O Copom e o agressivo corte na Selic

Gilmar Mendes Lourenço.

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), tomada na reunião acontecida em 12.04.2017, de reduzir a taxa básica de juros da economia brasileira, conhecida como Selic, em um ponto percentual, fazendo-a recuar de 12,25% ao ano para 11,25% a.a., foi extremamente acertada, referenciada pela combinação entre consistente queda da inflação e estagnação econômica.

É a confirmação da onda cadente, deflagrada em outubro de 2016, configurando a quinta diminuição consecutiva, sendo a maior em desde julho de 2009, quando caiu de 10,25% a.a. para 9,25% a.a., e chegando ao menor patamar registrado desde outubro de 2014, também 11,25% a.a.

Mais precisamente, a inflação, aferida pelo índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atingiu 4,47% ao a.a., em doze meses encerrados em março de 2017, convergindo rapidamente para o centro da meta de 4,5% a.a., fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Mais que isso, no primeiro trimestre de 2017, a variação média de preços foi de 0,96%, versus 2,62%, entre janeiro e março de 2016, a menor identificada para o intervalo desde o lançamento do Real, em 1994.

Já pelo ângulo dos indicadores da economia real, observa-se lenta, difusa e modesta retomada de fôlego das transações, mesmo considerando a base de confronto deprimida, do início de 2016, e com enorme colaboração do agronegócio. A produção industrial cresceu apenas 0,3%, no primeiro bimestre de 2017, em cotejo com o mesmo intervalo de 2016, ancorada em bens de consumo duráveis (+11,6%) e de capital (+3,7%, máquinas agrícolas e para a construção), segundo o IBGE.

Em contraposição, pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra a persistência da fase de baixa do setor industrial, nos primeiros dois meses de 2017, em relação a janeiro-fevereiro de 2016. Houve regressão em todos os itens acompanhados: faturamento real (-8,4%); horas trabalhadas (-2,9%); emprego (-4,3%); massa de salários reais (-6,2%); e rendimento médio real (-2,0%). A utilização da capacidade instalada declinou de 76,6%, em fevereiro de 2016, para 76,0%, em fevereiro de 2017.

Na mesma linha, o volume de vendas do comércio varejista brasileiro diminuiu -2,1% no primeiro bimestre de 2017, em comparação com o mesmo período de 2016. Dos dez segmentos observados, seis (combustíveis e lubrificantes; artigos farmacêuticos, medicinais, ortopédicos e de perfumaria; livros jornais e revistas e papelaria; equipamentos e materiais para escritório e comunicações; outros artigos de uso pessoal e doméstico; e veículos e motos, partes e peças) experimentaram redução de vendas, um (hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo) permaneceu estagnado e apenas três (tecidos, vestuário e calçados; móveis e eletrodomésticos; e materiais de construção) acusaram expansão.

De acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a produção de veículos (automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus) cresceu 24,0% entre janeiro e março de 2017, contra os três primeiros meses de 2016, impulsionada por máquinas agrícolas e rodoviárias e caminhões (26,3%).

Na verdade, os indicadores sugerem que a transformação das esperanças coletivas em recuperação e fortalecimento da economia requer o prosseguimento da queda da inflação, o mergulho dos juros e o avanço das mudanças estruturais, essenciais, respectivamente, à reconstituição do poder aquisitivo da população e à desindexação, à compressão do preço do crédito e à valorização dos ativos reais e ao restabelecimento do equilíbrio das contas públicas.

Exatamente por ter começado a cumprir a sua tarefa, o BC representa um reduto isolado de brilho e competência, no interior de um governo enfraquecido, envolvido, junto com expressiva camada do legislativo e das instâncias políticas subnacionais, em múltiplos escândalos de utilização de recursos de fontes duvidosas para a cobertura financeira de interesses eleitorais.

A autoridade monetária precisa também tomar iniciativas mais audaciosas na direção da diminuição do juro real, que se encontra em 6,4% a.a., contra 4,4%, em abril de 2016, e da irradiação do declínio da Selic para os demais canais e modalidades de crédito e financiamento ao consumo, giro dos negócios e investimentos. Sem dúvida, trata-se de uma batalha dura por envolver a amenização, ou preferencialmente a quebra, do poder de oligopólio exercido por quatro instituições financeiras (duas públicas e duas privadas nacionais) atuantes no País.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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