Indústria automobilística: recuperação ainda distante

Gilmar Mendes Lourenço.

As estatísticas levantadas pelas duas entidades representativas da indústria automobilística brasileira, relativas ao primeiro quadrimestre de 2017, sinalizam a continuidade do cenário desfavorável, exceto para os ramos articulados ao agronegócio e/ou às exportações. Vislumbra-se, na melhor das hipóteses, um prolongamento do discreto ciclo de desova de estoques, acontecido após a consolidação da crise que engloba e preserva componentes estruturais e conjunturais.

Pelo ângulo dos apoios basilares do cenário adverso sobressai o evidente superdimensionamento da capacidade produtiva setorial diante do potencial de absorção doméstica e externa. Já, na órbita dos elementos de curto prazo ressalta a deterioração das âncoras de impulsão do consumo interno, especialmente o fim dos incentivos tributários, a elevação do endividamento das famílias, a multiplicação de restrições ao crédito e a fragilização do mercado de trabalho, esta marcada pela redução dos níveis de emprego e de salários reais médios.

Convém recordar que as benesses contidas na redução ou zeragem da alíquota do imposto sobre produtos industrializados (IPI) foram aplicadas entre 2009 e 2014, a despeito de a principal atividade favorecida, “fabricação de veículos, reboques e carrocerias” representar apenas 8,5% na formação da renda da indústria de transformação, ficando atrás de “produtos alimentícios” (17,6%) e “fabricação de coque, de produtos derivados e de biocombustíveis” (10,9%), não contemplados com os favores patrocinados pelos governos Lula e Dilma.

Por essa ordem de investigação, a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), apurou queda de -11,45% nos emplacamentos de veículos entre janeiro e abril deste ano, em comparação com o mesmo período de 2016, puxada por motos (-27,32%), caminhões (-23,39%), ônibus (-20,17%) e implementos rodoviários (-17,14%). Mesmo automóveis e comerciais leves, objeto de sucessivas campanhas promocionais, por parte das revendedoras, exibiram decréscimo de -1,67%.

Por um lado, os dados demonstram a magnitude e a gravidade dos ferimentos provocados pela mais longa recessão da história brasileira nas atividades produtivas. De outro extremo, a resistência do quadro negativo reflete as incertezas dos agentes quanto à formação de um clima favorável à recuperação dos negócios, em face, sobretudo, da fragilização da credibilidade das instituições, fruto dos escândalos de corrupção, envolvendo algumas grandes empresas e membros dos poderes executivo e legislativo, e do protagonismo confuso, exercido pela instância judiciária.

Em uma ótica mais abrangente, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), aferiu diminuição de – 2,4% nas vendas de veículos automotores às concessionárias, naquele intervalo de tempo, determinada pelos recuos em ônibus (-29,2%) e caminhões (-24,1%), em decorrência da acumulação de estoques associada à depressão da demanda. Em paralelo, máquinas agrícolas e rodoviárias contabilizaram acréscimo de 33,1%, atrelado à performance do agronegócio e das exportações.

De fato, a cadeia do agro configura um centro de excelência em eficiência e competitividade da economia nacional, amplamente integrada ao front global e portadora de incorporação de progresso técnico, viabilizado por meio do aprofundamento de pesquisas, realizadas por instituições públicas, como Embrapa, e privadas, com pronunciada presença e participação das cooperativas.

Para os demais ramos exportadores não é difícil notar a carência de contínuos ganhos de produtividade e inovação, em uma atmosfera de acirramento da concorrência e protecionismo externo, agravada pela perene elevação do custo Brasil que, praticamente, vem comprometendo o encaixe de empresas e produtos brasileiros nos principais encadeamentos internacionais de valor.

A propósito, as vendas externas representaram a principal motivação para o incremento de 20,9% nos patamares de produção, impulsionada por máquinas agrícolas e rodoviárias (55,5%) e caminhões (6,5%). As exportações de máquinas e caminhões variaram 18,8% e 43,3%, respectivamente.

Mesmo assim, as montadoras funcionam com margens de ociosidade de 55% (52% nas unidades fabricantes de automóveis e 80% nas de caminhões e ônibus). Não por acaso, em um ano, o segmento, que ocupa 120,9 mil pessoas, apresentou desligamentos líquidos (contratações menos demissões) de 8.419 trabalhadores, sendo que 8.938 empregados encontram-se com jornada e salários reduzidos e 1.347 em regime de lay-off (contratos de trabalho suspensos).

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é Economista, Consultor, Professor da FAE Business School, ex-Presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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