“O que é ruim a gente esconde”
O brilhante ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, do governo do estelar presidente Itamar Franco, criador do Plano Real, mecanismo responsável pelo extermínio da hiperinflação brasileira, em conversa informal com o repórter da TV Globo, Carlos Monforte, minutos antes de conceder entrevista ao vivo ao “Jornal da Globo”, em 01 de setembro de 1994, proferiu imprudente frase, captada por sinais de antenas parabólicas, que incitou inevitável pedido de demissão da pasta.
O tropeço ocorreu durante conversa descontraída com Monforte, jornalista de seu círculo familiar, num instante de escape da indispensável postura de discrição, ao esboçar o conteúdo explicativo da estratégia escolhida e adotada para comunicação das várias realizações e reparos de algumas falhas daquele curto mandato governamental.
As atenções fundamentais estavam voltadas à correção dos múltiplos estragos feitos pelo time de Fernando Collor de Mello – entre março de 1990 e 1º de outubro de 1992, quando a Câmara dos Deputados instaurou um processo de impeachment contra o chefe de estado – e ao fortalecimento das chances de vitória eleitoral do candidato da coalização liderada pelo PSDB, Fernando Henrique Cardoso (FHC), por ocasião do pleito presidencial.
Com surpreendente franqueza e desenvoltura, mesmo para diálogos cordiais que antecedem entradas ao vivo, o ministro chegou a se colocar a disposição para outras aparições na emissora, na categoria de grande eleitor do postulante do governo à cadeira máxima da nação.
Sem qualquer propensão à frenagem, o professor Ricupero afirmou: Eu não tenho escrúpulos. Acho que é isso mesmo. O que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde”.
Ao avaliar que a repercussão do deslize cometido poderia comprometer irremediavelmente o êxito do processo de ajustamento macroeconômico em curso, Ricupero teve a grandeza de comunicar a renúncia do cargo e o desligamento do grupo governamental.
Em prosseguimento à sua trajetória fora da administração pública, Ricupero ocupou funções relevantes dentro e fora das fronteiras brasileiras, engrandecendo, com sua enorme competência, as instituições que tiveram o privilégio de contar com a sua colaboração.
A alusão ao pecado do ex-ministro prende-se ao fato de que, no final de abril de 2022, o Palácio do Planalto se ocupou com a celebração da geração líquida de 136,2 mil empregos com carteira assinada no país, em março, a 3ª performance positiva seguida, totalizando 615,2 mil vagas abertas, no 1º trimestre do ano, o que evidenciaria a continuidade da retomada da ocupação formal.
Porém, convém apreender que as estatísticas detalhadas, disponibilizadas pelo Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Previdência, expressam uma realidade diferente da observada por ocupantes da esplanada dos ministérios e acomodados acompanhantes triunfalistas.
Isso porque, os números de março revelam o menor volume de admissões líquidas do ano e queda de -11,2% em relação a março de 2021, que contabilizou contratações líquidas de 153,4 mil pessoas, no decorrer do pior mês do surto de Covid-19 no Brasil.
Já o comportamento trimestral situou-se 23,6% abaixo do apurado entre janeiro e março de 2021, que experimentou admissões líquidas de 805,1 mil trabalhadores, o que equivale a pior velocidade de recuperação do emprego desde a penetração, alastramento e tortuoso combate do vírus no país.
A argumentação oficial, com razoável toque de disfarce, para justificar a perda de embalo da dinâmica laboral formal repousa na extinção do Programa de Manutenção do Emprego, em agosto de 2021, que propiciava a suspensão do contrato de trabalho ou a redução de jornada, com cobertura financeira parcial. Na melhor das hipóteses, os técnicos do ministério confundiram “Jesus com Genésio”.
Em contraste com o quadro de permanente ufanismo oriundo do interior do poder executivo, as estimativas da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do IBGE, referentes ao 1º trimestre de 2022, permitem a captura de sinais de estabilização da métrica de ocupações em nível extremamente elevado.
Mais precisamente, a taxa de desemprego mantem-se em 11,1% da força de trabalho – a mesma constatada no intervalo de tempo compreendido entre outubro e dezembro de 2021 e idêntica à mensurada entre janeiro de março de 2016, auge da maior recessão da história republicana, que serviu como golpe de misericórdia para a instalação de processo de cassação da presidente Dilma Rousseff -, totalizando 11,9 milhões de pessoas sem trabalho a procura de ocupação.
Embora tenha declinado de 24,3% para 23,2% da força de trabalho, no período abrangido pela pesquisa, a subutilização (por horas insuficientes e desalento) ainda engloba 26,8 milhões de brasileiros que sobrevivem praticamente à margem de um mercado de consumo de bens essenciais.
Sem contar que a remuneração média caiu -8,6%, em um ano, e a informalidade situa-se acima de 40% da força de trabalho, o que atesta a intensificação da precarização das condições de trabalho no país, que, ao lado da escalada da inflação vem promovendo rápida deterioração da qualidade de vida da população.
Lembre-se de que o recrudescimento da inflação vem sendo causado pela combinação entre forças externas (choques de oferta ocasionados por escassez de commodities e desarranjos logísticos, com o conflito na Ucrânia e a decretação de lockdown por autoridades chinesas para conter a nova onda do Sars-CoV-2) e elementos de perturbação domésticos de natureza política e econômica.
Com isso, há substancial ampliação da pobreza e miséria, anomalia comprovada por simulações efetuadas pelas empresas Tendência – Consultoria Integrada e MB Associados.
A impulsão sustentada do emprego e dos rendimentos do trabalho no Brasil requer a substituição da retórica baseada na “ilha da fantasia” plantada pela direita populista em contraposição ao extremismo de esquerda, transmitida pelo mandatário da nação e seus fervorosos seguidores, por um programa de desenvolvimento de longa maturação, amparado em vultosos investimentos na desobstrução dos gargalos e infraestrutura.
Trata-se de tarefa árdua que depende de capacidade técnica na formulação de diagnósticos e proposições e habilidade na articulação política e mobilização dos diferentes segmentos da sociedade civil. Como se vê, é um complexo assunto para gente séria.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.


