As raízes estruturais da queda do PIB

Gilmar Mendes Lourenço.
Gilmar Mendes Lourenço.

As informações atualizadas do Sistema de Contas Nacionais (SCN), divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), relativas ao terceiro trimestre de 2015, confirmam o aprofundamento da recessão que assola o País pelo menos desde abril de 2014, fruto das estripulias que vêm sendo cometidas, no terreno doméstico, a partir do final de 2008, sob o pretexto de preservação da nação dos efeitos de uma crise internacional que, rigorosamente, nem existe mais.

O Produto Interno Bruto (PIB) caiu -4,5% entre julho e setembro de 2015 quando comparado com o mesmo período do ano anterior, puxado pelas importações (-20,0%), investimento (-15,0%), consumo das famílias (-4,5%) e compras governamentais (-0,4%). O quantum das exportações apareceu como o solitário elemento da demanda agregada a exibir acréscimo (+1,1%), imputado aos efeitos da depreciação do real. No indicador acumulado entre janeiro e setembro, o PIB encolheu -3,2%.

Ao mesmo tempo, por uma observação dos grandes setores, percebe-se que, afora mineração (+4,2%) e energia (+1,5%), o declínio revelou-se generalizado, sendo as piores performances registradas pela indústria de transformação (-11,3%), comércio (-9,9%), transporte, armazenagem e correio (-7,7%), construção civil (-6,3%) e agropecuária (-2,0%).

Na verdade, a tentativa de conserto dos estragos ocasionados entre 2008 e 2014, pela via conservadora, centrada em aumento de impostos e de juros, moderados contingenciamentos orçamentários e abrupto ajuste dos preços administrados, represados durante anos, serviu apenas para agravar o ciclo contracionista, ao afetar negativamente os níveis de emprego e salários e, por extensão, a confiança dos agentes, derrubando o consumo e o investimento.

Contudo, o contrato de deterioração dos níveis de atividade no Brasil contém cláusulas estruturais associadas à miopia de curto prazo da orientação macroeconômica e ao abandono da perseguição do aprimoramento de itens voltados à elevação da competitividade sistêmica da produção e dos negócios. Em outras palavras, mais grave do que os sucessivos malogros conjunturais é a ausência de políticas direcionadas à destruição dos enormes obstáculos à expansão de longo prazo do sistema produtivo nacional.

A recuperação da capacidade de crescimento duradoura da base econômica esbarra na elevada expropriação de recursos da órbita privada pelo setor público, conhecida como carga tributária, que chega a 45% do PIB se for incorporado o déficit nominal das finanças governamentais, sem a contrapartida em adequada provisão de infraestrutura econômica e social, especialmente quando considerado, conforme estudos consistentes, que a capacidade de suporte da sociedade seria de um fardo tributário de 25% do PIB, compatível com uma nação de renda média.

Há também o peso dos juros, utilizados como ferramenta de combate à inflação, sem êxito, diga-se de passagem, mas que, no final das conas, na ausência de maior concorrência interbancária, servem apenas para assegurar a rolagem da apreciável dívida mobiliária do governo e majorar as despesas de consumo das famílias e de giro e de investimentos das corporações.

Em idêntico sentido, a falência do Estado levou ao vazio representando pela precarização da manutenção e paralisação dos investimentos em ampliação e modernização da infraestrutura, sem qualquer chance de preenchimento com participação privada, por conta do déficit de transparência e diálogo e excesso de intervencionismo nas iniciativas de concessões já orquestradas, prevalecentes na postura das autoridades do planalto.

Não bastasse isso, ressalta o exagerado aparato burocrático, a defasagem do arcabouço trabalhista, a absoluta ausência de aportes oficiais e incentivos às ações privadas para a impulsão das inversões em ciência e tecnologia e as disfunções da política cambial, aspectos impeditivos da conformação de rearranjos na estrutura de preços relativos para a diminuição do custo Brasil e a melhoria da eficiência dos fatores de produção.

Infelizmente, o fundo do poço ainda não foi atingido. As expectativas sociais repousam no encaminhamento e negociação de soluções institucionais para os embaraços políticos que, hoje, representam os autênticos bloqueios à construção de um projeto nacional de desenvolvimento e, por extensão, à retomada do crescimento econômico em bases solidas por aqui.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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