Prudência na interpretação das estatísticas econômicas

Meios especializados e formadores de opinião vêm demonstrando flagrante precipitação na interpretação das estatísticas e indicadores econômicos, ancorada na produção de mensagens exageradamente otimistas acerca do cenário de curto prazo da economia nacional, contaminadas pelo indisfarçável desejo de fim da recessão e início da recuperação dos negócios.
De fato, a cesta de dados preliminares, relativa ao segundo trimestre de 2017, permite o diagnóstico de que performance dos níveis de atividade teria superado as expectativas, constituídas predominantemente pelas apostas negativas associadas à intensificação da instabilidade política – deflagrada com o vazamento, em 17 de maio, do diálogo, às escondidas, acontecido entre o dirigente do grupo JBS, Joesley Batista, e o presidente da república, no Palácio do Jaburu – e a economia do País estaria bafejada por um estágio de reativação e descolada das turbulências brotadas de Brasília.
Na visão dos mercados, a gravidade dos indícios de corrupção passiva, contidos no episódio envolvendo o chefe de estado e aquele empresário, e denunciados pela Procuradoria Geral da República (PGR), carregava fortes chances de acarretar perda de controle da orientação macroeconômica, retorno da situação de contração da produção e do emprego e, por extensão, reversão da tendência de recuperação da confiança dos agentes, esboçada desde o começo do ano.
Mas os prognósticos de aborto da inversão da situação recessiva não se confirmaram por conta da combinação de dois fatores. De um lado, emergiu o panorama virtuoso da economia global, marcado por reação generalizada, embora moderada, potencializado, no plano doméstico, pela desinflação, ainda fortemente determinada pela depressão da demanda, e o ciclo de corte dos juros primários, promovido pelo Banco Central (BC), que caíram de 14,25% ao ano, em outubro de 2016, para 9,25% a.a., em julho de 2017, e representaram razoável alívio ao endividamento de famílias e empresas.
De outro extremo, surgiu a influência do acentuado conservadorismo implícito nas decisões do judiciário e legislativo, supostamente centrado na preservação da estabilidade institucional, retratado na absolvição, em junho de 2017, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), da chapa Dilma-Temer, da acusação de abuso de poder econômico na campanha eleitoral de 2014, e no arquivamento, em agosto de 2017, pela câmara dos deputados, da denúncia da PGR antes referida.
Nessas condições, as principais variáveis explicativas da evolução do cotidiano econômico mantiveram comportamento ascendente, entre abril e junho de 2017, ainda que em ritmo inferior ao registrado no intervalo janeiro-março, amparado nos efeitos irradiadores do agronegócio exportador, à montante (insumos, máquinas, equipamento e veículos) e à jusante (comércio e serviços), e na utilização das enormes margens de ociosidade, acumuladas durante a fase de retração, com duração de cerca de três anos.
Mais precisamente, o índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br), prévia do produto interno bruto (PIB), cresceu 1,21% e 0,25%, no primeiro e segundo trimestre do ano, respectivamente, contra os três meses imediatamente anteriores. Por essa mesma referência de cotejo, o volume de serviços prestados variou -0,3% e 0,3%, respectivamente. Já a produção industrial aumentou 1,0% e 0,2%, nos dois trimestres iniciais de 2017, em relação aos lapsos de tempo do ano anterior.
No entanto, os detentores do poder de análise e comunicação, mergulhados em apreciações parciais e superficiais e equívocos conceituais, têm negligenciado a natureza frágil da suposta reação das transações, sustentada em elementos de fôlego curto, que careceriam de substituição por vigas mestras fincadas na estrutura do ajuste fiscal de longo prazo, dependente da ação de um congresso nacional preocupado apenas com o erguimento de barricadas contra os ataques da Lava Jato e a perpetuação no poder.
Em não poucos casos, os holofotes permitem a observação de verdadeiros ilusionistas, encarregados da omissão de fatos relevantes, como a diminuição, no primeiro semestre de 2017, de -0,11% do IBC-Br e de -4,1% nos serviços (-4,7%, no primeiro trimestre, e -3,6%, no segundo, frente a idêntico período de 2016), segmento responsável por 73,3% do PIB.
Outra postura distorcida compreende o destaque dedicado à subida da confiança do empresário industrial, constatada no mês de agosto, pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), depois das quedas acontecidas em junho e julho, e a omissão da regressão das perspectivas de consumo, mensurada pela Confederação nacional do Comércio (CNC), também para o mês de agosto, após quatro altas seguidas, retornado aos níveis de março de 2017.
Considerando que as despesas de consumo das famílias representam 64,0% do PIB, em circunstâncias de apreciáveis patamares de desemprego, endividamento e inadimplência, seria no mínimo ingênuo desprezar a evidência de que, após a liberação do internamento da unidade de terapia intensiva, imposto pela recessão, o organismo econômico brasileiro requererá razoável tempo de internamento e acompanhamento especializado, até conquistar a plena recuperação, preferencialmente distante dos olhares dos doutores da política, empenhados na viabilização do deslocamento de R$ 3,6 bilhões de reais dos cofres do tesouro nacional para a cobertura financeira do evento eleitoral de 2018.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.




