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A inovação e o regime capitalista

Marcelo Gasparim
Marcelo Gasparim

Criamos o nosso mundo de acordo com o nosso conhecimento pessoal. Em 1772, quatro anos antes da independência dos Estados Unidos, somente 4% da população da Terra eram de homens “livres”. Os outros 96% trabalhavam como escravos, servos, aprendizes ou vassalos. No século VI a.C o estadista ateniense Sólon observava que: “muitos homens maus são ricos e muitos homens bons são pobres”. Confúcio dizia que a caça ao lucro é rica em ódio. A bíblia hebraica afirma que o amor pelo dinheiro é a raiz de todo mal. O evangelho cristão de Mateus declara que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha de que um rico entrar no reino de Deus. Durante bem mais que mil anos, muito depois da idade media, a maioria das grandes religiões proibia o empréstimo de dinheiro a juros.

Até o século XVII, sabedoria e conhecimento eram irmãos siameses. Existiam intimamente ligados e um não podia viver sem o outro. Acreditava-se que o aumento do conhecimento serviria ao desenvolvimento da sabedoria e vice-versa. [Conhecimento – curiosidade sobre a natureza e sabedoria – curiosidade sobre o sentido da vida].
Atualmente o pensamento filosófico passou a se interessar cada vez mais pela busca do conhecimento. Reconciliar ciência e filosofia pode ser um catalisador para a cultura da inovação. A mistura de ciências e conceitos, sem preconceitos, é fundamental para o processo de criação e desenvolvimento de idéias que não necessariamente serão inovadoras ou originais.

A maioria dos princípios econômicos, inclusive e mais fortemente o regime capitalista, prega o equilíbrio. Conscientemente ou não, a maioria das pessoas, ainda hoje, encara seus empregos como se fosse propriedade pessoal. Assim, podemos dizer que a história não é incentivadora da inovação.

A nossa mente

Com todos esses valores e conceitos pregados durante décadas não era de se esperar que o ser humano de uma hora para a outra transformasse a sua mente num silo de ideias e pensamentos revolucionários. Esse processo precisa de estímulos e tempo para desenvolvimento. A verdade não é absoluta, cientistas não trabalham com a verdade. Especular é um ingrediente importante nessa receita. A habilidade de pensar em circunstâncias torna você competente porque a coisa certa depende das circunstâncias de cada caso.

A inovação exige desequilíbrio, crédito e ócio. O novo poderá ser considerado um ato de agressão. Consequentemente, são as primeiras barreiras, resistências e incertezas relativas ao estimulo de fazer diferente o que foi feito antes. Naturalmente, considerando o nosso modelo mental lapidado durante varias gerações, a inovação é desencorajada e desestimulada pelos seus riscos e pelo sentimento de preservar a propriedade. Os líderes empreendedores superam esses obstáculos.

Motivação

A origem das grandes expansões é fruto, invariavelmente, das inovações em indústrias especificas que se ramificam para outras áreas da economia e da própria cadeia produtiva. Estão fundadas na iniciativa individual garantida pela segurança dos direitos e da liberdade que sistema oferece. Os dois principais pilares que sustentam todos os sistemas bem-sucedidos de negócios são o conceito de propriedade privada e uma estrutura que garanta o cumprimento da lei.

Há um mito de que a pessoa só se torna empreendedora quando já dispõe de dinheiro suficiente para abrir uma empresa. O que se constata é que as empresas quase sempre começam com um trabalhador “normal”, alguém dotado de visão e da determinação necessária para torná-la realidade. Essa teoria resultou na expressão: “Do macacão ao macacão em três gerações”.

Por exemplo, logo após a Ford iniciar a produção do Ford T em 1902, nos subsequentes cinco anos, 322 empresas surgiram e entraram direta ou indiretamente no negócio. Outra motivação é a aparente abundancia de matéria prima e recursos. Muitos modelos considerados temporariamente como de sucesso ruíram sentados sobre verdadeiras minas de oportunidades. A utilização e a busca pela eficiência dos recursos é que propulsiona, pereniza e multiplica o negócio.

