Banco Central e o arranhão na coordenação das expectativas

Gilmar Mendes Lourenço.

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), em reunião realizada em 16 de maio de 2018, de interromper a sequência de cortes na taxa Selic, iniciada em outubro 2016, mantendo-a em 6,50% ao ano, esteve ancorada em premissas centrada na necessidade de ajustes macroeconômicos derivada das mudanças de humor na economia global.

Mais precisamente, o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos (EUA), tem esboçado indicações de intensificação dos movimentos de elevação gradual das taxas de juros, em resposta à ameaça de escalada inflacionária, determinada pela subida dos preços do petróleo, motivada pela redução da produção da Arábia Saudita e ação do governo americano de rompimento do acordo nuclear com o Irã, que multiplica riscos de descontinuidade de suprimento do óleo.

Isso ensejou o evento de arrancada da revalorização do dólar que tende a ocasionar diminuição da oferta de moeda americana para garantir a captação de recursos pelos principais mercados emergentes, principalmente aqueles com pronunciada desorganização e gigantescos desequilíbrios nas contas públicas, agravados, no caso brasileiro, pelas incertezas acopladas às turbulências do cenário político e eleitoral.

Ainda que possa ser considerado pertinente, o diagnóstico de delineamento de reversão do cenário benigno, prevalecente desde 2010, em escala planetária, após o enfrentamento e superação da quebra do subprime nos EUA, não deveria ser empregado como justificativa para a aplicação de um autêntico golpe na coordenação das expectativas, pelo BC.

Na prática, a postura da autoridade monetária derrubou a quase unanimidade das apostas feitas pelos agentes dos meios financeiros, notadamente gestores de portfolios, acerca da decisão de nova diminuição da taxa para 6,25% a.a., ancorada na hipótese de conjugação entre continuidade do processo de desinflação e flagrante lentidão da retomada econômica, contida em mensagens e documentos emitidos pelo Banco e em entrevistas concedidas pelo próprio presidente da instituição.

No tocante ao comportamento da inflação, ao registrar variação de 2,76% em doze meses encerrados em abril de 2018, o índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA), calculado pelo IBGE, situa-se no menor nível desde 1998, quando subiu 1,6%.

Já o índice geral de preços-disponibilidade interna (IGP-DI), acompanhado por pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e que mistura atacado e varejo, experimentou acréscimo de 2,97%, em um ano, afetado, sobretudo, pelos impactos da depreciação do real sobre os itens importados. Ainda assim, representou o terceiro melhor desempenho desde os efeitos da crise internacional de fins da década pretérita, perdendo apenas para as deflações de -1,4 e -0,4% ocorridas em 2009 e 2017, respectivamente.

De seu turno, o motor dos níveis de atividade acusou giro de 1,05% em doze meses até março de 2018, de acordo com o índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br), configurando o vagaroso reerguimento da história, depois do declínio recorde, em intensidade e tempo, evidenciado pelo decréscimo de 8,5% do produto interno bruto (PIB) do país, entre abril de 2014 e março de 2017.

Estimativas do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos, da FGV, revelam que um ano depois da inversão da marcha recessiva, o volume de negócios realizados em território nacional estaria apenas 2,2% acima do fundo do poço atingido no último trimestre de 2016. Igual exercício de simulação permite apreender que, quatro trimestres após a superação da contração amargada em 1997, determinada pelos impactos da crise asiática, o aparelho de produção operava 4,2% acima do vale, constituindo, até então, a mais retardada saída de depressão por aqui.

De fato, a perversa concatenação de fatores adversos restringe dramaticamente as chances de viabilização do arranjo da expansão sustentada. Dentre as anomalias das peças da engrenagem da roda do crescimento emerge o elevado endividamento de famílias e corporações; o estratosférico custo e a escassa disponibilidade de crédito; as enormes margens de capacidade ociosa industrial, acumuladas no prolongado tempo de retração de demanda; a persistência de substanciais taxas de desemprego; e a precarização do mercado laboral, atestada pela participação de 85,0% da informalidade na geração das vagas líquidas entre abril de 2017 e março de 2018.

Igualmente nociva, a falência do estado e a subsequente perda de capacidade de empuxe do sistema; a paralisação da tramitação das reformas estruturais no congresso nacional; e a configuração da atmosfera de escolha do novo presidente em condições de polarização política, potencializam os aspectos inibidores do investimento privado. A título de ilustração, as inversões federais encurtaram 54,0% durante os dois anos de governo Temer, em comparação com a base já bastante comprimida da gestão Dilma.

Nessas circunstâncias, a atitude de neutralização da trajetória de flexibilização monetária, adotada pelo BC, serviu para arranhar os princípios de clareza, transparência e supressão de elementos-surpresa nas relações entre entidade e mercados, cuidadosamente plantados e cultivados, ao longo de dois anos, e assemelhar a presente gestão à antecessora, absolutamente descompromissada com a adequada condução das expectativas.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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