PIB de 2017: Fim da recessão; até quando?

Os dados de evolução da economia brasileira, relativos ao ano 2017, sintetizados no produto interno bruto (PIB), disponibilizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam a superação do quadro recessivo, acontecido entre abril de 2014 e março de 2017, e o ingresso num estágio de estagnação. Aliás, tais fenômenos são característicos da dinâmica cíclica de estados capitalistas carentes de atividades de planejamento do desenvolvimento, sobretudo aquelas com horizonte temporal de médio e longo prazo.
De fato, depois de encolher -6,9%, no biênio 2016-2017, a principal grandeza macroeconômica nacional observou acréscimo de apenas 1,0%, em 2017, puxada pela combinação virtuosa entre resposta da demanda doméstica ao recuo consistente da inflação e dos juros e efeitos da continuidade da generalizada recuperação do comércio internacional, agraciada pelo estancamento da desaceleração chinesa e a reação dos preços das commodities.
Mais precisamente, o desempenho positivo foi puxado, setorialmente, pela agropecuária (13,0%) e indústrias extrativas (4,3%), havendo ainda tímidas elevações do comércio (1,8%) e indústria de transformação (1,7%) e substancial retração na construção civil (-5,0%). Pela ótica da demanda agregada, os sinais ascendentes foram emitidos pelas exportações (5,2%) e consumo das famílias (1,0%), com comportamento negativo das compras governamentais (-0,6%) e da formação bruta de capital fixo (-1,8%), fazendo a taxa de investimento cair de 16,4% do PIB, em 2016, para 15,6% do PIB, em 2017, o menor nível da história.
A grande indagação que se levanta compreende as chances de a modesta reativação dos níveis de atividade vir a se transformar em robusta retomada do crescimento econômico da nação. Até porque, analistas de mais de cem instituições financeiras, com opiniões extraídas semanalmente pela pesquisa Focus do Banco Central, projetam expansão de 2,9% e 3,0% do PIB brasileiro em 2018 e 2019, respectivamente.
Não obstante as dificuldades inerentes aos esforços de previsões macroeconômicas, sobretudo em circunstâncias de exacerbação das incertezas quanto ao curso do ambiente exógeno e doméstico, reforçado pelas turbulências políticas, parece razoável o estabelecimento de algumas premissas balizadoras do delineamento de cenários.
Decerto, a situação desejável abrangeria o prosseguimento da atmosfera virtuosa no front externo, com ajustes graduais e moderados nas taxas de juros globais, de modo a conter ímpetos inflacionários, em paralelo ao revigoramento dos mercados compradores dos principais produtos exportados pelo Brasil.
Por enquanto, a postura arisca dos mercados de risco não coaduna com o equilíbrio sincrônico dos principais pedaços da economia mundial. Em outros termos, estatísticas anualizadas revelam, nos Estados Unidos, avanço 2,5% do PIB, desemprego de 4,1% da população economicamente ativa (PEA), inflação de 2,1% e taxa dos Fed Funds entre 1,25% a.a. e 1,50%. Sem contar que a gestão Trump não tem efetuado grandes estripulias na área econômica.
De seu turno, Zona do Euro ostenta variação de 0,6% do PIB, inflação de 1,2%, desemprego de 8,7% e juros próximos de zero; China exibe incremento de 7,0% do PIB, desemprego de 3,9%, inflação de 1,8% e juros de 4,3%; e Japão exprime ampliação de 1,8% do PIB, inflação de 1,0%, desemprego de 2,8% e juros de -0,10%.
Em bom português, ou economês, isso significa que a ascensão da economia global, desde os primórdios da presente década, cada vez mais disseminada geograficamente, tem se reproduzido de forma plena no mercado de trabalho, sem a geração de maiores tensões no campo dos preços ou focos especulativos nas carteiras de ativos, o que permite descartar a ocorrência de alterações bruscas na remuneração dos papéis controlados pelos bancos centrais.
Nessas condições, a autoridade monetária brasileira poderia adotar novas rodadas de diminuição dos juros primários, em linha com o controle das pressões inflacionárias, o que favoreceria a consolidação, ao longo do corrente ano, da revitalização do mercado de ocupações e da diminuição das margens de capacidade ociosa da indústria.
Partindo da pressuposição de interrupção da tramitação das mudanças institucionais (tributária, fiscal, financeira, patrimonial e previdenciária) no Congresso Nacional, absolutamente essenciais para a restauração do equilíbrio estrutural das finanças públicas e a impulsão da eficiência da microeconomia, ficará para o escolhido pelas urnas para ocupar a cadeira presidencial, a partir de janeiro de 2019, e detentor de inquestionável capital político, a tarefa de preparação e exaustiva discussão coletiva de uma agenda de desenvolvimento.
Se, o contrato acordado ao longo do evento eleitoral de 2018 apresentar traços e propostas reformistas, emergirão referências concretas para a edificação da retomada do crescimento em bases duradouras e a abertura de flancos para a transformação do País em um verdadeiro canteiro de obras, diante dos flagrantes atrasos das inversões infraestruturais, suficientes para provocar o aborto qualquer movimento progressivamente ascendente da produção e negócios.
De outra parte, arranjos sociais legitimados também poderão ensejar a priorização do triângulo cujos vértices repousam em educação, inovação e eficiência, indispensáveis à inserção do parque fabril brasileiro naquilo que não poucos resolveram batizar de quarta revolução industrial, variante da terceira, focada na tecnologia da informação, robotização e inteligência artificial, e catapulta da produtividade dos processos.
Do contrário, se a retórica populista (de qualquer lado) for brindada com um mandato democrático, é lícito admitir a abdicação da preservação da estabilidade macroeconômica, o retorno da farra fiscal e da utilização pouco criteriosa dos recursos das agências de fomento públicas e, por extensão, o plantio das sementes de nova safra recessiva.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, professor da FAE Business School e ex-diretor presidente do IPARDES.




