A regionalização da recessão industrial

Gilmar Mendes Lourenço.
Gilmar Mendes Lourenço.

Os dados relativos à evolução da produção industrial brasileira, no primeiro quadrimestre de 2016, acompanhados por pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirmam o agravamento da crise no setor fabril, iniciada em meados de 2014, como reflexo da retração da demanda externa e, principalmente, do abandono, por parte do governo federal, da tarefa de adoção e monitoramento de uma política econômica direcionada à recuperação e preservação do ambiente de negócios, no front doméstico.

O volume de produção das atividades industriais instaladas no País declinou -10,5% entre janeiro e abril de 2016, quando comparado com igual intervalo de 2015, quando foi registrada queda de -6,1%. No segundo e terceiro quarto de 2015, os abalos foram de -7,0% e –11,5%. Trata-se das piores performances constatadas pela série histórica de investigação, nesta base de cotejo, com retração generalizada puxada por bens de consumo duráveis (-26,5%), por conta da deterioração do mercado de trabalho e de crédito e dos fluxos de renda e das condições de endividamento das famílias.

Outro decréscimo expressivo aconteceu em bens de capital (-25,9%), associado a fatores objetivos como o encolhimento da demanda e à escassez e encarecimento dos financiamentos para investimentos, e a elementos atrelados à exacerbação das expectativas negativas dos agentes sociais em relação ao futuro, derivada da mistura entre instabilidade econômica e política.

A rota cadente verificada nessas duas categorias, somada aos escândalos de corrupção envolvendo várias empresas da área de insumos básicos e matérias primas, capitaneadas pela estatal de petróleo, empurraram para o pântano recessivo a fabricação de bens intermediários (-9,6%).

Nem mesmo a classe de bens de consumo não duráveis e semiduráveis, menos sensível à atmosfera de turbulência por dedicar-se ao suprimento da procura vinculada à massa salarial, conseguiu escapar do colapso produtivo, acusando recuo de -2,8%, em razão da redução da capacidade de compra da população, com a escalada do desemprego, inflação e inadimplência.

Ao mesmo tempo, é fácil perceber que o cenário depressivo é praticamente generalizado regionalmente, atingindo onze, de um grupo de quatorze, unidades federativas, em especial aquelas detentoras de matrizes industriais consideradas avançadas e diversificadas. Mais precisamente, os complexos de transformação operantes no Espírito Santo (-22,3%), Pernambuco (-22,1%), Amazonas (-21,7%), São Paulo (-11,0%), Minas Gerais (-10,1%), Rio de Janeiro (-9,9%), Paraná e Goiás (-8,4%), Santa Catarina (-8,0%) e Rio Grande do Sul (-6,9%), comandaram o movimento ladeira abaixo do setor.

As três exceções ao desempenho ruim foram Pará (10,1%), Mato Grosso (5,3%) e Bahia (2,4%). No Pará, a subida está diretamente relacionada ao comportamento positivo de três, entre sete ramos, concentrados na extração e beneficiamento de minério de ferro, alumínio e celulose, em resposta ao moderado, porém generalizado, reerguimento da economia global.

O acréscimo da produção de Mato Grosso, apurado em três de seis divisões, possui raízes na recuperação do agronegócio (carne bovina, complexo soja e adubos e fertilizantes) e bebidas. Já a ascensão da Bahia (três segmentos de seis) tem laços com o processamento de petróleo (gasolina e diesel) e metalurgia do ferro.

Como se vê, não há lugar para ilhas de dinamismo na conjuntura contracionista brasileira. Apenas três estados menos expressivos exibiram expansão pontual, ancorada em atividades de menor densidade tecnológica ou agregação de valor, incapazes de compensar o autêntico definhamento das firmas industriais, atestado pela diminuição da participação do setor de transformação na formação da renda interna da nação de 17,8%, em 2004, para 11,4%, em 2015.

A virada desse jogo depende da renovação da capacidade de formulação de uma política industrial de longo prazo, definidora de ganhadores e perdedores diretos de uma nova etapa de crescimento. A redução das taxas de juros constitui um excelente começo. Se, para que isso aconteça, é necessário o ajuste fiscal, que este seja feito o mais rápido possível. Basta desejo político e bastante audácia.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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