Brasil: saída da recessão e entrada na estagnação

Gilmar Mendes Lourenço.

O crescimento de 0,2% do produto interno bruto (PIB) brasileiro, no segundo trimestre de 2016, em relação aos três meses imediatamente anteriores, e de 0,3%, em comparação com o mesmo período de 2016, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), serve para decretar, do ponto de vista estatístico, a eliminação, mesmo que temporária, da recessão que atingiu a economia do País por três anos ininterruptos.

A base de cotejo adequada para efeito de avaliação de ingresso e saída de estágios de contração dos níveis de atividade é o trimestre correspondente do ano antecedente. Por essa ordem de apreciação, a expansão esteve ancorada setorialmente na agropecuária (14,9%) e no comércio (0,9%).

A safra recorde de grãos, estimada em 242,1 milhões de toneladas, representando acréscimo de 31,1% frente à quantidade colhida em 2016, maximizada pela reação das cotações das commodities alimentares no mercado internacional; a discreta recuperação do mercado de trabalho, puxada pela ampliação da informalidade; e a acentuada queda da inflação, explicam a subida do principal agregado macroeconômico.

Pelo ângulo da demanda final, as exportações avançaram 2,5%, em virtude, fundamentalmente, do prosseguimento generalizado da expansão da economia global. Já o consumo das famílias, que equivale a 64% do PIB, revigorado pela menor erosão orçamentária, ensejada pela desinflação; a paulatina diminuição do desemprego e, principalmente, do endividamento, atrelada ao declínio dos juros, embora em lenta velocidade; e a utilização de parte dos recursos liberados das contas inativas do FGTS para a quitação de dívidas, cresceu 0,7%, depois de nove quedas consecutivas.

É curioso notar que, mesmo contrariando as reiteradas manifestações da equipe econômica do governo Temer, e as pretensões anunciadas em maio de 2017, a embrionária reativação dos negócios segue o rito esperado para escapes de estágios recessivos, estando amparada no alinhamento das variáveis de estabilização, que beneficiam o presente, configurado no consumo privado.

Os parâmetros vinculados ao longo prazo, sintetizados no investimento, permanecem em flagrante deterioração, notadamente as inversões destinadas à elevação da competitividade sistêmica da microeconomia nacional, particularmente infraestrutura, educação, inovação e produtividade. Como resultado, a taxa de investimento chegou a 15,5% do PIB, o menor nível da série histórica levantada pelo IBGE.

O delineamento de um panorama menos sombrio para a trajetória do aparelho de produção, em simultâneo à divulgação de informações de perda de vigor do mercado de trabalho nos Estados Unidos – sinalizadora do enfraquecimento das tensões inflacionárias e das especulações quanto ao endurecimento da política monetária, com propensão à subida dos juros – provocou despropositada disparada nas cotações das ações no Brasil.

Em 01 de setembro de 2017, as operações do Ibovespa encerraram o dia em 71.923 pontos, a maior cotação verificada desde 05 de novembro de 2010, quando houve registro de 71.923 pontos, coincidindo com o auge do boom de consumo, patrocinado pelo governo Lula, a partir de outubro de 2008.

No entanto, uma observação atenta das estatísticas do PIB e de outros indicadores determinantes das flutuações da atividade econômica permite constatar um quadro de estagnação. O PIB mostrou variação zero, no primeiro semestre de 2017, e declínio de -1,4% em doze meses encerrados em junho do corrente ano.

Ademais, as contas de desempenho industrial, apuradas mensalmente pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), também revelaram contração generalizada entre janeiro e agosto de 2017, em confronto com igual intervalo de 2016, especificamente faturamento real (-5,0%), emprego (-3,7%), horas trabalhadas na produção (-3,3%) e massa salarial real (-3,0%).

Decerto, nas condições atuais, cumpre a rendição à argumentação defendida pelo ministro da fazenda, desde o começo de 2017, de que a recessão seria uma imagem no retrovisor. Porém, a recuperação do tempo e espaço desperdiçados e o trajeto de retorno ao crescimento esbarram nos entraves de natureza política, erguidos na praça dos três poderes, altamente nocivos à constituição de um ambiente de renovação da confiança dos atores sociais.

Isso é particularmente preocupante quando se observa a existência de apreciáveis margens de capacidade ociosa e de endividamento privados e a multiplicação dos passivos governamentais, que, por seu turno, inviabiliza a execução de programas de restauração, ampliação e modernização da infraestrutura, enquanto as iniciativas de concessões e privatizações ainda carecem de explicitação de aparato regulatório mínimo, capaz de propiciar segurança jurídica para os arranjos contratuais e provisão de serviços de qualidade que estimulem novas inversões.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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