Ciclo de liquidações e incertezas econômicas

Gilmar Mendes Lourenço.
Gilmar Mendes Lourenço.

O receituário apropriado pela análise conjuntural costuma recomendar o fracionamento dos tempos dos exercícios econômicos, que normalmente correspondem ao ano civil, conforme as características estacionais de comportamentos dos diferentes ramos e os sinais e a direção do ambiente de negócios.

Por essa ordem de interpretação, o primeiro trimestre é costumeiramente marcado pela desova de estoques e/ou aumento da produção do setor industrial, por conta da necessidade de suprimento das encomendas realizadas pelo comércio, sobretudo varejista, visando à recomposição técnica da cesta de produtos comercializada durante o período de celebrações de Natal e Ano Novo.

Lembre-se aqui que a movimentação do intervalo abril-junho é ligada ao comércio da Páscoa e Dia das Mães, enquanto o curso julho-setembro é determinado pela impulsão da indústria, para atendimento dos pedidos dos estabelecimentos varejistas como garantia do abastecimento da demanda do último trimestre.

Não é necessário ser um arguto observador da atmosfera de transações brasileira para constatar que, mais uma vez, a postura dos segmentos fabris e de vendas vem derrubando o padrão convencional de sazonalidade e englobando até as escolhas de fechamento de unidades comerciais e industriais.

É fácil perceber a intensificação do quadro de contração dos níveis de atividade da produção manufatureira, e a subsequente acumulação de estoques indesejáveis, com desdobramentos negativos na massa de salários, evidenciados pela multiplicação das demissões e redução dos rendimentos reais (montantes nominais descontados da inflação).

Isso porque, em vez de encaminhar volumes expressivos de pedidos à indústria, para preenchimento das prateleiras, gondolas e lojas, o comércio vem se empenhando em efetuar liquidações, de razoável magnitude, para desencalhar as mercadorias sobrantes das festas de fim de ano e materializar parcela do capital de giro exigido para o prosseguimento, ainda que precário, das operações.

O elemento parcialmente compensatório da situação depressiva, neste princípio de 2016, e provavelmente no restante do ano, repousa no dinamismo do agronegócio, beneficiado por nova safra recorde, associada a contínuos ganhos de produtividade e à ausência de intempéries climáticas e à depreciação estrutural do real, que, o governo busca, ferrenhamente, evitar.

Porém, no geral, prevalecem as condições de proliferação de inconsistências da estratégia macroeconômica (se é que ela existe) implementada no País, somada ao imbróglio político, centrado, rigorosamente, na perda de funcionalidade e articulação entre as principais instituições da República, e ao interminável garimpo de casos de desvios de polpudas quantias de haveres públicos para o financiamento de campanhas eleitorais.

Tais distorções tem provocado exacerbação do ceticismo, incertezas e inseguranças dos agentes sociais em relação ao futuro, o que vem sacrificando as decisões de consumo das famílias e provocando o engavetamento dos projetos de investimentos das corporações. Mais que isso, esforços de sobrevivência presente e trabalhos de feitura de cenários têm sido ofuscados e prejudicados por sucessivas ondas de disponibilização de indicadores correntes e antecedentes, preparadas por instâncias públicas e privadas.

As estatísticas levantadas propiciam a confirmação da exaustão do boom de consumo (público e privado), vivido pela nação entre 2004 e 2013, e amparado em bases macroeconômicas extremamente frágeis, e, o que é pior, o esquadrejamento do fenômeno conhecido como estagflação. Este é resultado da persistência da espiral inflacionária acima de 10% ao ano, a despeito do registro da maior e mais longa recessão da história, com queda acumulada de mais de 9% do produto interno bruto (PIB), entre abril de 2014 e dezembro de 2016.

Há uma flagrante degradação das variáveis relativas ao comportamento do mercado de trabalho. As taxas de desemprego, mensuradas a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), chegaram a 9% da população economicamente ativa (PEA), no trimestre agosto-outubro de 2015, contra 6,6% da PEA, em idêntico período de 2015, atestando a existência de um contingente de 9,1 milhões de pessoas sem ocupação e na busca de emprego. Enquanto isso, o rendimento médio habitual mensal acusou decréscimo de -1,0%, em igual base de comparação, encolhendo de R$ 1.914,0 para R$ 1.895,0.

Ainda segundo o IBGE, o volume de vendas do comércio varejista e a receita real (depois de subtraída a inflação) dos serviços exibiram recuos acima de – 8% e -3%, respectivamente, em 2015. Na mesma linha, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o emprego e a massa salarial real do setor diminuíram mais de 6,0% em 2015.

Não por acidente, mais de 60% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, que comprometem sete meses dos fluxos de renda domésticos; 23% estão com as contas atrasadas em média até 60 dias; e 9% não sabem como conseguirão quitar os débitos contraídos. Além disso, quase 80% dos passivos residem nos cartões de crédito que, no rotativo, cobram encargos superiores a 400% a.a.

O rompimento deste círculo vicioso requereria o desencadeamento de ações audaciosas do executivo federal, em duas frentes. A primeira delas consistiria na efetiva perseguição do ajuste fiscal, depois do retumbante fracasso de 2015, limitando-se a incursões voltadas ao aumento dos impostos e à compressão dos gastos com investimentos, sem qualquer aceno de racionalização dos dispêndios correntes e diminuição da cunha financeira incidente sobre a dívida pública e a corrente produtiva.

A segunda vertente de iniciativas abarcaria a negociação política de uma agenda de reformas estruturais, capaz de assegurar, de maneira perene, a alocação mais eficiente dos recursos governamentais e privados e a amenização das pressões inflacionárias provenientes dos desequilíbrios fiscais e financeiros dos orçamentos públicos e de manipulações populistas – revestidas de pronunciados apelos eleitorais e disfarces progressistas – na trajetória de preços âncoras, como câmbio e tarifas.

Trata-se de tarefas complexas, fortemente dependentes do desembaraço do nó político e do anúncio transparente e minucioso dos rumos e evolução da gestão da estabilização. Por enquanto, predomina um absoluto vazio arcabouço macro e poder, determinado pelas inquietações quanto ao retrato provável (impeachment, renúncia ou permanência da presidente até 2018).

Nesse contexto, como a prioridade visível da atual administração representa o afastamento do risco de impedimento da mandatária do País, os mercados avaliaram o episódio de mudança do ministro da Fazenda como a troca do jogador de futebol contundido pelo gandula, o que é desalentador.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, Economista, Consultor e Professor da FAE Business School.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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