Posicionamento da Americanas é uma tentativa de minimizar o impacto e se distanciar da fraude, diz especialista

Posicionamento da Americanas é uma tentativa de minimizar o impacto e se distanciar da fraude, diz especialista

É uma estratégia para se distanciar dos responsáveis pela irregularidade

Desde o início do ano, a Americanas vem passando por forte crise financeira que já soma mais de R$40 bilhões, frutos de um possível desvio que foi confirmado recentemente pelo Comitê Independente, que identificou um forte esquema de fraude contábil.

Envolvendo vários executivos da empresa, a fraude funcionava a partir da contratação de bônus junto à indústria e  contratos fictícios de verba de propaganda cooperada, que inflaram as receitas e o lucro da empresa. Toda a fraude era ocultada do mercado e do próprio conselho de administração.

Segundo análise de Wagner Moraes, CEO da A&S Partners e especialista em varejo, para manter o respaldo financeiro e lastro contábil, o custo das operações era reduzido utilizando como contrapartida contas patrimoniais de passivos a ativos da companhia. “Operações financeiras foram contratadas sem as devidas aprovações internas e consideradas na geração de caixa. O montante levantado e divulgado soma R$21,7 bilhões. Foram diretamente impactadas as contas de fornecedores, através das operações de forfaiting, ativos foram super avaliados, bem como o seu patrimônio líquido”, destaca.

Wagner, um dos primeiros especialistas a implementar o sistema Forfait no varejo do Brasil, em meados de 1998, destaca também que a empresa que auditava a Lojas Americanas em 2023 era a PwC (Price Waterhouse Coopers), uma das quatro maiores empresas de consultoria e auditoria do mundo. “A PwC foi responsável por avaliar as demonstrações financeiras da varejista, que revelaram um rombo de R$20 bilhões causado por operações de “risco sacado” . A PwC aprovou as contas da Americanas sem ressalvas na última auditoria de 2021, período alvo das “inconsistências contábeis”. A atuação da empresa de auditoria e dos profissionais envolvidos foi alvo de investigações por parte da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC)”.

O economista explica que o Forfait, também chamado de “Risco Sacado”, é uma operação financeira disponibilizada pelas Instituições Financeiras e uma prática realizada pelas empresas como modalidade para antecipação de recebíveis. “Essa operação é bastante comum entre empresas do setor de varejo e funciona da seguinte forma: uma empresa recebe os produtos de seu fornecedor ou a execução dos seus serviços de forma antecipada ao pagamento. Assim, o valor e as formas de pagamento são acordados entre as partes de forma prévia. O fornecedor realiza a emissão de uma fatura com um prazo a ser financiado por um banco ou instituição financeira autorizada a oferecer essa modalidade, ou seja, o banco credor do risco sacado. No entanto, o valor de venda não é considerado pelo fornecedor em sua contabilidade quando essa operação é feita. Da mesma forma, a empresa que está pagando de forma antecipada também não reconhece o valor de saída em seu passivo oneroso. Ao invés de considerar como “passivo oneroso”, a empresa coloca o valor do montante pago como passivo de fornecedores, ou seja, nas suas dívidas com fornecedores. Quando a empresa devedora capta recursos para pagar fornecedores antecipadamente, após o pagamento feito, é preciso baixar o saldo devedor da conta de fornecedores e registrar a dívida com o Banco que cedeu os recursos”.

Wagner pontua que um erro de ingerência era pouco provável e que a fraude já era esperada,  “Embora seja importante adotar práticas cuidadosas e precisas na contabilização de qualquer transação financeira, inclusive do Forfait, erros ingênuos podem ocorrer. Alguns possíveis erros na contabilização do Forfait podem incluir: erros de registro, na taxa de desconto praticada, na conciliação, documentação de suporte, dentre outros. Para evitar erros ingênuos na sua contabilização, é recomendável seguir boas práticas contábeis, revisar cuidadosamente os documentos envolvidos, conciliar regularmente os registros contábeis com os extratos fornecidos pelo banco e, quando necessário, buscar a assistência de profissionais contábeis ou especialistas financeiros para garantir a precisão e a conformidade das operações contábeis relacionadas ao Forfait. Essa operação é bastante antiga e tradicional no país, sendo que as grandes empresas, bem como as auditorias, estão bastante acostumadas com o seu processo de contabilização. As chances de erros ingênuos são nulas, ou quase inexistentes”.

O economista ainda salienta que o posicionamento da Lojas Americanas em informar ao mercado é uma tentativa de minimizar o impacto negativo da revelação e de se distanciar dos responsáveis pela irregularidade. “No entanto, a empresa ainda terá que enfrentar as consequências legais, regulatórias e reputacionais da fraude, além de recuperar a confiança dos investidores, fornecedores e clientes. A empresa também terá que revisar seus processos internos de controle e auditoria, para evitar que novas fraudes ocorram no futuro”.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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