As empresas e os negócios inovadores não surgem regularmente na economia. Pelo contrario, aparecem em grupos, logo depois de algum grande avanço organizacional ou tecnológico em determinado setor industrial, seja nessa mesma indústria ou em outros setores a ele ligados.

A sociedade é resistente a inovações, pois as novas idéias tendem a se opor aos princípios e métodos em vigor, logo, essa concorrência fará com que alguém, em um determinado período, ganhe ou perca. Todo o lucro, todo o dinheiro novo, gerado através da inovação será temporário. Os concorrentes copiarão a inovação. Só escaparão aquelas protegidas por monopólio. As patentes são um recurso de garantia e sustentação ao longo do tempo para o lucro gerado pelo processo inovatório. A propaganda poderá ser considerada um ato de agressão contra os concorrentes efetivos. Assim a inclusão de uma nova empresa, um novo negócio, criará uma guerra contra um mercado “velho” que tenta proibir, desacreditar ou restringir de alguma forma a suposta vantagem criada por um processo inovador.

O principal protagonista é o empreendedor e seu necessário cúmplice e companheiro o “Lucro”. O empreendedor nas grandes empresas, com frequência, não só inova como se incumbe da gestão do dia-a-dia. Em qualquer inovação o empreendedor pode, mas não precisa ser o fornecedor do capital. Nesse aspecto o capitalismo é o único sistema que permite a alguém tornar-se empreendedor antes mesmo de dispor de capital para abrir uma empresa. Muitas vezes, quando não se atinge o esperado, nessa condição, ele perde dinheiro dos outros.

Além de inovar na produção empreendedora, é necessário, frequentemente, mudar os hábitos de consumo. Não basta produzir algo satisfatório, também e necessário induzir as pessoas. A propaganda muitas vezes é inadequadamente valorizada.

Muitas inovações também são criadas motivadas por restrições do tipo leis governamentais, crises, escassez. A necessidade pode ser a mãe da invenção, mas não produz automaticamente inovação.
O excesso de impostos, taxações, burocracias internas e indefinições de papeis e responsabilidades reduzem e intimidam a inovação. Empreendedores frequentemente migram para mercados com complicações menores.  As inovações são mais importantes que as invenções.

Joseph Schumpeter, nascido na então Tchecoslováquia e com passagens pela Áustria, Alemanha e EUA, viveu 66 anos, desde o final do século 19 até 1950. É dele o princípio chamado de inovação e destruição criativa. Defendeu fortemente a geração e disponibilidade de créditos voltados a inovações. Economista de formação utilizava em suas análises associações matemáticas e ciências sociais.
Já o engenheiro Genrich Altshuller, um russo nascido em Tashkent no Uzbek em 1926, que viveu até 1998, desenvolveu como sua principal obra a “Theory of Inventive Problem Solving”, batizada de TRIZ.

O caráter filosófico da TRIZ consiste nos seguintes fundamentos:

a) Idealidade e o objeto: o principio é baseado na compreensão entre a diferença entre uma idéia e o seu enunciado verbal. Naturalmente, para cada individuo, toda essa analise é baseada em conceitos pré-definidos e cultivada na mente de cada um, o que pode tornar a análise enganosa, viciada. Eliminar do pensamento o elemento material é que diferencia o resultado.

b) Contradição, ou Lei da unidade dos contrários: a causa fundamental do desenvolvimento dos fenômenos não é externa, mas interna, ela reside no contraditório do interior dos próprios fenômenos. No interior de todo o fenômeno há contradições, daí o seu movimento e desenvolvimento. Por exemplo: o próprio movimento é uma contradição. Na matemática o + e o -, a relação diferencial e integral. Na mecânica a ação e a reação. Na química a combinação e dissociação de átomos. A contradição entre as forças produtivas e as relações de produção, a contradição entre as classes e entre o novo e o velho. É o desenvolvimento dessas contradições que faz avançar a sociedade e determina a substituição da velha sociedade por uma nova. Os diversos povos agem constantemente uns sobre os outros. Na época do capitalismo, sobretudo na época do imperialismo e das revoluções proletárias, a ação e os efeitos dos diferentes países, agindo uns sobre os outros nos domínios da política, da economia e da cultura, são enormes. Diferenças não são contradições. A contradição é a lei fundamental do pensamento.

