Exportar mais não basta: armazenagem define qualidade e valor dos grãos

Exportar mais não basta: armazenagem define qualidade e valor dos grãos

Variações de temperatura, teor de água e umidade do ambiente podem comprometer a classificação, a estabilidade e o valor comercial de grãos

O desempenho do agronegócio brasileiro no comércio exterior não depende apenas da quantidade produzida. Entre a colheita e o embarque, grãos, sementes e ingredientes agrícolas precisam manter características de qualidade, estabilidade e segurança compatíveis com as exigências do comprador.

Nesse intervalo, os produtos passam por etapas como recebimento, limpeza, secagem, beneficiamento, armazenagem, expedição e transporte. Falhas nesses processos podem provocar alterações no peso, no odor, na aparência, na classificação e na condição sanitária dos lotes.

O desafio se torna mais relevante diante da pressão sobre a infraestrutura. Segundo o Anuário Agrologístico 2026 da Companhia Nacional de Abastecimento, a primeira safra de grãos deve alcançar 218,2 milhões de toneladas, diante de uma capacidade de armazenagem a granel estimada em 202,3 milhões. A diferença representa um déficit nominal de 15,9 milhões de toneladas.

Esse déficit não significa que todo o volume excedente será perdido, pois parte da produção é processada, comercializada ou transportada durante a colheita. Ainda assim, a limitação reduz a flexibilidade logística e amplia a necessidade de preservar adequadamente os produtos que permanecem estocados.

“Quando falamos de exportação, volume é apenas uma parte do resultado. O comprador também espera regularidade, rastreabilidade e cumprimento das especificações acordadas. A armazenagem precisa acompanhar esse padrão de exigência”, afirma Sven von Borries, CEO da Thermomatic do Brasil, empresa especializada em controle de umidade e microclima.

Armazenagem também interfere no resultado comercial

Além de proteger a qualidade, a disponibilidade de armazenagem pode influenciar o momento da comercialização. Pesquisa encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil e realizada pela Esalq-Log/USP com 1.065 produtores rurais, no fim de 2022, mostrou que 40,8% dos entrevistados obtiveram ganhos entre 6% e 20% com o uso de armazéns, em comparação com o preço médio praticado durante a colheita.

Os resultados, divulgados em 2023 e novamente apresentados pela CNA em debates sobre armazenagem no Congresso em 2025, mostram que a estrutura adequada permite organizar o escoamento e buscar períodos mais favoráveis para a venda. Essa vantagem, porém, depende da conservação do lote.

Alterações ocorridas durante a armazenagem podem provocar descontos, reclassificação, necessidade de beneficiamento adicional, redirecionamento para outro uso ou recusa do produto.

“Um lote pode manter praticamente o volume e, ainda assim, perder valor. Mudanças no odor, na aparência, na integridade dos grãos ou na condição sanitária podem alterar sua classificação e reduzir o preço recebido”, afirma Francisco Américo Cassano, consultor e professor de Relações Econômicas Internacionais da Universidade Santa Cecília.

Cada estrutura exige uma estratégia

A preservação da qualidade varia conforme o produto e o sistema de armazenagem. Nos silos e graneleiros, os principais cuidados estão relacionados ao teor de água dos grãos, à secagem, à temperatura da massa, à aeração, à limpeza e ao controle de pragas. Já em armazéns convencionais, salas de sementes e depósitos com produtos ensacados ou acondicionados em big bags, a umidade do ambiente pode exercer influência mais direta sobre embalagens e mercadorias.

“Um silo com grãos a granel não apresenta o mesmo comportamento de uma sala de sementes ou de um depósito de farinhas e rações. O projeto deve considerar o produto, a embalagem, o período de estocagem e a dinâmica da operação”, explica Leandro Nahas, gerente de Engenharia da Thermomatic.

Sementes, farinhas, farelos, rações, café, cacau, castanhas, amidos, temperos e condimentos são produtos higroscópicos, capazes de trocar umidade com o ambiente. Quando expostos a condições inadequadas, podem apresentar empedramento, perda de fluidez, mudanças de textura, deterioração ou desenvolvimento de fungos. Em sementes, as oscilações também podem comprometer o vigor e a germinação. Em cafés, castanhas, cacau e condimentos, alterações sensoriais podem afetar aroma, aparência e aceitação comercial.

Não existe, porém, uma faixa única de umidade relativa aplicável a todos os produtos. A condição adequada depende de fatores como teor de água inicial, temperatura, embalagem e tempo de estocagem.

