O descaso com a galinha dos ovos de ouro

Gilmar Mendes Lourenço.

É praticamente consensual a ideia de que a pujança do agronegócio vem representando o papel de tábua da salvação da economia brasileira, sendo o grande responsável, ao mesmo tempo, pela contenção das pressões inflacionárias, o abrandamento dos constrangimentos recessivos, prolongados por três anos, e a substancial diminuição dos déficits em transações correntes do balanço de pagamentos do País, que recuaram de –US$ 104,2 bilhões, em 2014, ou 4,2% do produto interno bruto (PIB), para –US$ 12,6 bilhões, em 2017, ou 0,6% do PIB.

Projeções da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) apontam acréscimo superior a 2% do PIB setorial, em 2017, versus variação de 0,7% para o agregado nacional, conforme a pesquisa Focus do Banco Central (BC), influenciado pela safra recorde de grãos, superior a 240 milhões de toneladas, segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e a subida das cotações globais dos alimentos, determinada pela reação dos preços e da demanda, esta última engrossada anualmente por mais de 150 milhões de consumidores.

O quadro conjuntural animador é otimizado por avaliações prospectivas, feitas pela Organização para as Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em conjunto com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Tais inferências dão conta da ocupação, pelo Brasil, da dianteira nas exportações mundiais de alimentos, na próxima década, desbancando os Estados Unidos. Isso é particularmente relevante para um país que, há menos de meio século, caracterizava-se como importador de matérias primas e produtos finais da cadeia alimentar.

Na verdade, a eliminação da característica de dependência das compras externas e a transformação em player global repousam na sintonia fina entre alguns fatores virtuosos, com destaque para a disponibilidade de enormes extensões de terras férteis e clima e regimes pluviométricos favoráveis adequados à diversificação da produção; o acelerado avanço dos encadeamentos à montante e à jusante do complexo rural; e os ganhos derivados da multiplicação da retaguarda científica e tecnológica, montada pelas instâncias públicas e privadas, especialmente a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a estrutura corporativa cooperativista.

No entanto, o aprofundamento do protagonismo do agro tem sido prejudicado, desde os anos 1980, pela multiplicação das deficiências logísticas e infraestruturais, que prejudica o escoamento da produção agropecuária e, sobretudo, a incorporação de novas áreas de fronteira, exigentes em economias de escala e intensivas em tecnologia.

Mais de 60% do transporte da produção do segmento ocorre em modal rodoviário, reconhecidamente menos eficiente e mais custoso. Para complicar, investigação da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) revela que, em 2017, 61,7% das estradas nacionais e estaduais foram avaliadas como “regular”, “ruim” e “péssima”, contra 58,2%, em 2016, dificultando o tráfego pesado de cargas das zonas agrícolas de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Pará, na direção das principais saídas de exportação do País.

Em condições de estado quebrado, a desobstrução desses estrangulamentos físicos ao desempenho do setor depende da formulação e execução de arrojado programa de concessões à iniciativa privada e/ou a instituição de parcerias entre governo e organizações empresarias. Decerto que as duas iniciativas devem ser amparadas por um marco regulatório transparente e estável que possa representar uma verdadeira carta de alforria, ou mecanismo de proteção contra as indesejáveis injunções de caráter político.

É interessante sublinhar que, por uma ótica mais geral, pesquisa preparada pelo instituto Ipsos mostra que a população brasileira acusou o maior grau de insatisfação com a qualidade da infraestrutura recebida, em um painel de 28 países acompanhados, atingindo a marca de 60,0%, contra 51,0% da África do Sul, o segundo pior. Os menos incomodados são os japoneses (15,0%), Coreia do Sul (16,0%) e Índia (17,0%). A liderança de insatisfação no Brasil coube à rede de rodovias, com insuficiência e precariedade apontada por 71,0% dos entrevistados.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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