Choque de impostos e de preços dos combustíveis

Gilmar Mendes Lourenço.

A fórmula desenvolvida e implantada pelo ministério da fazenda da gestão Temer, visando contornar a incapacidade oficial de reverter a escalada dos desníveis nas contas públicas e o estouro da bastante generosa meta de déficit fiscal, estipulada para 2017, é sugestiva de um esforço improvisado de combate ao incêndio, por meio do emprego de apreciável dose de combustível.

No fundo, no afã de abrandar o descumprimento do objetivo de déficit primário para o corrente ano, retratado na estimativa de ampliação de R$ 139,0 bilhões para R$ 145,0 bilhões e provocado por descontrole de gastos e queda de arrecadação, vinculada à recessão, e aproveitando o clima de desinflação, propiciado pela conjugação entre safra recorde de alimentos e anemia dos negócios, o governo federal decidiu, por decreto, sem a necessidade de apoio do congresso nacional, elevar a carga tributária incidente sobre combustíveis, especificamente PIS e COFINS.

Houve substancial aumento do fardo de impostos por litro dos principais combustíveis que passou de R$ 0,3816 para R$ 0,7925, para a gasolina; de R$ 0,248 para R$ 0,4615, para o diesel; de R$ 0,12 para R$ 0,1309, para o produtor de álcool; e de zero para 0,1964, para o distribuidor de etanol.

Com isso, o staff econômico do planalto calcula a ocorrência de transferência de R$ 10,4 bilhões, gerados pelo sistema privado (corporações e famílias), para a cobertura da exponencial sangria dos cofres públicos, derivada da combinação entre a prevalência de posturas tecnicamente primitivas na confecção da peça orçamentária e da malversação de recursos, sendo esta composta por aprofundamento das interferências políticas e rendição a interesses imediatos, ligados à tentativa de salvação do mandato do presidente da república, depois da divulgação do conteúdo das gravações de conversa acontecida entre o chefe de estado e o empresário Joesley Batista.

Em vez de perseguir a racionalização e a melhoria da eficiência dos dispêndios, as autoridades preferiram encaminhar a fatura dos desequilíbrios das finanças públicas, notadamente da União, para a fração mais vulnerável do tecido produtivo e social, especialmente os segmentos intensivos em transporte, já suficientemente penalizados pela explosão do custo Brasil derivada do sucateamento e da multiplicação dos gargalos logísticos do País.

Isso porque, a majoração dos preços administrados, ensejada pelo choque de impostos, carrega apreciável potencial de promoção de desarranjo da estrutura de preços relativos, que foi alinhada, à duras penas, pelo ministro Joaquim Levy, em 2015, com a correção nas tarifas de energia, preços dos combustíveis, transportes urbanos e taxa de câmbio.

Igualmente traz o risco de interrupção da discreta e localizada recuperação econômica, induzida pelo declínio estrutural da inflação e as sucessivas rodadas de cortes dos juros básicos, pelo Banco Central, ainda que amparada nas cadeias do agronegócio, notadamente nos ramos mais articulados ao comércio internacional, beneficiados pela generalizada reativação da economia global e a reação dos preços das commodities alimentares.

De fato, a opção pela esticada da cunha tributária enfeixa condutas e expedientes cômodos, característicos de administrações desprovidas de apoio popular e absolutamente incapazes de perceber os efeitos maléficos decorrentes da operação de um estado que, de um lado, abocanha mais de um terço da renda gerada pela órbita privada (consumidores e empresas), o que representa o maior fardo de impostos e contribuições entre os países de renda média – suplantando em quase 40% a capacidade de suporte da sociedade, conforme algumas inferências internacionais -, e, de outro, disponibiliza serviços públicos, em quantidade e qualidade, semelhantes às nações consideradas de terceiro mundo.

Enquanto isso, o encaminhamento, discussão e aprovação de uma reforma tributária voltada à diminuição dos gravames indiretos, ou ao barateamento das despesas de consumo e investimento, e à subida da taxação direta sobre aplicações em renda fixa e patrimônio, irrisória em relação aos padrões globais, que, por sinal, favoreceria a minimização das desigualdades na apropriação do produto social, permanece ausente das agendas do governo e do legislativo.

Mais que isso, há um silêncio sepulcral acerca de propostas contemporâneas de modificação no arcabouço tributário, centradas, por exemplo, na instituição de um imposto sobre valor agregado que, operacionalmente, possa eliminar os impactos em cascata do emaranhado formado por IPI, ICMS, ISS, PIS, COFINS e IOF.

Essa postura conservadora vem recebendo o endosso da esfera judiciária, que, consome, no Brasil, em proporção do produto interno bruto (PIB), mais de quatro vezes a absorção constatada na média dos integrantes da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e outras corporações que, em paralelo à exposição pública de “patos” infláveis, defendem, fervorosamente, a manutenção da contribuição compulsória de 2,5% da folha de salários, para financiar parte das ações do sistema S, e manifestam desaprovação à criação da taxa de longo prazo (TLP) que, dentre outros avanços, deve conferir maior transparência às transações do BNDES.

Convém advertir que, em economias de mercado, qualquer adicional de volume de recursos públicos proveniente de recolhimentos de impostos, sem a contrapartida de realização de dietas governamentais, serve apenas para comprometer as ações direcionadas à consolidação, ou ao resgate, no caso brasileiro, do crescimento, ao retirar renda líquida disponível das famílias e suprimir haveres do caixa das organizações produtivas, fazendo desaparecer as disponibilidades planejadas e/ou alocadas para capital de giro e investimentos.

Por fim, o funcionamento do organismo econômico, ainda que em condições de equilíbrio instável, apropriado da física, impõe sintonia fina entre os preços relativos, condição essencial para a sustentação de ciclos de expansão dos níveis de atividade e administração e controle das pressões inflacionárias. O descumprimento de tal exigência exigirá a contratação de serviços de reposicionamento das peças no tabuleiro, ao preço do recrudescimento da inflação e/ou intensificação da recessão.

Partindo do pressuposto de que a exacerbação dos distúrbios políticos no Brasil reflete crenças e, sobretudo, valores da sociedade, urge a formulação e cumprimento de uma agenda de estado absolutamente divorciada das demandas partidárias. Decerto é tarefa para 2019.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 52 anos na área de jornalismo, sendo 50 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Há 25 anos é professora titular do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 19 anos de blog, mais de 50 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 21 prêmios, com destaque para Embrapa Floresta (Menção Honrosa em 2025); VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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