c) Recursos: resolver o problema utilizando o próprio problema como matéria-prima, identificando e usando ativamente elementos da própria situação problemática para resolvê-lo.

d) Sistemática: a idéia de enxergar dentro de um contexto que envolve tempo, espaço e interações. Os humanos sempre sentiram necessidade de agrupar os organismos na natureza, a fim de compreender a diversidade biológica e facilitar seu estudo.

e) Funcionalidade: enxergar o início, o meio e o fim. Os adultos não darão atenção a situações onde não enxergarem utilidade e aplicação pratica. Consiste na construção de um modelo com elementos concretos dentro das situações problema com métodos para a condução das soluções, algo passível de execução.

Para a grande maioria dos negócios não é possível operacionalizar e departamentalizar inovação. Não dá para colocar um monte de gente numa sala e dizer: pronto, agora vamos criar. Contudo é possível segmentar, incentivar e cultivar esse processo dentro de uma organização considerando uma divisão em ferramenta, método e estratégia. Independente da posição em que o individuo se encontra no processo, com um grau de complexidade maior ou menor ele utilizara essa divisão no seu dia-a-dia. O grau de desejo de inovar será diferente para cada situação.
Para a ferramenta os executores pensam em tempo, praticidade, ergonomia e segurança. Nesse caso o conhecimento e o resultado da tarefa têm alto valor. Para o método o desejo de sabedoria é maior ao mesmo tempo em que se espera uma amplitude e maturidade maior processo. Entender as fronteiras, as interfaces e interações com outras ferramentas e até outros processos são fundamentais para o sucesso da análise crítica e inovadora. Para estratégia é esperado dos executores a visão e o planejamento do negócio atual e futuro.
Já a dimensão estratégia, dentro de um processo inovatório, exigirá um grau de interpretação e sabedoria muito mais desenvolvido e apurado. A interação entre negócios e a amplitude das fronteiras é a principal matéria prima para a criação. A disponibilidade e geração de credito podem ser introduzidas de maneira sutil e indireta até imperceptíveis.
Para cada um desses níveis é necessário um grau de leitura diferente e complexo. Quanto mais se consolida, mais uma inovação perde o caráter de inovação e mais começa a seguir impulsos, em vez de dá-los. É o sinal de perigo!
Outra forma de incentivar a operacionalização de um processo inovador é através da busca contínua pela otimização e evolução de rendimentos. Essa é a melhor forma de justificar economicamente um eventual investimento.
Aumentar a eficiência, baixar custos, baixar preços, aumentar volume de vendas para criar e aumentar a cadeia e dependência é o ciclo sustentável da inovação.

Para escrever este artigo foram pesquisados como referências: Systematic Innovation: Introduction to Triz (Theory of Inventive Problem Solving) – John Terninko, Alla and Zusman, Boris Zlotin – Editora St. Lucie Press – 1998.
O Profeta da Inovação – Joseph Schumpeter e a Destruição Criativa –  Thomas K. McCraw – Tradução Clóvis Marques – Editora Record – 2012.
O livro das Revelações – Estão acontecendo coisas que você precisa saber e ninguém ainda contou – Eduardo Castor Borgonovi – São Paulo – Editora Alegro, 2000.

O artigo foi escrito por Marcelo Gasparin, gerente de Produção da Linha de Fibras da Klabin. É graduado em Administração com especializações em Tecnologia da Energia, Tecnologia de Fabricação de Celulose e também Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.

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Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
https://www.miriangasparin.com.br

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