A crise passará, mas o Estado permanecerá. O que restará dele?

Silvana Piñeiro Nogueira
Silvana Piñeiro Nogueira

“Pagar um pouquinho mais de imposto é investimento no país”. Essa foi a frase de Joaquim Levy, Ministro da Fazenda, no anúncio das medidas a serem aplicadas depois do rebaixamento do grau de investimento do Brasil. Assim como ele, os atores políticos desta crise são protagonistas de um festival de frases de efeito que servem mais para agravar a percepção da falta de preparo em gestão de crise do que para esclarecer a população sobre a conjuntura atual. A pouca habilidade não se restringe apenas ao âmbito político e econômico, ela está impregnada na incapacidade de comunicação e preservação da imagem institucional do Estado.

Em nosso cotidiano, quando uma empresa passar por uma crise, a recomendação básica dos profissionais de comunicação é para os porta-vozes dizerem a verdade, seja ela qual for. É preciso, no entanto, saber como transmitir a verdade de maneira positiva ou, pelo menos, de forma a não piorar o cenário de crise instalado. Isso não é apenas um detalhe, empresas de capital aberto, por exemplo, sabem que uma declaração mal elaborada pode despencar o valor de suas ações e espantar investidores. É prejuízo na certa!

Além disso, as crises passam, mas a marca permanece, na maioria dos casos. Se isso acontece, é fundamental preservar pela sua reputação, pois a marca alavancará uma recuperação e fortalecerá a credibilidade da companhia perante o seu público interno e externo. Bem, normalmente este conceito se aplica tanto no setor público quanto no privado.

A despeito desta prática, o que vemos atualmente é um Governo que faz exatamente o contrário do que os profissionais de comunicação pregam. A Presidente tenta de todas as formas esconder as informações negativas, com frases mal construídas e sem sentido. Isso tudo no meio de uma crise que já é reconhecida por todas as classes sociais e setores da economia nacional e internacional. Mesmo assim, ela insiste em negar a existência de dificuldades e quando, por um lapso ela reconhece a situação pela qual passa o nosso Brasil, debita a culpa em argumentos infundados sem consistência nem coerência com a realidade das ruas.

Agora foi a vez do Ministro da Fazenda, considerado ponderado e realista, escorregar em seu discurso. Diante da onda de demissões dos últimos meses, a diminuição do poder aquisitivo da população, aumentos sequenciais de energia e água, criação de novos impostos, redução da atividade industrial, enfim, uma situação instalada crítica em todos os níveis, onde todo mundo está sem fôlego e sem auxílio para encontrar soluções, o Ministro diz que ninguém reclamará de fazer mais ‘investimentos’ para fortalecer o país.

Se esta declaração fosse dita em outro cenário, em que o Governo se esforçasse para diminuir custos, até seria compreensível. Mas não é esse o caso. O Estado é um elefante branco em que a corrupção impera e que não reage para eliminar gastos. Pelo contrário, recentemente foi aprovado aumento de salários dos altos níveis do funcionalismo público a despeito da situação de penúria do resto dos cidadãos.

Onde está a coerência de discurso? Cadê a verdade, guardião da reputação?Será que estes atores não são treinados para um discursos credível? Será que eles conhecem o poder de suas declarações? Que estas tem o poder de prejudicar a credibilidade do Governo ou ajudar a tirar o país do fundo do posso, onde aliás ainda não chegou?

A crise passará certamente, os atores políticos mudarão também, mas o Estado permanecerá sem dúvida. O que restará de sua reputação depois de tudo isso?

O artigo foi escrito por Silvana Piñeiro Nogueira, jornalista graduada pela PUC-PR, pós-graduada em Marketing pela FAE Business School e Mestre em Estudos Políticos pela Université Pantheón-Assas de Paris II (2006).

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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