Herança mais cara: mudanças no ITCMD colocam SP, PR e MG entre os estados mais impactados

Herança mais cara: mudanças no ITCMD colocam SP, PR e MG entre os estados mais impactados

Nova regra do ITCMD pode transformar valor contábil em base multiplicada por até cinco

Em 2026, o ITCMD muda no Brasil: Estados são obrigados a adotar alíquotas progressivas (até 8%), o cálculo passa a incidir sobre o quinhão individual de cada herdeiro e participações societárias serão avaliadas a valor de mercado com goodwill, conforme a Lei Complementar nº 227/2026; a pressão recai sobretudo em UFs com alíquotas fixas como SP (4%), PR (4%) e MG (5%).

A nova moldura legal inaugura uma virada estrutural: o teto de 8% é mantido pelo Senado, mas a progressividade deixa de ser opção e se torna exigência nacional, enquanto a base de cálculo abandona o valor contábil em favor do patrimônio líquido ajustado a mercado, acrescido do fundo de comércio (goodwill) para quotas e ações de companhias fechadas — mudança com impacto direto em holdings familiares. Além disso, o quinhão individual redefine a incidência, tendendo a elevar a cobrança quando o patrimônio fica concentrado em menos herdeiros.

No plano estadual, São Paulo já discute a migração para faixas de 2% a 8% no PL 7/2024, enquanto o Paraná iniciou debate no PL 730/2024, mas um substitutivo retirou a progressividade, mantendo 4% por ora; Minas Gerais segue com 5% fixos e sem projeto em tramitação para adequação — um retrato da transição assimétrica que 2026 pode consolidar.

Estados mais ricos

Segundo o advogado Kevin de Sousa, especialista em Planejamento Sucessório, sócio do escritório Sousa & Rosa Advogados, São Paulo, Paraná e Minas Gerais vão liderar o ranking de impacto porque são os estados mais ricos do país que ainda operam com a comodidade da alíquota fixa. “São Paulo cobra 4% de qualquer herança, seja de R$ 100 mil ou de R$ 10 milhões — e isso está com os dias contados. Já existe o PL 7/2024 na Assembleia Legislativa prevendo faixas de 2% a 8%. Uma herança de R$ 5 milhões que hoje custa R$ 200 mil de imposto pode saltar para R$ 400 mil.

O Paraná está na mesma situação, com 4% fixos, mas foi mais diligente: o Governo já encaminhou o PL 730/2024 à ALEP. O caso mais preocupante é Minas Gerais. O estado cobra 5% fixos, não tem nenhum projeto em tramitação, e corre o risco concreto de entrar em 2026 numa espécie de limbo normativo. A progressividade, a partir da LC 227/2026, não é opção — é imposição constitucional. Quem não se movimentar vai gerar insegurança para o contribuinte e dor de cabeça para o próprio fisco estadual.”

Ao explicar como a conta muda, Sousa esclarece: “Até então, todo mundo pagava o mesmo percentual. Agora é uma escada, cada degrau mais alto custa mais caro. E aqui mora a “ironia”: para patrimônios menores, a progressividade é até vantajosa. Uma herança de R$ 800 mil em São Paulo hoje paga R$ 32 mil; com as faixas progressivas, pode cair para R$ 22 mil. Mas uma herança de R$ 5 milhões sai de R$ 200 mil para até R$ 400 mil.

No Amazonas, que hoje cobra apenas 2%, o salto para 8% no topo é uma multiplicação por quatro. E tem um agravante que pouca gente percebeu: a LC 227/2026 determina que o cálculo agora é feito pelo quinhão individual de cada herdeiro. Isso pode ser devastador para o filho único que recebe um patrimônio concentrado de R$ 8 ou R$ 10 milhões, porque não há diluição. Quem tem patrimônio acima de R$ 2 milhões e não revisou o planejamento sucessório está assumindo um risco que pode custar centenas de milhares de reais”, enfatiza o especialista.

Empresas fechadas

Para ele, a maior alavanca de aumento está na base de cálculo para empresas fechadas: Até agora, muitas holdings familiares eram avaliadas pelo valor contábil, que é irrisório comparado à realidade. A LC 227/2026 acabou com isso. A lei exige expressamente uma avaliação pelo valor de mercado, com metodologia ‘tecnicamente idônea’, considerando patrimônio líquido ajustado, goodwill — marca, carteira de clientes, reputação — e perspectiva de geração de caixa. Em empresas consolidadas, o fundo de comércio sozinho pode representar de três a cinco vezes o valor contábil.

Os estados mais afetados são exatamente os que concentram mais atividade empresarial: São Paulo, com 30% do PIB nacional, Rio de Janeiro, Minas, Paraná, Santa Catarina. O advogado recomenda que empresários e famílias com holdings providenciem laudos técnicos imediatamente, antes que a fiscalização faça a definição dos valores pelo contribuinte.

Ele também aponta insegurança jurídica pela ausência de prazo uniforme de adaptação. “A LC 227/2026 criou a obrigação de progressividade, mas não fixou prazo uniforme para os estados adaptarem suas leis. Podemos terminar 2026 com 27 regimes de transição diferentes, cada um com suas faixas, suas datas e suas lacunas. Isso complica inventários com bens em mais de um estado e doações com reserva de usufruto. Os princípios da anterioridade anual e nonagesimal ajudam no tempo, mas não resolvem o problema de fundo. As regiões mais vulneráveis são o Sudeste pela concentração patrimonial, o Centro-Oeste pelas holdings do agronegócio, e o Norte e Nordeste por terem estruturas administrativas menos robustas”, finaliza o especialista.

Crédito da foto: Canva Wasan Tita de Getty

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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