A consolidação do enfraquecimento da indústria brasileira

O comportamento da indústria brasileira ao longo de 2015, aferido por pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), vem evidenciando um autêntico definhamento setorial, fruto da combinação perversa entre fragilização da demanda externa e interna e deterioração da confiança dos agentes econômicos no futuro do País.
A produção caiu -10,9% em setembro, em relação ao mesmo mês de 2014, representando a décima nona queda seguida, nessa base de cotejo, e a mais acentuada desde abril de 2009 (-14,1%), quando o parque fabril operante no País foi duramente castigado pelo tsunami financeiro internacional. O decréscimo acumulado entre janeiro e setembro foi de -7,4%, o maior desde 2009, puxado por bens de capital (-23,6%) e de consumo duráveis (-15,7%), com contrações também relevantes em bens semiduráveis e não duráveis (-7,1%) e intermediários (-4,1%).
Sem dúvida, a tendência cadente mais preocupante é a registrada na fabricação de bens de capital, que abrange as máquinas e equipamentos destinados ao aumento da capacidade produtiva do sistema, ou do investimento, indicador antecedente do crescimento ou da estagnação do ciclo econômico. Pelo andar da carruagem, o aparelho de negócios da nação deverá prosseguir amargando tempos medíocres.
O recuo acusado pela produção de itens de consumo duráveis reflete a compressão da renda das famílias, com a impulsão do desemprego, do endividamento e da inadimplência, em um ambiente de encurtamento e encarecimento do crédito (elevação dos juros), e a retração da massa salarial, também afetada pela escalada da inflação.
O desempenho negativo de não duráveis e semiduráveis é igualmente explicado pelo enfraquecimento do mercado de trabalho (emprego e rendimentos) e a interferência da espiral inflacionária e da subida dos encargos financeiros nos orçamentos domésticos, enfraquecendo o poder de compra e precipitando posturas defensivas da população.
Por fim, a rota descendente de bens intermediários pode ser imputada, de um lado, ao encolhimento da demanda por peças, componentes, matérias primas e insumos básicos, derivado do aprofundamento e prolongamento da recessão, e, de outro, à diminuição dos preços internacionais e à perda de competitividade das vendas externas brasileiras, por conta da majoração dos custos internos (energia, combustíveis, transportes, impostos e juros), em um clima de acirramento da concorrência global.
Esse último ponto, decorrente da reativação econômica mundial em ritmo ainda bastante modesto, marcada, especialmente, pela morosa superação da recessão na Europa e a pronunciada desaceleração da economia chinesa, mergulhada em uma bolha de crédito, vem provocando a maximização das práticas protecionistas, por parte dos mercados avançados, prejudicando, sobremaneira, a atuação de players de países com fundamentos fiscais e financeiros debilitados, como o Brasil.
Na mesma linha, levantamento realizado pela CNI mostra diminuição das horas trabalhadas, faturamento real (descontada a inflação), emprego e volume real total de salários pagos na indústria de -9,5%, -6,8%, -5,5% e -5,3%, respectivamente, entre janeiro e setembro de 2015, frente a igual período de 2014.
Parece oportuno esclarecer que a situação de penúria da indústria nacional está umbilicalmente atrelada à política econômica (ou à falta dela), implementada no País a partir de fins de 2008, focada na preservação artificial da capacidade de realização da produção fabril, por intermédio da concessão de incentivos fiscais e tributários a alguns segmentos, escolhidos por critérios pouco transparentes, e desprovida da explicitação dos ingredientes de uma estratégia de longo prazo.
Em outros termos, na ausência de oferta de cartas de navegação oficiais, capazes de propiciar o resgate dos trunfos concorrenciais no front interno e o ensaio do revigoramento competitivo na fronteira internacional, o funcionamento do complexo manufatureiro nacional permaneceu dependente de fatores circunstanciais que, costumeiramente, exibem fôlego limitado e podem desaparecer, ou serem retirados, de forma tão rápida e surpreendente, como surgiram ou foram concedidos.
Não por acidente, o peso do segmento de transformação no produto interno bruto (PIB) brasileiro caiu de 17,9%, em 2004, para 10,9%, em 2014, devendo furar o piso de 9%, em 2015. Trata-se do fenômeno da “desindustrialização”, provocado por iniciativas atabalhoadas, tomadas por governos excessivamente preocupados em construir múltiplos palcos para a viabilização de um populismo redistributivista, ignorando que tal empreitada requer o funcionamento de um vigoroso e competitivo setor industrial, cada vez mais exigente na aplicação de vultosas somas de recursos em ciência e tecnologia.
Por certo, a factibilidade do suprimento desse tipo de demanda impõe o barateamento do custo do capital, pelo caminho da disponibilização de linhas de crédito especiais e subsidiadas e da redução do fardo tributário. Contudo, antes disso, afigura-se crucial a transparente negociação e definição política de um programa industrial que designe, dentre outras coisas, os ganhadores e perdedores diretos de uma nova etapa expansiva e, por extensão, engendre a adoção de planos de encaixe dos atores envolvidos.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, consultor e professor da FAE Business School.





