Economia criativa: envolvimento com moderação

Recentemente tive o privilégio de participar do Fórum “Economia Criativa”, promovido pela Coordenação de Inovação da Companhia Paranaense de Energia (Copel), na perspectiva de debater as chances de o segmento, que abarca as áreas de tecnologia, mídias, cultura, moda, design, arquitetura e publicidade, vir a representar uma das alavancas do processo de retomada sustentada do crescimento econômico brasileiro.
É preciso entender que por tratar-se de um campo de estudos relativamente novo, definido há menos de duas décadas, portador de pronunciado conteúdo de conhecimento, tecnologia e poder de transbordamento sobre as demais atividades do sistema econômico e social, predominam enormes dificuldades à sua categorização e mensuração.
Os esparsos dados e informações existentes, para intervalos de tempo não tão recentes, atestam que o segmento contribuiria com mais de 5,0% do produto interno bruto (PIB), na média de 40 países acompanhados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), e de 2,7% do PIB, no Brasil, em 2012, de acordo com estimativas da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), com as divisões de audiovisual, comunicação e mídia impressa, gerando mais de ¾ do valor adicionado setorial.
Incursões mais específicas indicariam que a atividade exibe maior velocidade de expansão que o restante do aparelho de produção e de negócios e paga salários mais elevados, por conta dos diferenciais de escolaridade, o que poderia sinalizar a abertura de flancos para a obtenção de saltos na produtividade agregada.
No entanto, tais inferências parecem insuficientes para permitir a construção de um modelo de compreensão mais adequado das oportunidades, desafios e conexões da economia criativa, que venha a escapar da prepotência implícita em parte expressiva das iniciativas de marketing.
De fato, o ramo carece de um inventário qualitativo, escorado na montagem de uma conta satélite, no Sistema de Contas Nacionais (SCN), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), como já efetuado para saúde e turismo, a partir do emprego do modelo insumo-produto, seguido de um diagnóstico detalhado, capaz de demonstrar composição, peso na economia, absorção e grau de escolarização e informalidade da mão de obra, performance na crise, produtividade e eficácia dos vultosos subsídios oficiais nele aportados.
Até porque, a criatividade que notabilizou o País nos últimos tempos esteve associada menos a fatores de progresso e mais a elementos econômicos de perturbação. Dentre aquelas patologias sobressai a maquiagem das contas públicas, escoradas nas pedaladas fiscais, que ensejaram o financiamento dos déficits do tesouro nacional por bancos oficiais, e a articulação promíscua entre grandes empreiteiras e membros dos poderes executivo e legislativo voltada à destruição dos procedimentos de gestão e, por extensão, ao desvio de expressivas somas de recursos das companhias estatais.
Ressalte-se que a multiplicação de provas, envolvendo a participação daqueles agentes em encorpados escândalos de corrupção, favoreceu (ou forçou) a manifestação de escolhas de delações premiadas e imediatos acenos de marketing centrados em arrependimentos e na apologia de uma trajetória de gloriosos serviços prestados à nação.
Também não soa descabido argumentar, principalmente em época de penoso esforço fiscal, que parcela não desprezível da produção cultural brasileira, patrocinada por instâncias públicas, estaria mais para “lixo tóxico” do que para algo que pudesse pleitear o rótulo de criativo. Em paralelo, salta aos olhos que serviços de informação, uma das âncoras do segmento, acusaram decréscimo na formação do PIB nacional de 4,6%, em 2005, para 3,2%, em 2015.
Por fim, convém não transferir à economia criativa a missão de salvadora da pátria, transformando-a no mais novo modismo. Na maioria dos casos, lampejos de criatividade não conseguem reproduzir as conhecidas economias de escala da microeconomia, absolutamente imprescindíveis para a maximização da agregação de valor, mensurada pela macroeconomia. Em outras circunstâncias, incursões criativas exigem o aporte de vultosos recursos a ponto de não resistirem a criteriosos cálculos de viabilidade.
Por essa ordem de argumentação, não seria ocioso recordar o episódio da Nova Economia, capitaneada pelas empresas de tecnologia de informação, nos EUA, no decênio de 1990, ápice da terceira revolução industrial, quando a economia daquele País experimentou taxas de variação do PIB superiores a 5% a.a.
Tal dinamismo esteve assentado na impulsão do investimento das corporações ponto com e no consumo privado, movido essencialmente pela subida dos rendimentos variáveis das famílias, associada à valorização das ações das empresas líderes, mensurada pelo índice Nasdaq.
Uma fração da academia chegou a sentenciar o fim dos ciclos, na medida em que as companhias de vanguarda não estariam submetidas às agruras macroeconômicas que costumavam vitimar, de tempos em tempos, os setores tradicionais. A descoberta das fraudes contábeis praticadas por Worldcom e Enron, ignoradas pelas auditorias internacionais, serviu para recolocar o capitalismo nos eixos tradicionais, operando em linha descendente até 2003, quando teve início o boom das commodities, motivado pela demanda chinesa. Mas essa é outra história.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é Economista, Consultor, Professor da FAE Business School, Ex-Presidente do IPARDES.




