Ajuste fiscal ou caos

Gilmar Mendes Lourenço.
Gilmar Mendes Lourenço.

Desde o lançamento do real, em julho de 1994, as três instâncias de governo (união, estados e municípios) vêm demonstrando absoluta incapacidade de adequação ao declínio estrutural do imposto inflacionário que, durante a desorganização econômica da década de 1980 e o começo dos anos 1990, assegurava-lhes a obtenção do equilíbrio orçamentário via indexação de receitas e postergação das despesas nominais, não corrigidas monetariamente.

A ausência de interesse na aplicação dos princípios mais elementares de gestão financeira, característico da microeconomia, ensejou a multiplicação dos dispêndios públicos correntes, em maior velocidade do que a também acentuada evolução do fardo de impostos, resultando na impulsão do desequilíbrio das finanças oficiais e na subsequente necessidade de seu financiamento, a juros cada vez mais elevados, no mercado, catapultando as alocações de recursos na rubrica financeira dos orçamentos e, por extensão, a dívida pública.

O incremento real (com desconto da inflação) dos gastos públicos, de mais de 6% ao ano, em dois decênios, fez a participação das três esferas governamentais na utilização final, ou demanda agregada, acompanhada pelas contas nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), saltar de menos de 15%, no princípio dos anos 1990, para mais de 20%, nos tempos atuais.

Enquanto isso, a carga tributária subiu de 25% do PIB para 33% do PIB, em idêntico intervalo, sendo a vigésima quinta maior do planeta e uma das mais robustas entre as nações de renda média, contra estimativa de capacidade de suporte dos agentes econômicos (famílias e empresas), próxima de 24% do PIB, e, o que é pior, fortemente determinada por itens indiretos e regressivos que servem para agravar o quadro desigual da pirâmide social brasileira.

De acordo com cálculos do Banco Mundial, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de consumo de homens-hora, por ano, para a cobertura do pagamento de tributos por uma organização empresarial. São 2.600 homens-hora, para essa finalidade, mais que o dobro da Bolívia, que figura no segundo posto, e quinze vezes superior à média registrada pelas nações integrantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Nesse sentido, a proposta de instituição de um teto para os gastos da união, limitado à curva de inflação, apresentada pela administração interina de Michel Temer, solitário elemento do propalado ajuste fiscal em execução, revela-se extremamente importante para estancar, em médio prazo, a natureza inercial do incremento da transferência de renda dos segmentos produtivos do sistema econômico para as áreas menos eficientes impregnadas no estado.

Em outras palavras, a reversão do comportamento pretérito, marcado pela formação de uma linha permanente de expansão dos gastos públicos abaixo do PIB, revela-se condição essencial para a restauração dos superávits primários das contas públicas e da sustentabilidade fiscal, por meio da regressão e estabilização da relação passivo público/PIB.

Por certo, o êxito de uma empreitada de tal envergadura requer a aprovação de outras peças de reformas do arcabouço institucional da nação, especialmente previdenciário, trabalhista e tributário, além de respostas da arrecadação ao desmanche do circuito recessivo, da queda estrutural dos juros e da retomada das privatizações e concessões.

É fácil perceber que trata-se de tarefa que, por sua magnitude e complexidade, exige rigorosas apreciações técnicas e árduas negociações políticas, demandando tempo de maturação que extrapola um mandato presidencial. Nessa perspectiva, a Temer está reservado o espaço e papel de restabelecimento dos instrumentos e mecanismos que ensejariam o resgate da estabilidade fiscal, principal alicerce da renovação das forças do crescimento econômico.

A argumentação acerca da existência de barreiras políticas quase intransponíveis para a concretização desse trabalho, principalmente por um governo de tiro curto, é derrubada pela experiência histórica recente quando, especificamente, em 1993 e 1994, o presidente Itamar Franco logrou êxito na viabilização das bases do ajustamento deflacionário, com o lançamento do programa de ação imediata (PAI) e a instituição do imposto provisório sobre movimentações financeiras (IPMF), do Fundo Social de Emergência (FSE) e da Unidade Real de Valor (URV).

Ademais, é conveniente lembrar que o esforço fiscal a ser capitaneado por Temer, desprovido da possibilidade de majoração da cunha tributária, aconteceria com onze anos de retardo, pois, em 2005, a então ministra chefe da casa civil da presidência da república, Dilma Rousseff, simplesmente torpedeou a sugestão de ajuste fiscal de longo prazo, preparada pela equipe do titular da fazenda, Antônio Palocci.

Na ocasião, saldos fiscais primários de quase 4% do PIB levaram inclusive o FMI a dispensar o Brasil da celebração formal de protocolos de intenções ou metas anuais para as variáveis de estabilização macroeconômica, com aquela entidade multilateral, abrindo caminho para a conquista do grau de investimento da dívida soberana, conferido pelas principais agências globais de rating, em 2008.

Logo, não constitui obra do acaso o fato de Dilma ter destruído os pilares da estabilidade orçamentária, construído em fins do decênio de 1990 e consolidado com a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), em 2000. A presidente afastada assumiu os destinos políticos do País com desnível nominal das contas públicas de -2,6% do PIB e entregou, a seu substituto, com rombo de -10% do PIB. Na contabilidade primária, o superávit de 2,8% do PIB deu lugar a um déficit de 2,5% do PIB.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, Consultor, Professor da FAE Business School, Ex-Presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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