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Do pleno emprego ao desemprego

Gilmar Mendes Lourenço.
Gilmar Mendes Lourenço.

As estatísticas e indicadores do mercado de trabalho brasileiro vem revelando rápida e acentuada deterioração das variáveis emprego e salários, em resposta à combinação entre a implementação de uma política macroeconômica extremamente conservadora, pelo Ministério da Fazenda e o Banco Central, e o definhamento da confiança dos agentes sociais no futuro do País, associado à constatação de estelionato eleitoral, praticado em 2014, e das progressivas demonstrações de fraqueza, desarticulação e desmoralização, emitidas pelas autoridades do executivo e do legislativo.

É curioso notar que, em pouco mais de meio ano, a nação abandonou a condição de pleno emprego do fator trabalho, ou do apagão de mão de obra, ao menos no marketing subjacente às mensagens da campanha à reeleição do ano passado, e assumiu a situação de progressiva ascensão da desocupação e queda do rendimento real do contingente ocupado, sem incluir os regimes de férias coletivas e lay-offs, adotados pelas empresas.

Conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 3.500 municípios, a taxa de desemprego saltou de 6,8% da população economicamente ativa (PEA), entre abril e junho de 2014, para 8,3% da PEA, no segundo trimestre de 2015, a maior da série histórica iniciada em 2012. Já a remuneração média real habitual subiu 1,4%, em igual intervalo, passando de R$ 1.855,0 para R$ 1.882,0, mas caiu -0,5% em relação ao primeiro trimestre de 2015 (R$ 1.892,0).

De acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), igualmente do IBGE, em seis regiões metropolitanas (Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre), a desocupação alcançou 7,5% da população economicamente ativa (PEA), em julho de 2015, contra 6,9% da PEA, em junho, e 4,9% da PEA, em junho de 2014. Enquanto isso, o rendimento médio real caiu -2,4%, em julho de 2015, em comparação com o mesmo mês de 2014, passando de R$ 2.224,0 para R$ 2.171,0.

Já no chão de fábrica, o panorama não tem se mostrado menos dramático. A Pesquisa Industrial Mensal de Emprego e Salário (Pimes), também do IBGE, apontou decréscimo do emprego e das horas trabalhadas na indústria de -5,2% e -5,8%, respectivamente, no primeiro semestre de 2015, praticamente igualando o desempenho contabilizado em 2009, tempos dos efeitos da crise financeira internacional no ambiente doméstico.

Dois aspectos ressaltam das inferências dessa investigação do IBGE. O primeiro deles é que os 18 ramos industriais acompanhados exibiram declínio nos patamares de ocupação de mão de obra. O segundo ponto repousa na queda de -1,0% do salário médio real do trabalhador, o primeiro resultado negativo apurado desde 2003 (-3,6%), quando, o presidente Lula, abandonou a proposta petista, exposta na campanha de 2002, e intensificou a estratégia ortodoxa levada a cabo entre 1999 e 2002 e batizada de herança maldita.

Por último, mas não menos importante, as estatísticas do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) apontaram fechamento líquido de 158 mil postos de trabalho com carteira assinada, em julho de 2015, sendo a pior performance para o mês desde 1992, quando a população clamava pelo impeachment do presidente Fernando Collor.

Entre janeiro e julho de 2015 foram eliminados mais de 494 mil vagas, a pior marca desde 2002, época do chamado risco Lula, vinculado à possibilidade de vitória eleitoral de uma plataforma supostamente intervencionista. O maior volume de desligamentos aconteceu na indústria de transformação (-227 mil postos), comércio (-214 mil) e construção civil (-155 mil). Porém, até o setor de serviços, termômetro da evolução da renda e do nível de ocupação, demitiu quase 12 mil pessoas.

Não se trata como querem fazer transparecer as autoridades, de uma instabilidade setorial, culpa da combinação entre pessimismo, intolerância e contágio da instabilidade global, que permanece presente nas mentes palacianas, apesar do incremento superior a 3% ao ano do comércio mundial, no triênio 2013-2015. É prudente entender que em economia não existe milagre, que representa, essencialmente, efeito sem causa.
Logo, a fragilização da dinâmica de ocupações no Brasil pode ser explicada de um jeito extremamente simples, sem mistérios, ainda que perverso. Mais precisamente, a contínua retração do consumo das famílias, dos investimentos públicos e privados, dos dispêndios correntes do governo, das exportações e das importações, plantada desde 2011, com o advento do improviso no espetáculo da gestão econômica, estaria na raiz do naufrágio dos níveis de emprego e de renda do trabalho, delineada no País, a partir do segundo trimestre de 2014, e magnificada pelos impasses políticos.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, professor e editor da Revista Vitrine da Conjuntura da FAE Business School.

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Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
https://www.miriangasparin.com.br

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