Triunfo de Donald Trump: mensagens e significado

Gilmar Mendes Lourenço.
Gilmar Mendes Lourenço.

A despeito das manifestações iniciais de medo e indignação, o triunfo de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos (EUA), traz algumas mensagens extremamente relevantes, se forem considerados a natureza racional de sua expressiva massa de eleitores, o caráter forte das instituições daquele País, especialmente do Congresso, a necessidade de aprimoramentos nos diálogos não traumáticos com a Rússia e a ascensão de uma espécie de novo populismo, avesso aos preceitos democráticos mais elementares.

É fácil perceber a proliferação de uma demagogia de direita radical, sintetizada nas ações da influente francesa Marine Le Pen, de Vladimir Putin (mandatário da Rússia) e de Recep Tayyip Erdogan (presidente da Turquia), e que vem garimpando encorpadas revoltas com a drástica redução do ritmo de expansão econômica das nações centrais (EUA e União Europeia), traduzidas na descoberta e escolha de inimigos, como companhias transnacionais e imigrantes, que estariam debilitando os mercados de ocupações locais.

Os recados das urnas norte-americanas referendaram a proposta de revisão dos princípios aplicados à estratégia de intensificação da globalização dos mercados, desde fins dos anos 1980, que serviram para catapultar a China para o posto de maior exportador do planeta e ocasionar uma perda de esplendor industrial sem precedentes na história econômica dos EUA, com o deslocamento de atividades para o continente asiático na busca de menores custos de mão de obra.

Mesmo tendo alojamento em uma legenda partidária, no caso a republicana, o êxito eleitoral do rótulo de não político, destacado durante a campanha, representou a derrota da política tradicional, comandada a partir dos interesses sediados na capital nacional. Não por acaso, as regras de funcionamento do sistema capitalista mundial em mercados avançados e emergentes (encarregados de promover rápida e definitivamente a abertura comercial e financeira e a desregulamentação), foram fincadas pelo Consenso de Washington, em novembro de 1989.

Por certo, a população americana aproveitou o espaço eleitoral para exprimir um elevado grau de insatisfação com a centralização de poder no exercício de tomada de decisões estratégicas, e a negligência oficial com a acentuação da heterogeneidade do tecido social, da fragilização da matriz produtiva e das disparidades inter-regionais de geração de emprego e renda, não revertida com os esforços de superação das agruras provocadas pela instabilidade causada pela crise do subprime, em 2007 e 2008.

Há também que considerar a fragorosa derrota da esmagadora maioria das fábricas da “indústria de pesquisas” de intenções de voto, endossadas por veículos de comunicação de grande coturno, que erraram feio e serviram como suporte à multiplicação das chances concretas de vitória de uma plataforma conservadora, intervencionista e negligente com os ensaios de confrontação internacional, defendida pela candidata democrata.

Em resposta aos equívocos cometidos nos inquéritos, ultrapassando, em larga proporção, as margens de tolerância, e nas projeções, alguns institutos apresentaram de pronto, como desculpa, a omissão ou silêncio na declaração de desejo de sufrágio, por parte dos eleitores de Trump, até por vergonha ou temor de intimidação. Seriam os trumpistas escondidos.

Soaria mais correto admitir a obsolescência dos procedimentos de captura de confissão de voto, centrados em investigações telefônicas, e a elitização das sondagens efetuadas pelas redes sociais que, no caso dos EUA, não teriam captado as preferências do “cinturão da ferrugem”, área baseada na indústria pesada e manufatureira, situada no nordeste, e nas regiões dos grandes lagos e dos montes apalaches, que empobreceram com o encerramento de atividades de plantas fabris e o fechamento de vagas de trabalho.

A exceção coube ao jornal Los Angeles Times, da Califórnia. Ao longo de quatro meses, o periódico, em parceria com a Universidade da Carolina do Sul, apurou, em média, seis pontos percentuais a mais nas intenções em favor de Trump, em relação aos resultados dos levantamentos feitos pelos demais institutos.

Por ocasião do voto, a interferência crucial coube à presença maciça dos eleitores de Trump – predominantemente homens brancos com reduzida escolaridade, habitantes das regiões deprimidas do meio oeste (Wisconsin e Michigan) e da Pensilvânia – e da menor participação, em relação aos pleitos anteriores que alçaram o democrata Obama, dos simpatizantes de Hillary Clinton, notadamente jovens e negros.

O discurso de vitória Trump foi, surpreendentemente, não agressivo, carregado de acenos conciliatórios, e os reconhecimentos de derrota de Obama e Hilary foram meramente protocolares e, exatamente por isso, muito bons, na direção da restauração do diálogo e da interpretação criteriosa e adequada da voz surgida das apurações.

É cedo para imaginar os passos do futuro governo de um presidente que está longe de constituir unanimidade em sua própria agremiação e atirou para todos os lados no período de disputa. Convém lembrar que o abandono de parcela relevante dos princípios do partido republicano, durante o ciclo eleitoral, atendeu não apenas aos propósitos de recuperação do cargo de presidente, mas viabilizou a maioria da legenda no legislativo e na Suprema Corte, dado que caberá a Trump a designação do nono juiz que ensejará o desempate entre liberais e conservadores.

Resta aguardar a composição da equipe de secretários de estado do ocupante da Casa Branca a partir de 20 de janeiro de 2017. Se impregnada de adeptos e executores da agenda e pauta levantada nos palanques, repleta de pontos pouco consistentes e até extravagantes, inseridos em uma agressiva empreitada geopolítica e antiglobalização, poderá ocasionar ferimentos na ordem econômica mundial e, por isso, dará enorme trabalho ao Congresso, guardião da estabilidade institucional.

Já, se tiver feições republicanas, ortodoxas e, doravante, mais nacionalistas e com dirigismo estatal, facilitada pela provável ponte a ser construída pelo vice-presidente Mike Pence, poderá servir de freio ao cumprimento de vários “compromissos” estapafúrdios assumidos, especialmente as ideias de cancelar programas sociais como o Obamacare, criado pelo presidente Obama para área da saúde.

Igualmente carente de visão ampla e justificativa convincente surgem as proposições de radical revisão do tratado de livre comércio da América do Norte (NAFTA), com Canadá e México, e a suspensão da parceria transpacífica, celebrada com as nações asiáticas que, se levadas adiante, podem provocar profunda desorganização nas redes de comércio e cadeias de valor, em escala global.

Embora com apreciável apelo popular, o manejo de instrumentos voltados à reindustrialização dos EUA e ao reordenamento geográfico do eixo dinâmico da economia mundial, com a supressão do protagonismo asiático, que representa 2/3 da população mundial, possuem reduzidas chances de concretização, ao reprovarem em qualquer modelo microeconômico de otimização.

No mesmo elenco de teses complexas aparece a eliminação dos acordos de suspensão do programa nuclear com o Irã, o fim do tratado de Paris, sobre o clima, assinado em 2015 e o reexame da participação americana na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

No terreno da política econômica, parece provável a ativação de mecanismos dirigidos à ampliação do protecionismo, diminuição da carga tributária incidente sobre as empresas e expansão líquida dos dispêndios governamentais (acréscimo em infraestrutura e defesa e declínio em saúde e previdência), o que, em circunstâncias de rota cadente do desemprego, forçará a elevação dos juros, valorização dólar e pronunciado rearranjo das carteiras de ativos financeiros globais em favor do mercado norte-americano, o que deve comprimir e encarecer o financiamento internacional, sobretudo para as nações com finanças públicas bastante desequilibradas.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é Economista, Consultor, Professor da FAE Business School, Ex-Presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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