A cigarra e a formiga: será que alguma delas vai sobreviver depois da crise?

Emanuele Caroline de Oliveira.
Emanuele Caroline de Oliveira.

O que mais tenho escutado de clientes de consultoria e de amigos é que a crise está terrível, que devemos nos preparar para o pior. Então já me vem na cabeça à velha fábula da formiga e a cigarra, sobre se precaver hoje para enfrentar tempos ruins.

A crise

A crise de que todo mundo fala é a provável recessão econômica com a queda do PIB neste ano, inflação estimada de 9,3%, mais que o dobro da meta de 4,5%, além da ameaça do Brasil perder o grau de investimentos, que é um selo de bom pagador que foi conquistado em 2008. Fora isso, os maiores escândalos de corrupção e de crise de confiança na gestão e o risco de impeachment da presidente.

Na crise, as empresas investem menos, vendem menos, compram menos, contratam menos ou diminuem o quadro de empregados, aumenta a inadimplência e muitas chegam à insolvência ou à recuperação judicial.

A cigarra e a formiga

A cigarra, sem pensar em guardar, a cantar passou o verão. Eis que chega o inverno, e então, sem provisão na despensa, como saída, ela pensa em recorrer a uma amiga: sua vizinha, a formiga, pedindo a ela, emprestado, algum grão, qualquer bocado, até o bom tempo voltar.

“Antes de agosto chegar, pode estar certa a senhora: pago com juros, sem mora.”
Obsequiosa, certamente, a formiga não seria.
“Que fizeste até outro dia?” perguntou à imprevidente.
“Eu cantava, sim, senhora, noite e dia, sem tristeza.”
“Tu cantavas? Que beleza! Muito bem: pois dança agora…”
LA FONTAINE, J. de. Fábulas de La Fontaine.

As cigarras

As cigarras de hoje em dia vivem como se não houvesse amanhã, acabam tendo um padrão de vida mais alto do que poderiam comportar e se tornam mais vulneráveis aos ciclos econômicos e se desesperam porque não estão preparadas para um gasto extra com algum problema de saúde, um conserto de carro, a troca de um eletrodoméstico que estraga. Isso sem falar que não fazem nenhum investimento que garanta uma maior tranquilidade na velhice.
Infelizmente a maioria das pessoas não gosta de se aprofundar nos assuntos financeiros porque acredita que é complicado, que dá muito trabalho, ou até mesmo porque acredita que sua situação é única e não pode ser realmente resolvida. Acabam se iludindo com alguma possibilidade de renda extra, uma herança, um milagre ou até mesmo ganhar na loteria.

O jeitinho brasileiro da cigarra faz com que acredite na capacidade de improvisação, de sair-se bem sem ter planejado nada. Criatividade é necessária, mas paga-se um alto custo pela aversão ao planejamento pagando altos juros e as cigarras acabam ficando cada vez mais dependentes do limite dos bancos, do cartão de crédito e de empréstimos diversos.

As formigas

As formigas têm consciência de que a primavera e o verão são o tempo de fartura, mas também de trabalho duro, tempo de poupar e de abastecer seus estoques de alimentos para os momentos difíceis. Já no outono e no inverno, elas descansam e se alimentam do trabalho que realizaram na primavera e no verão. Elas não se desesperam porque sabem que estas estações fazem parte do ciclo natural.

Para quem planeja, organiza, poupa e investe, em momentos de crise há muitas oportunidades surgindo.
Quem fez como as formigas nas últimas primaveras e verões, hoje está aproveitando o momento para investir e aumentar ainda mais sua renda. O preço dos imóveis tem caído e com a oferta maior que a procura, os preços tendem a diminuir ainda mais, sem contar o poder de barganha que o dinheiro pode proporcionar em uma negociação à vista.

A falta de equilíbrio

Não acho que existe uma vilã e uma mocinha nessa fábula porque se percebe uma falta de equilíbrio tanto na formiga quanto na cigarra. Fica a impressão que quem trabalha e planeja carrega um fardo com amargura e quem tem vida louca é feliz, mas perece no final.

A formiga provavelmente usufruiu do canto da cigarra enquanto trabalhava e já tinha percebido que a cigarra iria passar dificuldade no inverno. Não teve compaixão pela cigarra e, além disso, foi vingativa na recusa a ajudar do tipo “bobeou, dançou” ou “quem ri por último ri melhor”.

