Crédito cresce, mas inadimplência expõe limite da inclusão financeira no Brasil

Uso de dados alternativos pode permitir que instituições ampliem a base de tomadores sem reproduzir o aumento proporcional do risco
O sistema financeiro brasileiro incorporou quase 26 milhões de novos tomadores de crédito entre 2021 e 2025, mas a expansão da oferta veio acompanhada de um aumento relevante da inadimplência, segundo revelou um levantamento do Equifax BoaVista. No período, o número de pessoas com crédito ativo passou de 96,8 milhões para 122,8 milhões, alta de 27%, enquanto o saldo das operações cresceu 63,7%, para R$ 4,47 trilhões. Ao mesmo tempo, a parcela de indivíduos inadimplentes avançou de 19,9% para 26,3%, criando um dos principais desafios da nova fase de inclusão financeira.
Para Fernando Martins, cofundador da Core AI, a relação entre ampliação do acesso e aumento do risco não é necessariamente proporcional. O fator determinante, segundo ele, está na qualidade das informações utilizadas pelas instituições para decidir quem recebe crédito e em quais condições. A evolução dos fundos que compram recebíveis no mercado brasileiro é um exemplo de que é possível aumentar o volume de recursos direcionados ao crédito sem que a inadimplência acompanhe o crescimento na mesma velocidade.
“A relação entre acesso e risco não é uma equação fixa. Ela depende muito da qualidade dos dados usados na decisão. Um exemplo prático: estudos recentes sobre fundos que compram recebíveis no Brasil mostram índices de inadimplência estáveis mesmo com o patrimônio desses fundos crescendo com força, justamente porque a análise está ancorada na qualidade do fluxo de pagamento, e não apenas em um score genérico”, afirma Martins.
Na avaliação do executivo, o desafio agora é levar essa lógica para uma parcela maior do mercado. Dados alternativos, como recorrência de pagamentos, renda obtida por plataformas digitais e histórico de aluguel, podem oferecer uma visão certeira sobre a capacidade de pagamento de consumidores e empresas que não são bem representados pelos modelos tradicionais de análise de risco.
“Quando se adicionam dados alternativos (comportamento de pagamento recorrente, renda de plataformas digitais, histórico de aluguel pago em dia), a IA consegue separar, dentro de um público antes visto como uniformemente ‘de risco’, quem paga bem e quem não paga. O resultado é conseguir ampliar a base de tomadores sem que a inadimplência suba na mesma proporção, porque a decisão passa a ser mais precisa, não apenas mais generosa”, explica Fernando.
O movimento representa uma mudança importante para bancos, fintechs e demais instituições que disputam o mercado de crédito. Em vez de restringir a oferta diante do aumento da inadimplência, a tecnologia pode permitir uma segmentação mais granular dos tomadores, com limites, taxas e condições ajustados ao risco efetivo de cada operação. Para Martins, esse avanço será fundamental para transformar a expansão do crédito dos últimos anos em uma inclusão financeira sustentável.








