Tributação influencia as transferências do futebol

Tributação influencia as transferências do futebol
Mercado de transferências no futebol movimentou mais de US$ 13 bilhões no ano passado. (Divulgação)

Estrutura fiscal ganha destaque no universo da bola

Cifras milionárias e, em alguns casos, bilionárias, já se tornaram cotidianas no futebol. A cada janela de transferências, clubes de diferentes partes do globo movimentam valores expressivos na disputa pelos talentos. Em 2025, o mercado internacional de transferências atingiu um recorde histórico, com mais de US$ 13 bilhões movimentados em taxas de transferências ao redor do mundo, segundo relatório da FIFA, representando um crescimento superior a 50% em relação ao ano anterior. Entretanto, por trás dos anúncios, das apresentações de atletas e das manchetes sobre contratações milionárias há uma complexa estrutura jurídica e tributária que muitas vezes passa despercebida pelo público.

A depender do formato da operação, diferentes participantes acabam impactados pela tributação, incluindo clubes, atletas, agentes e até sociedades anônimas do futebol (SAFs).

“Existe uma percepção errônea de que o custo de uma contratação se resume ao valor pago pelo passe do atleta, mas a realidade é muito mais ampla”, explica Caio Schunck, do escritório Zurcher, Caiafa, Spolidoro & Schunck Advogados.

Segundo o especialista, não existe uma regra universal para esse tipo de tributação. Cada país possui uma legislação e, em se tratando de negociações internacionais, ainda é necessário avaliar a existência de tratados para evitar uma dupla tributação no negócio. Mais do que isso, a incidência dos tributos varia conforme a natureza jurídica dos valores envolvidos, que podem estar relacionados à cessão de direitos econômicos e desportivos, serviços, direitos de imagem e luvas contratuais, além de outras modalidades de remuneração envolvidas numa negociação.

Complexidades na prática

Recentemente, a contratação de Lucas Paquetá, ex-West Ham, pelo Flamengo chamou a atenção para esse tema. De acordo com informações da imprensa, o negócio, que se consolidou como a maior compra de um atleta por um clube brasileiro, foi fechado em 42 milhões de euros (R$ 260 milhões). No entanto, explica o advogado, provavelmente os custos para os cofres rubro-negros acabaram sendo ainda mais onerosos. Fora questões salariais, de luvas e comissão a empresários, foi divulgado que o negócio incluiu uma carga tributária na casa dos 18%, uma vez que envolveu um clube inglês.

Apesar do exemplo, o especialista ressalta que cada contrato apresenta características próprias, destacando a possibilidade de variáveis nessas equações.

“O ônus tributário não necessariamente recai apenas sobre o clube comprador. Dependendo da estrutura, tributos podem atingir diferentes participantes da operação. Em alguns casos, apenas após as partes negociarem todas as variáveis da operação é que se torna possível definir quem suportará determinado encargo”, destaca Schunck.

Amostra disso foi a contratação do atacante Endrick pelo Real Madrid. Para vencer a concorrência pela revelação palmeirense, o clube espanhol ofereceu como atrativo a promessa de cobrir uma parcela significativa dos 15% que o Fisco espanhol abocanha em aquisições dos direitos esportivos de jogadores estrangeiros. O acordo ajudou a tornar a proposta Merengue mais atrativa para o Palmeiras frente a clubes de outras nações, uma vez que os descontos tributários do país de origem não impactariam o que seria embolsado pelo Alviverde.

Até por isso, a busca por eficiência fiscal também passou a fazer parte do planejamento de muitas negociações. Contudo, Schunck alerta que existe uma linha tênue entre o planejamento tributário legítimo e práticas que podem ser interpretadas como simulação ou fraude fiscal.

A contratação de Neymar pelo Barcelona ao Santos foi sistemática nesse sentido. A negociação envolvendo o craque gerou investigações na Espanha e no Brasil após suspeitas de que o valor real da operação teria sido ocultado por meio de contratos e pagamentos paralelos. O caso resultou em uma longa investigação, acusações de fraude fiscal e, posteriormente, um acordo pelo qual os espanhóis aceitaram pagar multa de 5,5 milhões de euros para encerrar a disputa tributária.

“À medida que o mercado do futebol se profissionaliza e movimenta valores cada vez maiores, cresce também a importância do planejamento tributário e conformidade fiscal. Hoje, uma transferência é uma operação econômica sofisticada, que exige atenção jurídica e tributária tão importante quanto as cifras que movimenta”, conclui Schunck.

No Brasil, a fiscalização da tributação das operações cabe principalmente à Receita Federal (por meio dos tributos federais IRPJ, IRPF, IRRF, PIS/COFINS, CSLL etc.); às secretarias de Fazenda municipais (pelos tributos municipais) e, eventualmente, às secretarias de Fazenda estaduais (para tributos estaduais). Em caso de não pagamento, as sanções podem ser de natureza tributário-financeira e, em alguns casos, criminais, caso seja identificado algo ilegal na estrutura tributária implementada.

 

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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