Por que a recuperação econômica não chegou ao Brasil?

Gilmar Mendes Lourenço.

Os especialistas em análise da conjuntura brasileira vêm manifestando sentimentos de angústia e perplexidade diante das dificuldades em compreender ou explicar as razões de o organismo econômico do País não conseguir responder a dois estímulos virtuosos: o primeiro oriundo do front externo, sintetizado na recuperação discreta, porém consistente e generalizada, da economia global; e, o segundo plantado no campo doméstico, englobando o contínuo declínio da inflação e dos juros.

Inclusive, os experts mais precipitados e/ou otimistas, que sentenciavam que o aparelho de negócios já estaria vivenciando um estágio de reativação, desde o começo de 2017 – com início em maio-junho de 2016 e interrupção, no último trimestre, em face das turbulências políticas e institucionais -, encarregaram-se de adiar os prognósticos de ocorrência da “marcha rumo à vitória” para o segundo semestre do corrente ano.

A rigor, é fácil perceber e entender o não encaixe da nação no movimento positivo da economia do planeta, ancorado no prosseguimento da recuperação dos Estados Unidos (EUA), mesmo com os acenos protecionistas e contra a mundialização, lançados por Donald Trump, a lenta superação da recessão japonesa e europeia, a perda de embalo da desaceleração chinesa, a impulsão da índia e a reativação russa.

Frise-se que a Rússia tem indicado curso ascendente, a despeito da situação de guerra, das agruras decorrentes dos embargos comerciais e das reduzidas cotações do petróleo, pouco superiores a US$ 50,0 o barril, contra US$ 30,0 no começo de 2016, mas distantes do pico de US$ 110,0, alcançado em fevereiro de 2014.

Só a título de ilustração, de acordo com o documento “The Overview of World Economic Outlook Projections”, preparado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) mundial deverá crescer 3,5%, em 2017, o do Brasil tende a acusar acréscimo de apenas 0,2%, um dos menores entre os emergentes (subida de 4,5%).

De fato, a reação das vendas externas brasileiras, constatada neste começo de 2017, contabilizando os melhores resultados desde 2014, deriva essencialmente do comportamento dos mercados de commodities minerais, metálicas e agrícolas, com demanda e preços em elevação, particularmente petróleo, minério de ferro, soja e carnes, consequência da brecada no desaquecimento chinês e do reerguimento europeu, a despeito da decisão de abandono do mercado comum, por parte do Reino Unido.

Isso porque, na área de manufaturados, a exceção da subida verificada em veículos – até como válvula de escape à depressão interna, que levou as empresas a operarem com mais de 60% de ociosidade -, os demais produtos esbarram em obstáculos endógenos à penetração, ou manutenção de presença, nos centros de consumo no exterior, por conta da flagrante perda de competitividade das cadeias brasileiras.

Tal inconveniente pode ser expresso na impulsão do custo País, imputada à crescente deterioração do aparato infraestrutural, atrelada à concatenação entre falência do Estado e multiplicação da corrupção, e à burocracia; à priorização pretérita da celebração de articulações e parcerias com mercados pouco relevantes na América Latina, não amparadas na explicitação de uma estratégia industrial e de comércio exterior; à diminuição da produtividade, provocada pela insuficiência de inversões em ciência, tecnologia e inovação; e ao recente movimento de revalorização do real.

Pela órbita interna, as estatísticas relativas ao nível de atividade e ocupação dos fatores de produção revelam, na melhor das hipóteses, que a economia teria chegado ao fundo do poço e estaria “nadando de lado”. Não obstante a estabilização dos rendimentos do trabalho, motivada pela progressiva diminuição da inflação, as margens de ociosidade do parque industrial encontram-se acima das experimentadas em 2016 e o desemprego bate sucessivos recordes.

De seu turno, os indicadores antecedentes, especificamente aqueles que medem a confiança dos agentes no futuro, têm mostrado oscilações e razoável grau de heterogeneidade, denotando melhora de humor de empresários do comércio e da indústria e postura defensiva dos consumidores.

No fundo, o acesso à retomada do crescimento econômico brasileiro permanece bloqueado pelos apreciáveis patamares de desemprego, custo do crédito, endividamento e inadimplência privados (empresas e famílias) e debilidade orçamentária e financeira do setor público nas três esferas (união, estados e municípios).

A par disso, emerge a influência da ausência de espaço político para a negociação, aprovação e implantação das modificações institucionais de longa maturação, atestada pela verdadeira mutilação da reforma da previdência, em favor de segmentos privilegiados da sociedade, num momento em que a divulgação do teor das denúncias premiadas dos executivos do grupo Odebrecht suprime, na prática, a legitimidade dos representantes da sociedade no executivo e legislativo.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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