Quando do armazenamento de grãos, geralmente a espécie indica sua composição. Segundo Paulo Ricardo Los, engenheiro de alimentos, doutor em Ciência e Tecnologia de Alimentos, e professor em Tecnologia de Cereais na Universidade Estadual de Ponta Grossa, há grãos ricos em óleo ou rico em amido, isso afeta bastante como deve ser feito o armazenamento. “Alguns grãos não podem secar excessivamente, outros toleram uma secagem mais drástica.  O que sempre se escolhe são as condições que mantenham a menor taxa biológica possível, ou seja, que o grão mantenha seu estado sem sofrer alterações bioquímicas significativas. Desta forma, mantemos a qualidade do grão, evitando germinação ou defeitos”.

O monitoramento não está nas condições ambientais, mas no monitoramento dos grãos em si. “Num silo de armazenamento podemos ter distribuídos diversos sensores de temperatura, umidade, CO2, para detectarmos se em algum ponto os grãos sofrem alguma alteração. Qualquer alteração nesses parâmetros pode indicar proliferação de fungos, insetos ou até mesmo uma atividade biológica do grão como germinação. No momento que é detectada a alteração, já se tomam medidas para controle da situação”, explica Paulo Ricardo.

Segurança do alimento começa na prevenção

A presença de fungos merece atenção porque algumas espécies podem produzir micotoxinas, substâncias sujeitas a limites e controles nos mercados de alimentos e rações. Reduzir condições favoráveis ao desenvolvimento de fungos é uma medida preventiva, mas não substitui limpeza, controle de pragas, análises laboratoriais, boas práticas e rastreabilidade.

Uma vez formadas, as micotoxinas não são eliminadas apenas pela secagem ou pela redução da umidade do ambiente. Por isso, a prevenção precisa começar no campo e continuar durante a colheita, o transporte, o beneficiamento e a armazenagem.

Em cadeias exportadoras, uma não conformidade pode atingir mais de um lote. Dependendo da gravidade, pode gerar questionamentos sobre fornecedores, processos e controles adotados. “Para o comprador internacional, a confiança é construída pela repetição de entregas dentro do padrão. Quando há uma falha de qualidade, o impacto pode alcançar o relacionamento comercial, e não apenas aquela operação”, observa Cassano.

Desumidificação complementa outros controles

O controle da umidade do ambiente não substitui secagem, aeração, termometria, limpeza ou manejo de pragas. Em áreas fechadas, salas de sementes, depósitos de produtos ensacados e setores de beneficiamento e embalagem, sistemas de desumidificação podem atuar de maneira complementar, retirando parte do vapor de água do ar e reduzindo oscilações ambientais.

O dimensionamento precisa considerar o volume do espaço, a temperatura, a renovação de ar, a movimentação de pessoas e cargas, a entrada de umidade externa e as condições exigidas pelo produto.

A Thermomatic fabrica equipamentos industriais autônomos e sistemas integrados por dutos para aplicações que demandam controle ambiental. Conta com a Linha Plus, indicada para ambientes industriais de maior porte com nível de umidade em 50%, como galpões, armazéns, áreas de estocagem, beneficiamento e expedição, sempre conforme dimensionamento técnico.

“Não se trata de instalar um equipamento e definir uma umidade genérica. É preciso entender o comportamento do produto, as fontes de umidade e a dinâmica do local. O controle ambiental precisa estar integrado ao processo”, afirma Nahas.

Qualidade precisa chegar até o porto

O avanço das fronteiras agrícolas, o crescimento do Matopiba (acrônimo que designa a principal e mais recente fronteira agrícola do Brasil, formado pelas iniciais dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e a expansão dos corredores do Arco Norte aproximam a produção dos portos, mas também ampliam os desafios de armazenagem e transporte. Entre a origem e o destino, o produto pode passar por unidades armazenadoras, terminais ferroviários, estações de transbordo e instalações portuárias. Em cada transferência, existe risco de contato com chuva, condensação, impurezas ou condições inadequadas de estocagem.

A preservação da qualidade deve acompanhar toda a jornada logística, e não apenas o período dentro da propriedade rural. “Controlar a qualidade até o embarque é proteger o valor construído desde o plantio. O mercado externo não remunera apenas a quantidade entregue, mas a capacidade de cumprir o padrão negociado”, afirma Borries.

A armazenagem adequada não elimina todos os riscos da cadeia, mas reduz a possibilidade de que um produto colhido dentro das especificações perca qualidade antes de chegar ao comprador. Em mercados mais exigentes, produzir mais continua sendo importante. Conservar melhor o que foi produzido é o que permite transformar volume em valor comercial.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *