O que muda no bolso dos brasileiros com a Reforma Tributária?

Transição para o novo sistema tributário começa a alterar a dinâmica de cobrança de impostos e deve chegar ao consumidor por meio dos preços de produtos e serviços
Vou pagar mais caro no supermercado? Serviços vão ficar mais caros? O preço de um restaurante pode mudar? E o que acontece com produtos que hoje têm benefícios tributários? Essas são algumas das perguntas que começam a ganhar espaço à medida que a Reforma Tributária avança no Brasil. Embora a mudança esteja sendo implementada principalmente pelas empresas, os efeitos devem chegar ao consumidor por meio da formação dos preços e podem alterar a relação dos brasileiros com o consumo e o planejamento financeiro nos próximos anos.
A reforma já entrou em sua fase operacional. Em 2026, o país vive um período de testes dos dois novos tributos sobre o consumo: a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de competência federal, e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), compartilhado entre estados e municípios. A alíquota-teste é de 1%, sendo 0,9% de CBS e 0,1% de IBS, com compensação em relação aos tributos atuais para os contribuintes que cumprem as obrigações previstas.
Desde 3 de agosto, empresas do regime regular também passaram a ter de preencher nas notas fiscais eletrônicas os campos referentes ao IBS e à CBS. A medida torna mais concreta uma transformação que, até então, estava concentrada em sistemas, regulamentações e adaptações empresariais. Para o consumidor, entretanto, a principal mudança ainda está por vir: a transição para o novo modelo será gradual e deverá modificar a composição da carga tributária de diferentes setores.
“O consumidor não deve olhar para a Reforma Tributária como uma simples conta de aumento ou redução de imposto. O que teremos é uma redistribuição da carga tributária entre diferentes setores e cadeias produtivas, e isso pode alterar preços relativos. Alguns produtos ou serviços podem ficar mais competitivos, enquanto outros podem sofrer pressão de alta. Por isso, o impacto no bolso será diferente de acordo com o padrão de consumo de cada família”, explica André Bobek, especialista em planejamento financeiro da Mhydas Planejamento Financeiro.
Um dos exemplos mais claros está nos alimentos. A legislação estabeleceu uma Cesta Básica Nacional com alíquota zero de IBS e CBS, incluindo produtos como arroz, feijão e leite. Outros produtos e serviços também terão reduções específicas de alíquota, de acordo com as regras estabelecidas pela legislação. Na prática, isso significa que a reforma não terá um efeito uniforme sobre o carrinho de compras: enquanto determinados itens terão tratamento favorecido, outros estarão sujeitos à alíquota padrão do novo sistema.
A diferença tende a ser ainda mais relevante na área de serviços. Empresas desse segmento, especialmente aquelas que possuem poucos insumos que geram créditos tributários, podem enfrentar uma mudança mais significativa na carga. Como a nova lógica amplia a utilização do sistema de créditos ao longo da cadeia, setores com estruturas diferentes de custos e aquisição de insumos poderão sentir efeitos distintos na transição.
“Um dos pontos mais importantes é entender que não existe uma resposta única para a pergunta ‘a reforma vai encarecer o meu consumo?’. Uma família que gasta grande parte da renda com alimentação terá uma exposição diferente daquela que concentra despesas em serviços, educação, saúde, lazer ou outros segmentos. O impacto precisa ser analisado a partir da composição do orçamento, porque é essa fotografia que determina onde eventuais mudanças de preços terão maior peso”, afirma Bobek.
Para o brasileiro, portanto, o impacto da reforma não deve ser medido apenas pela alíquota de um produto isolado, mas pelo conjunto de despesas. Se o preço de determinado bem cair, por exemplo, mas serviços recorrentes sofrerem alta, o efeito final sobre o orçamento familiar poderá ser diferente. A lógica também vale para empresas: mudanças na tributação podem alterar custos e margens e, consequentemente, influenciar decisões de precificação.
A Reforma Tributária também prevê mecanismos destinados a reduzir o peso da tributação sobre famílias de menor renda. Entre eles está o cashback, sistema de devolução de parte dos tributos pagos, especialmente voltado à população de baixa renda. A medida busca tornar a tributação sobre o consumo mais progressiva e reduzir o impacto relativo dos impostos sobre as famílias que comprometem uma parcela maior da renda com consumo.
