Pontuação comportamental substitui holerite e amplia acesso ao crédito para trabalhadores de aplicativos

Com informalidade atingindo 72% dos profissionais de plataformas digitais no Brasil, fintechs utilizam análise de dados alternativos para conceder crédito progressivo a motoristas e entregadores
A expansão do trabalho autônomo e por aplicativos expôs os limites das esteiras tradicionais de análise de risco bancário. A exigência histórica de comprovantes formais de renda, como holerites e extratos consolidados, atua como barreira de entrada no sistema financeiro para profissionais sem vínculo empregatício formal. Para contornar essa restrição, a análise de crédito passou a incorporar a pontuação comportamental, metodologia baseada no histórico de pagamentos e no uso de serviços digitais.
O módulo especial da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), realizado em 2025 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que o Brasil possui mais de 2 milhões de pessoas atuando na economia de plataformas digitais (em aplicativos de transporte de passageiros, entregas e serviços gerais). O levantamento registra ainda que a taxa de informalidade entre esses trabalhadores alcança 72,1%, patamar expressivamente superior aos 42,7% observados no setor privado tradicional. Nesse cenário, a ausência de contracheque inviabiliza a contratação de empréstimos em bancos tradicionais, mesmo para trabalhadores com renda mensal constante.
A análise comportamental em substituição à comprovação documental de renda já aparece em diferentes formatos no mercado de crédito digital. O que ainda não se disseminou é a combinação específica desse modelo com o crédito rotativo integrado diretamente ao aplicativo do usuário (sem cartão, sem conta corrente vinculada e com progressão de limite lastreada exclusivamente no histórico de pagamentos). Essa configuração, que parte de valores acessíveis para cobrir necessidades imediatas e evolui conforme a adimplência, funciona na prática como uma primeira linha de crédito formal para trabalhadores sem vínculo empregatício registrado.
“O trabalhador de aplicativo tem fluxo de caixa diário, mas não conta com a previsibilidade de uma folha de pagamento. Os modelos tradicionais de análise costumam interpretar essa oscilação como um risco elevado e, muitas vezes, restringem o acesso ao crédito”, afirma Fernando Silva, CEO do Jeitto, aplicativo de crédito e consumo para as classes C e D.
Para atender esse público, o Jeitto desenvolveu um modelo de análise capaz de considerar diferentes comportamentos financeiros e adequar a oferta de crédito à capacidade real de pagamento de cada cliente.
Um dos principais produtos da empresa é o e-Grana, solução criada para atender às pequenas necessidades do dia a dia. Trata-se de um crédito digital rotativo de até R$500, disponível diretamente no app, sem cartão físico. A avaliação é feita de forma simples, com CPF e número de celular.
O ticket médio registrado no fim do mês é de R$265. Além de ampliar o acesso de pessoas que encontram dificuldades nas instituições financeiras tradicionais, a oferta de valores menores ajuda a evitar o superendividamento e funciona como uma ferramenta de gestão do fluxo de caixa familiar, especialmente em momentos de maior pressão sobre a renda.
Em 12 anos, o Jeitto já concedeu mais de R$7 bilhões em crédito e reúne 16 milhões de clientes cadastrados. Para 35% deles, o app representou o acesso ao primeiro crédito formal.
“O que mais de uma década de operação demonstra é que esse público honra seus compromissos quando o crédito é adequado à sua capacidade real de pagamento. O desafio não está apenas no risco, mas na existência de instrumentos capazes de mensurá-lo com precisão”, conclui Silva.








