A crise econômica e o Paraná

Gilmar Mendes Lourenço
Gilmar Mendes Lourenço

O espetáculo da greve dos professores da rede estadual de ensino do Paraná, realizado em dois atos, neste primeiro semestre de 2015, e protagonizado, de um lado, por um executivo com diminuta experiência em negociações de elevada complexidade e, de outro, por uma categoria social sensível a influências exercidas por movimentos sindicais portadores de bandeiras confusas, para dizer o mínimo, precipitou a reprodução regional da crise financeira vivida pela esmagadora maioria das unidades federativas brasileiras.

Por certo, o tesouro estadual vem acusando, desde 2013, progressivos problemas de fluxo de caixa, derivados, primordialmente, da aplicação de um modelo de gestão financeira menos atento à necessidade premente de racionalização de gastos, em tempos de estagnação econômica, e agravados por incursões intervencionistas do governo federal, compressoras da arrecadação subnacional, particularmente com a diminuição do imposto sobre produtos industrializados para bens de consumo duráveis e materiais de construção, entre 2009 e 2014.

Na mesma linha, também se revelou desfavorável aos cofres estaduais a zeragem da contribuição de intervenção no domínio econômico (Cide), conhecido como imposto dos combustíveis, no intervalo compreendido entre o segundo semestre de 2012 e 2014, e a retirada dos encargos federais incidentes sobre as tarifas de energia elétrica, a partir de fevereiro de 2013, principal eixo da arrecadação do imposto sobre circulação de mercadorias e serviços (ICMS).

Sem contar os obstáculos de natureza política, implícitos nas avaliações técnicas da Secretaria do Tesouro Nacional (STN), expressos na fixação de sucessivas restrições à autorização do aporte dos valores dos empréstimos obtidos (e aprovados) junto às entidades multilaterais de crédito para a cobertura de inversões em infraestrutura econômica e social no território do Paraná.

Mas o pior é a ausência de perspectivas de equacionamento do desequilíbrio de caixa em curto termo, por conta dos desdobramentos, na receita tributária, do aprofundamento da marcha recessiva, trilhada pelo País a partir do segundo trimestre de 2014, derivado do emprego de medidas de austeridade fiscal e, sobretudo, monetária, para o conserto dos estragos provocados pela chamada nova matriz econômica, implementada pelas autoridades do planalto entre o final de 2011 e 2014.

Nessa perspectiva, os indicadores relativos ao nível de atividade atestam o acentuado panorama contracionista da base de negócios regional. Pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) denotam que a produção industrial paranaense encolheu -8,5%, entre janeiro e abril de 2015, contra decréscimo de -6,3% para o parque fabril nacional, sendo a terceira maior queda entre os entes federados, superada apenas por Amazonas e Bahia. Em igual intervalo, o volume de vendas do comércio varejista estadual diminuiu -6,4% versus variação negativa de -6,1% em âmbito nacional.
Contudo, é importante ter presente que apesar de transmitir mensagens com pronunciado conteúdo de dramaticidade, principalmente se forem considerados curtos horizontes temporais, esse tipo de diagnóstico e abordagem omitem alguns elementos de ordem estrutural, e de primeira grandeza, para a confecção de cenários de longa maturação para o aparelho produtivo local.

Mais especificamente, a despeito das distorções provocadas pelo desnível entre receitas e despesas correntes, o Estado ainda ostenta expressiva capacidade de endividamento, exibindo relação dívida/arrecadação inferior a 0,6, contra média de 0,8, para os demais estados, e entre 1,5 e 2,0 para Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul.

Ademais, no ranking nacional, o Paraná contabiliza a terceira menor taxa de extrema pobreza (US$ 1,25 per capita/dia, ou R$ 120,0/mês), atrás apenas de Santa Catarina e São Paulo, segundo o Banco Mundial; o quarto maior rendimento médio do trabalho, perdendo somente para Distrito Federal, São Paulo e Roraima; e a segunda menor taxa de desemprego (5,3% da população economicamente ativa, versus 8% da média brasileira, no primeiro trimestre de 2015), conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, realizada pelo IBGE, atrás apenas de Santa Catarina.

No tocante à geração de empregos com carteira assinada, enquanto o Brasil eliminou 244 mil postos, nos primeiros cinco meses de 2015, o Paraná observou 22,7 mil contratações líquidas, liderando o certame nacional de abertura de vagas, com destaque para os segmentos do agronegócio (40,6%), educação (24,6%), serviços de alojamento e alimentação (14,5%) e serviços imobiliários (13,1%), de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregos (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Por fim, mesmo em um ambiente nacional inóspito ao investimento produtivo, o Paraná conseguiu atrair mais de R$ 37 bilhões em projetos industriais privados, nacionais e estrangeiros, entre 2011 e 2014, a maior carteira da nação se referenciada ao tamanho das diferentes economias regionais, cuja concretização e maturação dependem da retomada do crescimento brasileiro em bases duradouras.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, professor e editor da revista Vitrine da Conjuntura da FAE Business School.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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