O que muda e quando?
A transição será longa. Em 2026, CBS e IBS estão em fase de teste. A partir de 2027, começa uma etapa mais efetiva da substituição dos tributos atuais, com a entrada da CBS e a extinção gradual de PIS e Cofins, enquanto o IBS avança progressivamente. ICMS e ISS também serão reduzidos ao longo da transição até a consolidação do novo sistema.
Isso significa que o consumidor não deverá acordar em 1º de janeiro de 2027 diante de uma tabela completamente nova de preços. A mudança ocorrerá aos poucos, conforme empresas adaptem sistemas, contratos, cadeias de fornecedores e estratégias de precificação.
Para Victor Hugo Rocha, advogado da Rocha & Rocha Advogados, esse período de transição será justamente o momento em que consumidores e empresas precisarão acompanhar com mais atenção os efeitos da mudança. “A Reforma Tributária altera a própria lógica de incidência dos tributos sobre o consumo. Hoje temos diferentes impostos, competências e regras que variam conforme o produto, o serviço e a localização da operação. Com o IBS e a CBS, caminhamos para um modelo de IVA dual, com uma estrutura mais ampla de não cumulatividade e aproveitamento de créditos. Isso muda não apenas a forma como as empresas calculam seus tributos, mas também a formação econômica dos preços”, explica.
Outro ponto importante é que a reforma foi desenhada sob o princípio da neutralidade, buscando reduzir distorções nas decisões de consumo e produção. A nova legislação estabelece que IBS e CBS devem evitar, na medida do possível, interferências tributárias artificiais nas escolhas econômicas.
Na prática, porém, a transição pode gerar uma fase de ajustes. Empresas precisarão rever contratos, sistemas de emissão fiscal, cadeias de fornecedores e modelos de formação de preço. O consumidor poderá perceber essa movimentação de maneira indireta, à medida que os negócios decidam como absorver ou repassar eventuais mudanças de custos.
“Não é correto afirmar que a Reforma Tributária vai simplesmente aumentar ou reduzir os preços no Brasil. O que podemos afirmar é que ela vai modificar a estrutura de custos tributários e, com isso, criar ganhadores e perdedores relativos entre diferentes setores. A discussão sobre o impacto no bolso precisa considerar essa transição e, principalmente, evitar conclusões a partir de um único produto ou serviço”, afirma Victor Hugo Rocha.
O que o consumidor deve fazer agora?
Para as famílias, o principal efeito imediato da reforma ainda não está necessariamente no valor pago no caixa, mas na necessidade de acompanhar como os preços vão se comportar durante a transição. Em vez de tentar antecipar quais produtos ficarão mais caros ou baratos, a recomendação é observar a própria composição de gastos e manter uma margem de segurança no orçamento.
“O melhor momento para se preparar é antes de sentir o impacto. Famílias que já sabem quanto gastam com alimentação, moradia, transporte, educação, saúde, lazer e serviços conseguem identificar rapidamente onde uma eventual mudança de preços pesa mais. A organização financeira permite fazer ajustes sem transformar uma alteração tributária em um problema de endividamento”, destaca Bobek.
Para Victor Hugo Rocha, o maior desafio será justamente separar o que é efeito da reforma do que são outros fatores que influenciam os preços. “O preço final de um produto nunca depende exclusivamente do tributo. Câmbio, juros, custo de matéria-prima, salários, logística, concorrência e margem também interferem. Por isso, atribuir qualquer aumento de preço automaticamente à Reforma Tributária seria uma simplificação. O que muda é a estrutura tributária dentro dessa equação, e seus efeitos precisarão ser observados ao longo da implementação”, conclui.
Com a transição prevista para ocorrer ao longo de vários anos, a Reforma Tributária deve deixar de ser um tema restrito a contadores, advogados e departamentos fiscais e passar a fazer parte também das decisões de consumo e planejamento das famílias. O impacto no bolso, portanto, não será determinado por uma única alíquota, mas pela combinação entre o novo sistema de impostos, o setor de cada produto ou serviço e a forma como empresas e consumidores se adaptarão ao novo cenário.








