Peculiaridades da retomada do crescimento brasileiro

Gilmar Mendes Lourenço.
Gilmar Mendes Lourenço.

As recentes rodadas de indicadores correntes e de expectativas, elaborados por instituições de pesquisa e entidades de classe, vem oportunizando a disseminação do sentimento de formação de um embrião de retomada da expansão econômica no Brasil. De fato, a produção industrial brasileira cresceu por quatro meses seguidos, entre abril e junho de 2016, em comparação com períodos imediatamente antecedentes, acumulando variação de 3,5%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Além disso, o faturamento real, as horas trabalhadas e a utilização da capacidade instalada industrial voltaram a crescer em junho de 2016, em relação a maio, conforme demonstrado por levantamentos da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A mesma entidade vislumbrou o desenho da recuperação da confiança de empresários industriais, a partir de julho, e consumidores, em agosto, sendo este último aspecto corroborado por sondagem da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

A inversão de sinal da atividade industrial e o retorno de visão menos pessimista acerca do futuro de curto e médio prazo vêm conduzindo a interpretações de superação da intensa e prolongada recessão que atinge o País, evidenciada pelo declínio de -8% do produto interno bruto (PIB), entre abril de 2014 e março de 2016, em contraste com o incremento ininterrupto da economia global, a partir de 2009, considerado o mais longo e generalizado, embora lento, desde 1991.

Mais especificamente, depois de onze trimestres consecutivos de retração, os patamares de produção fabril subiram 1,2%, entre abril e junho de 2016, em comparação com o intervalo compreendido entre janeiro e março, puxados pela impulsão dos bens de investimento (máquinas e equipamentos), que acusaram evolução de 6,6%.

Tal performance foi fortemente influenciada pela multiplicação de movimentos de substituição de importações, determinada pelo rearranjo de preços relativos, provocado pela depreciação do real, verificada desde 2015, o que serviu para encarecer e comprimir a capacidade competitiva das aquisições externas de bens de consumo e de produção.

Mesmo reconhecendo que a indústria ostenta o poder de antecipação e liderança da marcha do restante do sistema econômico, por interferir expressivamente no funcionamento do restante do aparelho de transações, por conta de seus efeitos irradiadores para frente e para trás, e responder, de forma mais rápida, a indicações de alterações de expectativas, soa precipitada a interpretação de que estaria em constituição um estágio de consistente reerguimento do ciclo de negócios.

É preciso atentar para a base de confronto bastante deprimida, representada pelo final de 2015 e princípio de 2016, ápice da fase de contração econômica, o que sugere cautela nas apostas acerca da ascensão recente do complexo industrial, situando-o ainda 18% abaixo do topo, contabilizado no começo de 2011. Até porque, quando se considera, como referência de cotejo, o primeiro e o segundo trimestre de 2015, identifica-se decréscimo de produção de –11,5% e -6,7%, respectivamente, em 2016.

Ademais, o segmento industrial, particularmente o de transformação, amargou pronunciada compressão de sua força de empuxe da matriz de produção, atestada pela rápida e substancial diminuição de peso no PIB, descendo de 17,8%, em 2004, para 11,4%, em 2015.

Em paralelo, os serviços, marcados por menor eficiência e acentuadamente dependentes da marcha da renda e do emprego, variáveis reconhecidamente em flagrante regressão, experimentaram elevação de contribuição na geração do produto total de 64,7% para 72%, em igual período. Por uma ótica conjuntural, o volume dos serviços exibiu recuo de -0,5%, no mês de junho de 2016, frente a maio, -3,4%, em relação a junho de 2015, e -4,9%, no primeiro semestre e nos últimos doze meses, conforme a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), efetuada pelo IBGE.

No interior do setor, o volume de vendas do comércio varejista decresceu, em junho de 2016, -0,2%, em confronto com maio, -8,4%, em relação a junho de 2015, -9,3%, em seis meses, e -10,1%, em doze meses, em decorrência da drástica redução do consumo das famílias (que representa mais de 63% do PIB), associada à corrosão dos rendimentos reais (com disparada do desemprego e a resistência da inflação), à ressaca do crédito e à disparada do endividamento e inadimplência da população.

Por tudo isso, paira dúvidas quanto às chances de irradiação das mudanças de humor dos agentes sociais – provocadas notadamente pelo delineamento do desenlace da crise política – para o lado real da economia, ensejarem a edificação de um círculo virtuoso capaz de provocar a interrupção da escalada do desemprego e do encolhimento da renda das famílias, assinaladas por diferentes investigações mensais.

Nessa perspectiva, é prudente lembrar que a construção civil, subsetor que traduz a dinâmica cíclica do ambiente econômico, retratando o curso das obras públicas e da demanda por edificações comerciais e residenciais, grande absorvedor de mão de obra não qualificada, prossegue asfixiada pela compressão das fontes de financiamento (fundo de garantia por tempo de serviço e cadernetas de poupança) e pelos impactos dos escândalos apurados no âmbito da operação Lava Jato, envolvendo uma teia de empreiteiras.

Ao mesmo tempo, as exportações, por representarem apenas 13% do PIB, não possuem fôlego suficiente para replicar os efeitos da reativação da economia mundial e da desvalorização cambial, e atuar como válvula de escape ao encolhimento da demanda doméstica, sobretudo porque a nação abdicou – nos tempos recentes – caracterizados pela aplicação da chamada nova matriz econômica, ancorada em intervencionismo populista na administração dos preços-chave (câmbio, energia, transportes e juros) e na concessão de subsídios tributários e creditícios a grupos escolhidos por critérios pouco transparentes -, da tarefa de perseguição da inserção competitiva de empresas e setores, por aqui atuantes, nos mercados externos.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é Economista, Consultor, Professor da FAE Business School, Ex-Presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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