Eleições de 2026: o que fazer com o seu dinheiro antes da votação de outubro?

Eleições de 2026: o que fazer com o seu dinheiro antes da votação de outubro?

Com juro real acima de 8% ao ano e inflação pressionada, especialista explica como proteger as economias do “efeito urna” em um cenário de alta volatilidade

Com a proximidade das eleições presidenciais de outubro, o investidor brasileiro enfrenta uma dúvida clássica: é hora de congelar os investimentos, mudar tudo de lugar ou continuar aplicando? No segundo semestre de 2026, a resposta para essa pergunta ganhou um peso extra. Especialistas alertam que o período eleitoral deste ano exige uma estratégia diferente dos anteriores porque as ferramentas econômicas que protegeram o país no passado mudaram, e a regra de ouro para proteger o bolso agora cabe em uma palavra: defesa.

Para Fellipe Rabelo, especialista em finanças e sócio-cofundador da V2R Capital, o erro de muitos brasileiros é tentar “adivinhar” quem vai ganhar a eleição para só então decidir o que fazer com o dinheiro.

“A volatilidade não decorre do processo democrático em si, mas da incerteza institucional que ele carrega. O mercado financeiro é, em essência, um mecanismo de precificação do futuro; quando o futuro comporta cenários diametralmente opostos, de continuidade a ruptura do arcabouço fiscal, os preços oscilam com violência proporcional à distância entre esses mundos”, explica Rabelo.

Por que 2026 exige mais cuidado? Os dados do cenário

Diferente de outros anos eleitorais, o Brasil chega a 2026 com menos “colchões” de proteção. Em 2002, o país surfou o superciclo de commodities; em 2014, a dívida era menor; em 2018, o mundo nadava em liquidez; e em 2022, houve um choque positivo no pós-pandemia. Agora, o cenário é de exaustão simultânea dessas defesas, o que se reflete em números frios:

  • Dívida Pública em alta: A dívida bruta do governo atingiu 81,1% do PIB pelo critério do Banco Central, e chega a 94,3% pelo critério do FMI. O déficit nominal (que inclui a conta de juros) alcançou 9,62% do PIB.
  • Crescimento e Inflação: O mercado projeta um crescimento do PIB de 1,99% para o ano. Já a inflação (IPCA) deve encerrar 2026 em 5,30%, ficando acima da meta de 3,0%.
  • A “Super Selic”: Para conter os preços, o Banco Central mantém o juro básico (Selic) projetado em 14,00% ao fim do ano. Descontada a inflação, o juro real brasileiro supera os 8% ao ano, figurando entre os mais altos do mundo.

Além disso, o cenário externo não ajuda. Os juros americanos seguem elevados, drenando investimentos dos países emergentes, e o câmbio projetado a R$ 5,20 para o fim do ano reflete a busca persistente por proteção em moeda forte. Nesse ambiente, o custo do erro para o investidor é alto.

O guia do investidor: o que fazer na prática?

Para quem busca segurança e quer blindar o patrimônio contra o “efeito manchete” das pesquisas eleitorais, o especialista da V2R Capital aponta os caminhos práticos para a carteira:

1. Aproveite a carona dos juros altos na Renda Fixa

Com a Selic projetada em 14%, a renda fixa pós-fixada (indexada ao CDI) oferece um retorno excepcional com risco mínimo de oscilação de preços. Para prazos mais longos, títulos atrelados à inflação (IPCA+) garantem o ganho real, protegendo o seu poder de compra.

  • O que evitar: O momento exige cautela com títulos prefixados longos (que podem desvalorizar se as taxas de juros subirem ainda mais por desconfiança fiscal) e com o crédito privado de menor qualidade, já que os juros altos asfixiam empresas muito endividadas.

2. Proteção Geográfica e Cambial (Dólar)

Manter todo o patrimônio investido apenas no risco Brasil é considerado um risco não compensado. O dólar funciona como o principal protetor (hedge) da carteira, pois tende a subir justamente quando os ativos brasileiros caem em momentos de estresse doméstico. Investimentos no exterior, como títulos do tesouro americano (Treasuries) e ações globais, dão acesso a mercados que reduzem a correlação do seu bolso com a política local.

3. Renda Variável com foco defensivo

A Bolsa de Valores sofre o duplo golpe da fuga de capitais para o exterior e da concorrência com uma renda fixa que paga 14%. Para quem quer ter ações, a estratégia precisa ser totalmente defensiva. O foco deve ser em empresas exportadoras (beneficiadas pelo dólar alto), companhias de baixo endividamento e setores resilientes com receitas corrigidas pela inflação, como os de utilidade pública (utilities) e saneamento.

Os erros de comportamento mais comuns

A economia comportamental mostra que o maior perigo em anos eleitorais não está na escolha errada de um investimento, mas sim nas decisões tomadas sob pânico.

“A aversão à perda, o achado central de Daniel Kahneman e Amos Tversky de que a dor de perder supera o prazer de ganhar, leva investidores a liquidar posições no fundo do poço, convertendo volatilidade temporária em perda permanente de capital”, alerta o texto base da análise.

Outro erro clássico é a paralisia: acumular caixa em excesso e deixar o dinheiro parado esperando “a poeira baixar”, abrindo mão de um rendimento seguro de 14% ao ano. Tentar adivinhar a hora exata de entrar ou sair do mercado (timing) é estatisticamente falho.

“A recomendação final é que uma alocação estratégica bem definida não precisa ser alterada a cada pesquisa eleitoral. O rebalanceamento periódico força o investidor a agir de forma contracíclica, vendendo na euforia e comprando no pânico. As urnas de outubro definirão o próximo presidente. Não deveriam definir a próxima década do seu patrimônio”, afirma Fellipe Rabelo.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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