Brasil: desinflação e reformas

Gilmar Mendes Lourenço.

O comportamento dos principais índices de preços no Brasil, relativos ao mês de junho de 2017, ensejou a explicitação, por pequena fração dos profissionais de mercado e a unanimidade dos inquilinos do palácio do planalto, da premissa de que a nação estaria vivenciando um alentador movimento de despencada dos valores de comercialização das mercadorias e serviços, demonstração cabal da restauração das bases da estabilidade econômica.

Por essa ordem de argumentação, é fundamental entender que a dinâmica de preços de um sistema econômico pode ser sintetizada em três direções distintas: duas perniciosas e uma profícua. A primeira equivale à inflação, doença evidenciada pela elevação generalizada e contínua dos preços, ocasionando corrosão do valor dos ativos e do poder de compra da população.

A segunda situação abarca o conforto da desinflação, ou a desaceleração do grau de variação média dos preços, normalmente explicada por choques benignos de oferta e/ou resposta dos agentes as medidas de represamento ou até eliminação dos mecanismos de correção automática de preços, salários e contratos, conhecidos como indexação.

Já a terceira variante, também do mal, como a primeira, engloba o encolhimento abrangente e permanente dos níveis de preços, verdadeiro estopim para a formação de um clima inóspito à manutenção dos negócios, atrelado ao encurtamento da rentabilidade privada, e a deflagração de posições defensivas das corporações, com destaque para a feitura de demissões de mão de obra e o engavetamento de projetos de investimentos em ampliação da capacidade produtiva.

É fácil notar que, nos dias atuais, o Brasil atravessa a segunda etapa: a desinflação. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para a identificação da inflação média de famílias com renda mensal entre um e quarenta salários mínimos, exibiu decréscimo de -0,23% em junho de 2017. Trata-se do menor índice obtido para um mês de junho desde o lançamento do real, em julho de 1994, a primeira variação negativa em onze anos (em junho de 2006 foi de -0,21%) e a menor em quase dezenove anos (-0,51%, em agosto de 1998).

Esse episódio de retração média dos preços pode ser imputado a elementos tópicos como o barateamento dos alimentos, provocado pela safra agrícola recorde, da energia elétrica – em face da alteração da bandeira tarifária, de vermelha para a verde, pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), oportunizada pelo aumento das chuvas na região norte – e dos combustíveis, além das reduções das margens de comercialização dos estabelecimentos de varejo, associada à diminuição do consumo, por conta da escalada do desemprego e da diminuição da renda da população.

A alta acumulada no primeiro semestre de 2017 foi de 1,18%, a menor da série histórica, iniciada em 1980, contra 4,42% no mesmo período de 2016. Em doze meses findos em junho de 2017, a subida foi de 3,00%, sendo 33% inferior aos 4,5% ao ano, fixados pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para o regime de metas de inflação.

Ao mesmo tempo, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), sinalizador da marcha dos preços de um vasto grupo de produtos consumidos por famílias com renda mensal entre um e cinco salários mínimos, também expressou recuo de -0,30% em junho, e avanço de 1,12% em seis meses e 2,56% em doze meses.

Por certo, a reversão da trajetória ascendente da inflação, que chegou a 10,7%, pelo IPCA, e 11,3%, pelo INPC, em 2015, não constituiu obra do acaso. Há componentes subjacentes à evolução da política macroeconômica brasileira, aplicados a partir de 2016 – depois da disparada de preços, acontecida em 2015, e derivada do choque tarifário e cambial implementado pelo então ministro da fazenda da presidente Dilma, Joaquim Levy – a amparar a desinflação.

A inclinação ortodoxa no tratamento das variáveis de estabilização, particularmente os pedaços do ajuste fiscal, identificados na limitação do crescimento dos gastos públicos primários da união à inflação pretérita e na regressão da velocidade de expansão dos dispêndios financeiros do setor público, aparece como protagonista do espetáculo.

No entanto, é necessário lembrar a íntima relação da contenção da elevação dos preços com os desdobramentos sociais da mais profunda e longa derrocada recessiva da história do País, desencadeada tecnicamente em abril de 2014, notadamente a impulsão do desemprego, endividamento e inadimplência da população e a subsequente contração da massa de rendimentos e da capacidade de consumo das famílias.

Nessas circunstâncias, em lugar da proliferação de manifestações triunfalistas do governo e seus fãs dos meios especializados, seria mais adequada a intensificação dos cortes na taxa básica de juros, por parte da autoridade monetária, e a adoção de providências adicionais para a reativação do ciclo de negócios por aqui.

Até porque, se os números negativos perdurarem, configurando de fato o surgimento da deflação, a inevitável diminuição das expectativas de lucros das empresas, dela decorrente, pode arrefecer as decisões de produção e inibir inversões e, por extensão, abortar o incipiente estágio de redução do desemprego e reativação localizada dos negócios.

Seria ocioso insistir que o reerguimento dos níveis de atividade, ainda preso aos efeitos multiplicadores dinâmicos do agronegócio exportador, já vem sendo suficientemente prejudicado pelo agravamento da crise política e, o que é pior, a ausência de opções de superação confiáveis, comprometidas com a utilização de um arsenal econômico compatível com a edificação dos pilares de um círculo virtuoso em médio e longo prazo, liderados por abrangentes reformas voltadas à devolução da solvência do setor público e à multiplicação da eficiência microeconômica.

Em outros termos, a desejada conjugação entre inflação cadente e produção e emprego ascendente exige a execução de um programa de ajustamento econômico que priorize a implantação das reformas institucionais, como requisito indispensável ao regresso do equilíbrio orçamentário das três instâncias governamentais (federal, estadual e municipal), e ao declínio estrutural da dívida pública, dos juros e da inflação (com meta de 4,25% a.a., a partir de 2019) e, por consequência, à conquista de um padrão de crescimento econômico despojado do rótulo de “voo da galinha”.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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