Decifrando o ex-presidente Lula

Gilmar Mendes Lourenço
Gilmar Mendes Lourenço

Na segunda semana do mês de setembro de 2015, por ocasião da diminuição da nota de crédito do Brasil, pela agência norte-americana Standard & Poor´s, posicionando o passivo do governo brasileiro, e de um conjunto apreciável de corporações públicas e privadas por aqui atuantes, no patamar de risco de calote, o ex-presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, em postura diametralmente oposta aquela adotada em abril de 2008, quando a mesma agência concedeu a comenda de investment grade à dívida soberana nacional, desta feita, em entrevista concedida na Argentina, atribuiu nenhum significado relevante ao ocorrido.

Uma razoável dose de tolerância ensejaria a concordância com a mensagem apresentada por Lula, ainda que desprovida de argumentação convincente. De fato, considerando que o mercado financeiro internacional já vinha tratando as demandas do setor público e privado do País de maneira mais rigorosa do que a dispensada a nações tidas como “grau especulativo”, cobrando seguro de proteção contra uma moratória superior ao exigido da Rússia, Turquia, Bulgária e Indonésia, até poderia parecer plausível a hipótese de não deterioração dos cenários em curto prazo.

No entanto, é igualmente lícito admitir que com a existência de leituras semelhantes da conjuntura brasileira, feitas pelas outras duas companhias de rating (Fitch e Moody`s), especialmente no tocante ao quadro fiscal, atual e potencial, os investidores institucionais já estariam preparando o desmanche de carteiras de ativos no front doméstico do País que, na prática, passaria a disputar ¼ da disponibilidade de haveres internacionais, a juros entre três e quatro vezes superiores à média paga pelas praças agraciadas com o grau de investimento.

O pior é que a tentativa de continuar imputando a culpa aos “seres de olhos azuis” carece de consistência técnica, na medida em que a economia global vem delineando, desde 2013, uma trajetória de crescimento moderada (3% ao ano), porém, generalizada. De fato, s patinhos feios de expressão seriam a Rússia, envolvida em guerras, sofrendo sanções e padecendo com a queda estrutural das cotações do petróleo em escala mundial, e o Brasil.

Em seu íntimo, Lula deve reconhecer ser o grande responsável pelo colapso econômico registrado pela nação, construído criteriosamente desde 2004, com a aquisição de apoio parlamentar, viabilizada pelo Mensalão; o aparelhamento partidário das estatais, visando à feitura de articulações espúrias entre figuras de elevado coturno do executivo e as grandes empreiteiras, para a cobertura das campanhas eleitorais; e as ações contracíclicas, deflagradas por ocasião da eclosão da crise do subprime dos Estados Unidos, em fins de 2008.

As medidas incentivo à impulsão do consumo interno (público e privado) foram tornadas perenes na gestão da sucessora, Dilma Rousseff, com o status de nova matriz econômica, centrada no abandono dos fundamentos da estabilização – câmbio, flutuante, metas de inflação e superávits primários –, vigentes desde 1999, e na exacerbação do intervencionismo estatal no cotidiano da iniciativa privada, responsáveis diretos pela contração dos negócios e, principalmente, a desidratação dos segmentos produtivos capazes de impulsionar a recuperação econômica em bases sólidas, particularmente os ramos industriais portadores de progresso técnico.

A assessoria econômica de Lula ainda não deve ter lhe informado que o produto interno bruto (PIB) do Brasil deverá encolher -5,6%, entre abril de 2014 e dezembro de 2016. Trata-se da mais prolongada e a segunda maior recessão da história, superada apenas pela experimentada no intervalo 1981-1983, com queda acumulada de -6,2% do PIB, mesmo com a expansão de 0,8%, em 1982, puxada pela impulsão dos gastos públicos, no derradeiro respiro eleitoral do regime militar.

Em 1930-1931, como efeito da Grande Depressão Mundial e da nova crise de superprodução e compressão dos preços globais do café, o declínio foi de -5,4%; e, em 1990-92, sob a administração Collor, a retração foi de -3,9%, mesmo com o acréscimo de 1%, em 1991, determinado pelos desdobramentos do congelamento de preços daquele ano.

É prudente reter que, enquanto no encolhimento dos anos 1930, organizava-se, no Brasil, ainda que de maneira improvisada, o maior ciclo de substituição de importações de que se tem notícia em uma economia capitalista; o interregno 1981-1983 abriu espaço para o maior esforço exportador já contabilizado pelo País; e, as frustradas iniciativas de Collor no combate à inflação e na multiplicação da corrupção, oportunizaram o surgimento de Itamar Franco, do Plano Real e do grupo de mudanças institucionais subsequentes; o presente estágio negativo reserva exíguos lances de superação em médio prazo. Não por acaso, conforme o período britânico Financial Times, o Brasil seria um doente em estado terminal.

A identificação do risco de derrota eleitoral em 2014 levou os inquilinos (donos) do poder à maximização das atitudes perdulárias na administração dos orçamentos públicos, o que forçaria condutas austeras e impopulares, por parte das oposições vencedoras, e, consequentemente, o retorno dos guerreiros em 2018. Por esse raciocínio, soa deprimente a defesa de novas rodadas de subidas da carga tributária pelo governo, engrossada pela “turma da bufunfa”, hospedada nos mercados.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, professor e editor da Revista Vitrine da Conjuntura da FAE Business School.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 52 anos na área de jornalismo, sendo 50 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Há 25 anos é professora titular do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 19 anos de blog, mais de 50 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 21 prêmios, com destaque para Embrapa Floresta (Menção Honrosa em 2025); VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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