Barreiras corporativas à PEC 241

Gilmar Mendes Lourenço.
Gilmar Mendes Lourenço.

A proposta de emenda constitucional (PEC) 241, que restringe a evolução dos desembolsos primários da União à inflação, por duas décadas, com previsão de revisão e ajustes da regra na metade do tempo, vem sofrendo ataques de entes interessados na preservação de privilégios seculares e setores vitimados por miopia ideológica ou falta de compreensão dos princípios básicos de finanças, alicerçados no argumento de inviabilização das funções públicas essenciais.

Apenas em caráter de exemplo, a Procuradoria Geral da República (PGR) chegou a encaminhar um documento, ao Congresso, qualificando o projeto de inconstitucional por provocar a fragilização dos pilares institucionais do Estado, ao fazer minguar os haveres requeridos para ações como reajustes salariais, readequação de carreiras e renovação de quadros de pessoal.

De seu turno, o Conselho Federal de Economia (Cofecon), legitimado por deliberação do vigésimo quinto Simpósio Nacional dos Conselhos de Economia, acontecido no período compreendido entre 31 de agosto e 02 de setembro de 2016, em Natal, Rio Grande do Norte, emitiu nota posicionando-se “francamente contra” a proposição, baseado em uma espécie de eternização da retaguarda de proteção social instaurada com a Carta Magna de 1988. Outras entidades levantaram bandeiras e palavras de ordem contra a retirada de recursos das áreas sociais, especialmente saúde e educação.

Na verdade, tanto constituintes da segunda metade da década de 1980, quanto os grupos de desqualificação da PEC 241, desprezaram a lógica econômica da limitação orçamentária dos agentes públicos e privados, imposta pelos fluxos de renda e capacidade de endividamento. Os dispêndios da esfera federal, excluídos os juros, beiram 20% do produto interno bruto (PIB), contra 14% do PIB há menos de 20 anos.

O princípio elementar da restrição dos orçamentos só pode ser negligenciado, ainda que sob o pretexto de manutenção das iniciativas oficiais de transferência de renda e concessão de benefícios, por meio da perigosa combinação entre os expedientes formados por aumento da carga tributária e impulsão do endividamento do Tesouro, que, inclusive, ensejou o acréscimo das despesas do governo federal de 6% acima da inflação nos últimos dois decênios e meio.

Mais que isso. O fardo de impostos passou de 25,8% do PIB, em 1993, para 32,66% do PIB, em 2015, tendo chegado a 34,10% do PIB, em 2006. Já a dívida líquida do setor público (União, especificamente o Tesouro Nacional, Banco Central e INSS, e empresas estatais, estados e municípios) saltou de 30,1 % do PIB, em janeiro de 2014, para 44,1% do PIB, em setembro de 2016. A dívida mobiliária do Tesouro Nacional, fora do Banco Central, valorada pela posição de carteira, subiu de 38,2% do PIB, em dezembro de 2014, para 47,5% do PIB, em setembro de 2016, como contrapartida aos gastos desenfreados, encobertos pelas maquiagens contábeis patrocinadas pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN).

O esgotamento da capacidade contributiva dos agentes econômicos e a disparada do endividamento conduziram o País a mais intensa e longa recessão desde o fim do século 19, atingindo, em cheio, a arrecadação de impostos e ativando o sinal vermelho para a solvência da esfera pública.

Decerto, a PEC 241 não constitui a solução mágica para os graves desequilíbrios macroeconômicos da nação, que vem bloqueando os canais de retomada do crescimento e diminuição das desigualdades sociais, como preconiza o Cofecon.

Por isso, a peça legal não representa o fim, mas o começo de uma empreitada centrada na gestão técnica dos conflitos políticos subjacentes à preparação e execução dos orçamentos públicos, atividades até aqui dominadas pela acomodação, no legislativo, do poder das corporações, e outros supostos proprietários dos haveres extraídos da sociedade pelo governo, na forma das famosas emendas parlamentares.

Sem contar que a PEC não exerce qualquer interferência no descalabro recente das finanças das administrações estaduais e municipais, praticamente anulando os esforços de reestruturação dos passivos, realizados no primeiro quinquênio de 1990, e forçando o desencadeamento de nova rodada de renegociação que resultou na suspensão dos pagamentos, durante o segundo semestre de 2016, e a fixação de suaves prestações para 2017 e 2018.

Na mesma linha, ao contrário do que apregoam alguns movimentos, não há supressão de destinações à saúde e educação. Foram fixados pontos de partida (pisos) de 15% da receita líquida de 2017, para a saúde, e 18% do total de dispêndios para a educação, com correção pela inflação a partir de 2018, com possibilidades de elevações desde que mantido o agregado.

Por isso, a PEC carece de complementação por com um grupo de relevantes avanços, capaz de alterar radicalmente o marco institucional brasileiro, tal como ocorrido nos anos 1990 e começo de 2000, a partir da abertura comercial, desregulamentação, desinflação, privatizações e Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

Dentre os aprimoramentos imprescindíveis destacam-se a revisão do regime previdenciário, forçado pelo envelhecimento populacional, a construção de um sistema tributário menos regressivo, o rearranjo de receitas e responsabilidades entre as três instâncias federativas, a diminuição do peso do judiciário na absorção de recursos, a montagem de um contemporâneo aparato trabalhista e uma reforma financeira que propicie o acirramento da concorrência entre os bancos e, por extensão, a queda estrutural dos juros.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, Economista, Consultor, Professor da FAE Business School, Ex-Presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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