Indústria corre para modernizar, mas tropeça nos próprios erros

Indústria corre para modernizar, mas tropeça nos próprios erros

Antes de investir em alta tecnologia, fábricas brasileiras redescobrem a importância de mapear seus gargalos e organizar a gestão

O Dia da Indústria, celebrado em 25 de maio, reacende um velho debate sobre a produtividade do setor. Apesar de avanços pontuais em inovação, a indústria brasileira ainda convive com gargalos que limitam sua eficiência. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que a produtividade do setor está em queda há mais de uma década. Essa trajetória sugere que o problema não está apenas na escassez de investimentos, mas também na forma como as fábricas lidam com seus próprios processos.

A chave, apontam consultores e gestores públicos, está em algo mais básico do que robôs ou sensores inteligentes — o diagnóstico interno. Sem saber onde estão os desperdícios, gargalos e falhas operacionais, qualquer investimento corre o risco de virar uma solução cara para um problema mal identificado.
Essa é a tese defendida por Vânia Batista, fundadora do Gemba Group, empresa especializada em gestão enxuta e melhoria contínua.

“Uma indústria precisa atuar com gestão e operação enxuta, e isso começa capacitando sua força de trabalho. São eles que fazem o resultado acontecer. Altos índices de retrabalho, falta de métodos e ferramentas para analisar, controlar e potencializar a produtividade, e desperdícios em processos e materiais derrubam os resultados de eficiência operacional”, afirma.

O raciocínio encontra eco na análise de Flávio Numata Junior, gestor da Fundep (Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa), ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que atua com programas de fomento à inovação industrial. “Sem processos bem definidos, a tecnologia apenas automatiza o caos. Às vezes, a empresa tenta implementar uma solução tecnológica sem ter nem controle básico de produção, o que não tem aderência à realidade”, afirma. Segundo ele, um processo bem gerido pode ser feito até “na ponta do lápis”, quando se tem um método.

A abordagem tem ganhado adesão entre pequenas e médias indústrias, que veem na organização dos processos um caminho mais acessível para crescer. O modelo adotado pelo Gemba Group, por exemplo, prevê quatro fases que incluem diagnóstico inicial, implantação da gestão enxuta, capacitação das equipes e, por fim, adoção de tecnologias como automação e robotização. Essa estrutura, segundo Vânia, evita que decisões sejam tomadas com base apenas no instinto ou sob pressão por modernização. “A empresa precisa diagnosticar como e onde está perdendo performance. Com essas informações, parte para a implantação do sistema de gestão e operação enxuta, capacita seus trabalhadores com foco em melhoria contínua, e só depois está preparada para embarcar tecnologias”, explica.

Diagnóstico e maturidade digital: medir para evoluir

Mais do que identificar falhas pontuais ou desperdícios no chão de fábrica, o diagnóstico industrial tem ganhado protagonismo como ferramenta estruturante para orientar decisões estratégicas. Antes de qualquer movimento rumo à digitalização, a capacidade de entender com precisão os próprios processos se mostra essencial para evitar soluções caras para problemas mal definidos.

É por isso que, cada vez mais, ferramentas de diagnóstico vêm sendo aplicadas como ponto de partida para qualquer estratégia de transformação. Entre elas, destaca-se o teste de maturidade digital, criado pela Fundep e utilizado em projetos com indústrias de diversos portes.

Desenvolvido no âmbito do programa federal Mobilidade Verde e Inovação (Mover) linha IV – Ferramentarias, dentro da iniciativa Conecta Mais, o teste foi adaptado a partir da metodologia do Instituto Fraunhofer, referência em Indústria 4.0 na Europa. O objetivo é verificar o grau de preparo de uma empresa para evoluir em sua jornada digital e produtiva. “A aplicação permite entender o que a empresa deseja, o que de fato pode executar e como pode evoluir. O teste não serve apenas para avaliar, mas também para orientar a jornada de melhoria”, explica Flávio Numata Junior, que atua pela Fundep no Programa Mover linha IV – Ferramentarias.

Segundo ele, o teste tem três funções centrais — alinhar expectativas, indicar prioridades de intervenção e medir a evolução após a implementação de soluções. Em um cenário em que o Brasil ainda se encontra majoritariamente nos níveis iniciais de maturidade digital, o teste se torna uma ferramenta essencial para orientar avanços realistas. É aplicado no início e ao fim dos projetos. “Em muitos casos, a indústria deseja implantar sensores inteligentes ou automação sofisticada, mas ainda opera com controles manuais e sem dados estruturados. O teste ajuda a evitar equívocos e direcionar melhor os recursos”, afirma.

Mais do que um checklist tecnológico, a ferramenta também considera aspectos de gestão, estrutura de pessoas, processos e cultura organizacional. “Há uma resistência natural a mostrar fragilidades internas. Mas o diagnóstico, quando conduzido com critério e confidencialidade, abre espaço para que o empresário enxergue com clareza onde está e o que precisa mudar”, afirma Numata. Para ele, reconhecer o ponto de partida é o que permite definir um caminho realista de evolução industrial.

Tratado da Produtividade: solução estruturada com subsídio

O diagnóstico também estrutura outras iniciativas voltadas ao aumento da produtividade industrial. Uma delas é o Tratado da Produtividade, programa conduzido pelo Gemba Group, que parte da análise técnica dos processos para transformar mapeamento em ações práticas de melhoria. Em muitos casos, o Gemba atua como elo entre a empresa e instituições de fomento, como a Fundep, com quem mantém credenciamento para execução de projetos subsidiados.

O processo começa com um diagnóstico detalhado. A partir dele, a empresa define o que deseja implementar e, com apoio do Gemba, submete o plano à Fundep para viabilizar o acesso aos recursos necessários. “Nosso trabalho é ajudar a empresa a organizar suas prioridades, identificar as melhorias viáveis e acessar a verba sem que precise tirar do próprio bolso”, explica Vânia Batista, fundadora do Gemba Group.

O Tratado opera em dois formatos. Um deles é voltado para a capacitação via educação a distância, com acesso a mais de 70 cursos voltados à qualificação de trabalhadores da indústria e lideranças operacionais na plataforma de capacitação industrial Gemba Ensina. O outro envolve projetos personalizados de gestão e operação enxuta, com diagnóstico técnico e implantação de soluções sob medida. Nessa frente, o Gemba atua como consultoria credenciada junto a instituições de fomento, como a Fundep, para viabilizar o acesso a subsídios.

“Muitas empresas querem melhorar, mas não sabem por onde começar. O Tratado da Produtividade transforma esse desejo em ação concreta, com impacto direto na eficiência e nos resultados financeiros das indústrias”, afirma Vânia. Segundo ela, mesmo empresas com pouca estrutura podem iniciar a transformação desde que recebam orientação prática e recursos adequados.

Flávio Numata, da Fundep, reforça que programas como esse são fundamentais para tornar viável a modernização das pequenas e médias indústrias. Segundo ele, é comum que as empresas priorizem soluções técnicas imediatas, como aquisição de equipamentos, e deixem em segundo plano a estruturação de processos e a formação de equipes. “Os ganhos mais consistentes aparecem quando a empresa reorganiza seus processos. O salto real acontece quando se aprende a operar melhor com o que já se tem”, afirma.

Crédito da imagem – Canva

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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