Já a cigarra, apesar de toda a felicidade em cantar de dia e de noite, comer as folhinhas que eram abundantes na primavera e verão, provavelmente achava a formiga tola de ficar só trabalhando e não acreditava que iria acontecer algo com ela. Só que quando começou a sentir dificuldades, como saída resolveu pedir empréstimo a juros à formiga.
Na nossa vida, dadas às devidas proporções, acontece o mesmo com a falta de equilíbrio e vamos nos tornando formigas pobres e doentes. No ritmo de vida que temos e pelo acúmulo de diversos papéis, não encontramos tempo nem disposição para refletir sobre aquilo que de fato traz significado para nossa vida. Vamos fazendo tudo no “piloto automático”, mesmo sentindo cansaço, indisposição e desmotivação, que com o tempo vai evoluindo para depressão, síndrome do pânico, problemas estomacais, impulsos de consumo, dente outras.

Vamos batalhando para cada vez ganhar mais, só que a euforia da conquista é passageira e traiçoeira, e conquistar mais coisas só nos deixa ainda mais engessados e escravos do trabalho no círculo vicioso do trabalha-gasta.

E qual a moral da história?

Assim como a natureza têm as quatro estações, primavera, verão, outono e inverno, a economia tem períodos de crescimento e desaceleração, então a certeza que devemos ter é que essa não é a primeira nem a última crise que vamos passar porque faz parte da natureza econômica.

Só que o pessimismo ou resignação não pode nos paralisar para as oportunidades de melhoria, seja na empresa, na igreja, na nossa casa e na nossa vida. É nesse momento em que devemos colocar uma lupa em todos os processos, rotinas, orçamento, repensar os nossos objetivos e aprender com os erros já cometidos. Quando nos forçamos a reanalisar, avaliar, ponderar e a nos superar, descobrimos que temos uma grande capacidade de adaptação e flexibilidade, e tudo isto contribui para que a mudança e o crescimento sejam menos doloridos.

Por meio de relações saudáveis e sem falsas expectativas que há menos motivos para o desespero, seja numa renegociação de prazo ou valor, numa parceria de fornecimento, num acordo coletivo com os empregados, numa redução do orçamento doméstico, numa demissão ou na prorrogação do início de uma faculdade e especialização.
Deixar de seguir um caminho não é abandoná-lo, e retroceder não é sinal de fracasso. É apenas fazer uma escolha por aquilo, que naquele momento pode nos fazer mais feliz ou nos dá maior segurança e paz.

A força das formigas não está só em guardar os mantimentos para os momentos difíceis, elas são insetos sociais que vivem em uma comunidade onde uma depende da outra e se protegem mutuamente porque sabem que somente juntas, terão chances de sobreviver ao inverno.

Também devemos aprender com a cigarra, a celebrar o presente, vivendo um dia de cada vez, tendo prazer e alegria nas pequenas coisas da vida. O trabalho não pode ser um fardo, tem que haver vocação e prazer em trabalhar, bem como usufruir do dinheiro que é fruto desse trabalho.

Um bom planejamento financeiro, seja na vida pessoal ou nas empresas, nos dará mais confiança para viver o presente sem esquecer o futuro, amortecendo as possíveis quedas que poderemos ter ao longo do percurso. A vida jamais nos tira o direito ao lazer, desde que sejamos bons administradores do tempo e dos recursos de que dispomos.

E para você, o mais importante é o que fizeste até outro dia?, Ou o que vai fazer daqui para frente?

O artigo foi escrito por Emanuele Caroline de Oliveira, Administradora de Empresas com habilitação em Finanças, registrada junto ao CRA/PR, especialista em Planejamento e Gerenciamento Estratégico e com MBA em Gerenciamento de Projetos. É sócia-diretora e fundadora da ValuConcept Consultoria e Avaliações, do grupo RSM Brasil, responsável pela área de Avaliações de Ativos e de Consultoria de Gestão.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Um comentário em “A cigarra e a formiga: será que alguma delas vai sobreviver depois da crise?

  1. Excelente sua colocação Emanuele, somos uma corrente, necessitamos uns dos outros e se a crise é geral temos que mais uma vez nos adaptar a ela , independente da situação e condição.

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