semestre de 2015, o pior número desde 2002. Os desligamentos líquidos mais relevantes forma verificados no comércio (-181,8 mil), na indústria de transformação (-162,4 mil) e na construção civil (-134,5 mil), em resposta à marcha ladeira abaixo do consumo e do investimento. Os salários médios de admissão também caíram -1,6% no referido período.
A PNAD Contínua, do IBGE apurou a subida do desemprego de 6,5% da população economicamente ativa (PEA), no último trimestre de 2014, para 8,1% da PEA, no trimestre compreendido entre março e maio de 2015, equivalendo a 8,1 milhões de pessoas em trabalho. Embora tenha permanecido estável, na mesma base de cotejo, a remuneração média do trabalho declinou -0,7%, entre janeiro-março e março-maio de 2015, passando de R$ 1.877/mês para R$ 1.863/mês.
A Pesquisa Mensal de Emprego (PME), também do IBGE, capturou, na média dos redutos metropolitanos de Salvador, Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, uma trajetória de impulsão do desemprego e queda dos rendimentos. A taxa de desocupação saltou de 4,8% da PEA, em 2014, para 6,1% da PEA, entre janeiro e maio de 2015. Enquanto isso, a renda real do pessoal ocupado, ao atingir 2.117,10, em maio de 2015, expõe decréscimo de -1,9% e -5,0% frente ao mês anterior e ao mesmo mês de 2014, respectivamente.
Por tudo isso, não surpreende o fato de o índice de confiança do empresário industrial (ICEI), calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), ter registrado 37,2 pontos, em julho de 2015, o menor patamar da série histórica (cuja média é 55,9), (varia entre zero e 100, denotando confiança, quando superior a 50 pontos), e pior que o recorde negativo anterior, observado em março de 2015 (37,5 pontos).
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, professor e editor da Revista Vitrine da Conjuntura da FAE Business School.





