O caráter recessivo do ajuste econômico de 2015

Gilmar Mendes Lourenço
Gilmar Mendes Lourenço

É praticamente consensual, nos meios especializados, que a economia brasileira deve aprofundar, no ano de 2015, o processo recessivo em que mergulhou em 2014, em razão da combinação entre exacerbação da crise de confiança e impactos do pacote econômico, lançado pelo Ministério da Fazenda, ancorado essencialmente na expropriação dos rendimentos das famílias e dos recursos de caixa das empresas, por meio do aumento da tributação indireta e do fardo de juros.

Se forem confirmadas as projeções dos agentes de mercado, consultados pelo Banco Central (BC), o produto interno bruto (PIB) da nação encolherá mais de 0,5% no corrente ano, o que representará a maior contração em duas décadas e meia, superando a queda de 0,47%, apurada em 1992, e sendo vencida apenas pelo declínio de 4,35%, em 1990, influenciado decisivamente pelo confisco de ativos financeiros, promovido pelo governo Collor.

A dimensão do sacrifício doméstico tornou-se ainda maior a partir da recente disponibilização dos dados do setor externo e das contas públicas brasileiras. O desequilíbrio do País com o exterior atingiu US$ 90,4 bilhões, em doze meses até janeiro de 2015. É o segundo maior déficit da história – perdendo apenas para o ano fechado de 2014, quando o desnível foi de US$ 90,9 bilhões -, nesta base de referência, ou 4,17% do PIB, o mais elevado desde 2001, contra 1,7% do PIB, em 2008, não coberto pelo ingresso líquido de investimentos diretos estrangeiros (2,3% do PIB).

As contas públicas nominais (primárias mais os juros da dívida) experimentaram o maior rombo da história (R$ 344 bilhões), em 2014, ou 6,70% do PIB (o 4º pior entre 57 países pesquisados pela consultoria Economist Intelligence Unit), versus 3,25% do PIB, em 2013, fruto da mistura entre falhas de diagnóstico, falta de responsabilidade financeira e excesso de voluntarismo do executivo. No fechamento de janeiro de 2015, essa mesma variável totalizou déficit de R$ 330,4 bilhões em um ano, ou 6,42% do PIB.

No conceito primário, as finanças do governo saíram de saldo positivo de 3,8% do PIB, em 2008, para déficit de 0,64% do PIB, em 2014 (o primeiro desde 1997), mesmo com os malabarismos contábeis, contra superávit de 1,88% do PIB em 2013. Em janeiro de 2015, o déficit em 12 meses caiu para 0,61% do PIB. Isso significa que a administração pública (União, estados e municípios) gastou mais do que arrecadou, mesmo antes do pagamento dos encargos financeiros da dívida.

A par disso, o aparelho produtivo do País vem confirmando a trajetória de encolhimento pelo lado da oferta. As importações e a produção fabril recuaram 4,5% e 3,2%, respectivamente, em 2014. Foi o pior desempenho industrial desde 2009, quando do contágio da instabilidade global, refletindo a valorização do câmbio, a subida do custo médio da mão de obra, em função das variações dos salários reais superiores as da produtividade do trabalho, a tributação em cascata e a precariedade infraestrutural. A situação é bastante parecida pela ótica da demanda, com declínio de 1,7% nas vendas reais do comércio varejista, 7% nas exportações e 5% nos investimentos.

A propósito desse último item, levantamento preparado pela Associação da Indústria Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) revela retração real de 13,7% e 15% no faturamento bruto e no consumo aparente (produção mais importações menos vendas externas) do segmento de bens capital, respectivamente, em 2014. Já o grau de utilização da capacidade produtiva situava-se, em dezembro de 2014, abaixo de 70%, o pior número da série histórica.

Tais estatísticas traduzem a repressão das inversões em infraestrutura, especialmente em energia e transportes, a postergação de empreendimentos estratégicos, por conta da Copa do Mundo de Futebol e das inseguranças oriundas do evento eleitoral, e a praticamente paralisação do programa de concessões de serviços públicos à iniciativa privada.

Por esse prisma, é impossível deixar de enxergar um ponto de partida bastante dramático para o ajuste fiscal (que seria apenas o começo da reconstrução), principalmente se for considerada a impossibilidade de o governo contar com a ajuda das receitas extraordinárias, consubstanciadas nos dividendos das empresas públicas, como Petrobras e Eletrobrás, e nos aportes dos bancos oficiais. Sem adicionar os riscos de racionamento agregado de água e energia elétrica e os impactos das investigações da operação Lava Jato.

Por enquanto, as inclinações no sentido da redução de dispêndios limitaram-se à equivocada compressão dos recursos destinados à educação, às alterações de regras para supressão de frações de alguns benefícios sociais, notadamente seguro-desemprego, abono salarial, pensão por morte, auxilio doença e seguro-defeso (para pescadores artesanais), e a não autorização para novos empréstimos a estados e municípios.

Por certo, o conjunto de medidas em execução produzirá impactos negativos na demanda agregada, pelos canais do encarecimento do crédito para consumo, giro e investimento, da elevação da cunha da tributação, da subida das despesas de produção e distribuição e, por consequência, da instituição de focos de impulsão da inflação, agudizando também a endemia pelo lado da oferta de bens e serviços.

Outro incômodo é que não há exemplo, na história econômica mundial, de nação que tenha conseguido restabelecer o equilíbrio das finanças governamentais e restaurar os fundamentos para a expansão econômica sustentada, recorrendo apenas a vertente tributária, especialmente um país com a carga de impostos ultrapassando 37% do produto interno bruto (PIB), ante capacidade de suporte da sociedade estimada em 25% do PIB.

Não por acidente, a agência de classificação Moody’s promoveu, no final de fevereiro de 2015, o rebaixamento dos conceitos de crédito da Petrobrás, posicionando-a na linha especulativa, apesar dos acenos do Ministro Levy, no sentido de assegurar novos aportes do tesouro em socorro à estatal, desconsiderados pela agência. Com isso, a maior empresa brasileira passou a integrar o seleto terreno ocupado apenas pela PDVSA (Venezuela) e a YPF (Argentina), entre as petroleiras. A postura da companhia de rating foi atribuída às investigações sobre corrupção na estatal e às pressões sobre a liquidez da empresa, em consequência do retardo na divulgação dos resultados auditados do terceiro trimestre de 2014.

Em síntese, as iniciativas de ajuste fiscal em curso ignoram que – com o prosseguimento dos déficits comerciais, a retração estrutural da indústria, o emperramento do segmento de energia elétrica, o arrasamento do ramo de petróleo, por corrupção e equívocos de gestão, e a tão requerida retirada do garrote das tarifas públicas, mantido irresponsavelmente durante meia década -, o Brasil precisa superar não apenas um quadro de debilidade orçamentária e financeira de curto termo, mas uma atmosfera bastante pesada de compressão do potencial de expansão de longo prazo e de capacidade competitiva, em condições de consolidação das instituições e do regime democrático.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, professor e editor da Revista Vitrine da Conjuntura da FAE Centro Universitário.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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